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estudos:kockelmans:1985b:2.5

2.5 Essência da arte

KOCKELMANS, Joseph J. Heidegger on art and art works. Dordrecht ; Boston : Hingham, MA, USA: M. Nijhoff Publishers ; Distributors for the U.S. and Canada, Kluwer Academic Publishers, 1985.

Sobre a essência da arte: seu vir à presença e sua permanência

§ 31. Rumo à essência da arte

a) A arte como origem da obra, do artista e do preservador

  • A arte é origem da obra, do artista e do preservador porque a verdade se instaura na obra mediante sua produção e nela permanece operante mediante sua preservação; esses dois modos de participação pertencem ao acontecer da verdade na obra.
  • A expressão «pôr a verdade em obra» (das Ins-Werk-setzen der Wahrheit) conserva uma ambiguidade essencial: designa tanto a fixação da verdade na configuração da obra quanto a entrada do ser-obra em movimento por aqueles que a preservam.
  • A abertura da verdade não é extraída da soma dos objetos presentes nem transportada de outro lugar para a obra; ela acontece quando uma abertura advém à condição lançada do ser-aí (Dasein) e é projetada, permitindo que os entes apareçam sob uma nova medida.

b) O poetizar é a essência da arte

  • Toda arte é, em sua essência, poetizar (Dichtung), pois instaura uma abertura na qual os entes podem manifestar-se diferentemente do habitual; esse sentido amplo de poetizar abrange as diversas artes sem reduzi-las à composição de poemas.
  • O projeto poético (Entwurf) não produz uma alteração causal dos entes nem resulta da fantasia arbitrária: ele transforma o modo de seu desvelamento, fazendo emergir na obra um âmbito de sentido que a ordem cotidiana não podia fornecer.
  • A obra mantém aberto aquilo que o projeto poético traz à configuração, e a iniciativa desse acontecimento não se deixa atribuir exclusivamente à imaginação ou à vontade humana, pois nela está em questão o próprio vir à presença do ser.

c) A essência da arte, a linguagem e a verdade

  • A linguagem (Sprache) não se esgota na comunicação de conteúdos já conhecidos, porque o nomear traz pela primeira vez os entes à palavra e abre o âmbito em que podem aparecer como aquilo que são.
  • O dizer projetante é poetizar: nele se anuncia um mundo histórico, enquanto a terra permanece resguardada como aquilo que não pode ser inteiramente dito; a abertura do dizível traz consigo o reconhecimento do indizível.
  • A poesia em sentido estrito ocupa uma posição singular por acontecer diretamente na linguagem, mas arquitetura, escultura, música e outras artes conservam seus modos próprios de instaurar a verdade no âmbito aberto pelo dizer.
  • A preservação também participa do poetizar quando aqueles que acolhem a obra deixam a rotina habitual e permanecem na verdade que nela se abre, permitindo-lhe continuar a operar como obra.

§ 32. Sobre o vir à presença do poetizar

a) O poetizar como instituição originária, fundadora e doadora da verdade

  • O poetizar institui (Stiften) a verdade em três sentidos inseparáveis: doa (schenken) uma abertura não dedutível do já conhecido, funda (gründen) essa abertura em um chão histórico e inicia (anfangen) uma possibilidade de existência coletiva.
  • A doação poética faz irromper o extraordinário no meio do habitual, mas seu projeto não se dirige a um vazio: ele alcança um povo situado historicamente e traz à abertura possibilidades ainda ocultas em sua própria terra.
  • A fundação retira desse chão resguardado aquilo que pode tornar-se destino histórico e nele volta a firmar a obra; por isso, a novidade instaurada pela arte não se explica como simples invenção subjetiva.
  • O início genuíno pode preparar-se por longo tempo sem ser percebido e, quando acontece, abre uma medida histórica em tensão com a ordem anterior; a arte funda história ao fazer surgir um mundo, como ocorreu em distintas épocas do Ocidente.

b) A arte como salto originário (Ur-Sprung)

  • A arte é histórica em sentido essencial porque, ao produzir e preservar a verdade na obra, possibilita que um mundo comece ou recomece para um povo; sua historicidade não consiste apenas em ter uma data, transformar-se ou tornar-se objeto da historiografia.
  • Como salto originário (Ur-Sprung), a arte deixa a verdade irromper na obra e torna possíveis, a partir dela, os modos próprios de ser do artista e do preservador.
  • A questão da essência da arte permanece ligada à questão do ser: cada resposta alcançada conserva seu sentido somente enquanto mantém aberto o questionamento sobre como a verdade vem à presença e perdura historicamente.

§ 33. Sobre o pensar e o poetizar

  • Pensar e poetizar mantêm uma proximidade essencial com a linguagem porque ambos respondem, cada qual a seu modo, ao apelo do ser; a palavra autêntica requer uma escuta que acolha tanto o que se desvela quanto aquilo que permanece encoberto.
  • Na formulação que distingue suas tarefas, o pensador procura dizer o ser, enquanto o poeta nomeia o sagrado; essa diferença não rompe sua vizinhança, pois ambos se voltam para uma origem que antecede suas respostas individuais.
  • A linguagem é pensada como o âmbito em que o ser vem à palavra e em que o ser humano habita; poetas e pensadores guardam essa morada ao prestar atenção ao dizer que lhes é dirigido e ao responder-lhe sem reduzi-lo à fala habitual.
  • O dizer originário convoca coisas e mundo à sua proximidade: as coisas reúnem um mundo, o mundo lhes concede um lugar, e a diferença entre ambos os mantém relacionados sem dissolver sua distinção.
  • A vizinhança entre pensar e poetizar decorre do acontecimento apropriador (Ereignis), que os deixa vir à presença em sua diferença; a poesia acolhe esse acontecimento em seu dizer próprio, enquanto o pensamento interroga o que, nele, permaneceu impensado.
  • O poeta e o pensador podem abrir possibilidades históricas ao responder ao que ainda não encontrou palavra ou ao retomar o não dito da tradição; em ambos os casos, a resposta humana depende de uma escuta anterior, e não do domínio soberano de um sujeito sobre a linguagem.

§ 34. A relevância dessas reflexões para a arte contemporânea

  • A questão decisiva para o presente é saber se a arte ainda pode constituir uma origem (Ursprung) capaz de abrir história ou se permanece circunscrita à produção e circulação de bens culturais; a investigação de sua essência prepara o espaço dessa possibilidade sem poder provocá-la por decisão humana.
  • A ciência, a técnica e a organização industrial configuram um mundo em que os entes tendem a aparecer como objetos disponíveis para cálculo, controle e regulação; nesse contexto, também a obra corre o risco de tornar-se apenas um elemento da atividade cultural (Kulturbetrieb).
  • A projeção cibernética estende seus circuitos de informação e realimentação às relações humanas, enquanto o planejamento do futuro tende a prolongar as possibilidades já delimitadas pelo presente; permanece em aberto se a arte pode abrir uma medida que exceda esse horizonte.
  • O passo de volta (Schritt zurück) ao início grego não consiste em restaurar a Antiguidade, mas em pensar o que nela permaneceu impensado: a abertura em que natureza emergente e saber produtor puderam pertencer um ao outro.
  • O desvelamento não elimina o encobrimento, pois a clareira em que os entes aparecem também resguarda aquilo que se retrai; uma obra capaz de responder a essa condição teria de deixar aparecer e, ao mesmo tempo, preservar o silêncio diante do que não se presta ao planejamento.
  • A possibilidade de uma arte que volte a oferecer morada histórica permanece indeterminada, mas a escuta da abertura e de seu retraimento mantém viva a questão de sua origem diante do predomínio contemporâneo da ciência e da técnica.
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