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John Caputo

MANOUSSAKIS, John Panteleimon (ORG.). After God: Richard Kearney and the religious turn in continental philosophy. 1st ed ed. New York: Fordham University Press, 2006.

O Entusiasmo de Richard Kearney

  • Richard Kearney é um entusiasta genuíno, cuja prosa bela e poderosa, contagiantemente empolgante, está carregada de orações e lágrimas, e cuja erudição deslumbrante e imaginação indomável fazem dele um leitor perspicaz de Levinas.
  • No sentido antigo e literal de entheos – homem preenchido por Deus –, Kearney é movido por uma paixão pelo Deus que pode ser, pelo Deus que ainda está por ser o que pode ser, cuja possibilidade excede seu ser.

O Deus que Pode Ser Mais do que Deus

  • A teologia filosófica de Kearney gira em torno da distinção entre os conceitos escatológico e ontoteológico de possibilidade, opondo à possibilidade como potência inacabada a possibilidade como dynamis futura.
  • O famoso texto de Êxodo 3:14 não deve ser lido ontoteologicamente como “Eu sou o que sou”, mas escatologicamente: “Eu sou aquele que sempre será fiel, e por minha fidelidade todas as gerações futuras me conhecerão.”
  • Kearney argumenta que é mais sábio interpretar o Deus do Êxodo nem como ser puro ao modo da ontoteologia, nem como não-ser puro ao modo da teologia negativa – crítica que dirige a Marion –, mas como um “talvez” escatológico, um peut-etre.
  • Ao questionar o Deus do ato puro, Kearney une-se ao projeto teológico fundamental da filosofia continental contemporânea, que busca superar o Deus da metafísica e perguntar o que ou quem vem depois dele.
    • Desde sua tese doutoral, escrita sob orientação de Paul Ricoeur e Stanislas Breton, Kearney concentrou essa questão na noção de possibilidade.
    • Ao ato puro desapegado da onto-teo-lógica greco-metafísica, Kearney opõe o Deus bíblico escatológico: a dynamis à frente, o evento futural que puxa o presente para além de si mesmo.
  • Em um escrito recente, Kearney aproxima-se de Derrida para afirmar que Deus é inclusive a possibilidade do impossível – afirmação que motiva a própria convergência entre a “poética do possível” kearneyana e a noção derridiana do “impossível”.
    • Derrida sempre enfatizou que “o impossível” não é o oposto lógico simples do possível, mas o tout autre que despedaça o horizonte da possibilidade.
    • Somos empurrados a nossos limites, a um ponto descrito por Derrida como sans voir, sans avoir, sans savoir – onde a fé supre a falta de ver, a esperança supre a falta de ter, e a caridade supre a falta de saber.
    • O “im-” de “im-possível”, diz Derrida, não significa negação da possibilidade, mas algo que nos impele para a mais radical de todas as possibilidades – a possibilidade do impossível, que é uma questão de fé.
    • Kearney e Caputo concordam que a categoria do “impossível” é uma categoria religiosa central, pois as Escrituras afirmam que para Deus nada é impossível (Lucas 1:37).
    • Kearney afirma, usando expressão de sua Poetique du Possible citada por Derrida em “Comme si c'Etait Possible”, que o impossível é “mais do que impossível” (plus qu'impossible).

Complicando o Entusiasmo

  • Kearney expressa ao longo de sua obra uma preocupação constante e legítima com o niilismo – o risco de ser consumido pelo il y a de Levinas ou pela khora de Derrida –, e invoca o nome de Deus para contrapor as forças anônimas com a força do pessoal.
  • O abismo, o il y a e a khora não são necessariamente descrições sinonímicas de estados-limite: cobrem um leque amplo e díspar de fenômenos que nem Kearney nem Caputo discriminaram com suficiente cuidado.
  • A differance, embora por vezes desconcertante, não constitui um estado de loucura literal, mas o “espaçamento” inescapável no qual se constituem crenças e práticas – condição que torna qualquer sentido possível e também impossível.
  • A khora, diz Derrida, é um sobrenome da differance – figura encontrada no Timeu de Platão que simula a differance e funciona como contraparte do agathon, caindo abaixo do nível do sentido e do ser em vez de excedê-los.
    • Levinas observa que a illeite vai tão além do outro que começa a cair em uma “possível confusão” com o il y a – criando uma ambiguidade ou indecidibilidade entre os dois polos.
    • David de Dinant argumentou que Deus é matéria prima porque Deus não tem e não pode ser restringido pela “forma”; Tomás de Aquino considerou isso uma tolice, mas David havia tocado em um ponto fenomenológico: nossas experiências dos dois extremos não são tão amplamente separadas.
  • A principal objeção a Kearney é que ele confundiu a função semiótica e quase-transcendental da differance com terror, tortura e desolação, e acusou Caputo e Derrida de condenar todos a viver num deserto inhabitável chamado khora, sem esperança nem fé.
    • Kearney sustenta que Caputo e Derrida não conseguiram mostrar que a khora é “temporária” e que os cavaleiros do impossível seriam cavaleiros não da fé, mas da khora noturna – cavaleiros de resignação infinita aos quais, ao contrário do cavaleiro da fé, Isaque não é devolvido.
  • O oposto da indecidibilidade não é a decisão, mas a programabilidade: se uma situação não fosse habitada pela indecidibilidade, a decisão poderia ser tomada por um procedimento algorítmico, e não haveria verdadeiro exercício de julgamento e responsabilidade.
    • A indecidibilidade foi reconhecida primeiramente por Aristóteles na Etica a Nicomaco, onde a phronesis era precisamente a habilidade adquirida de descobrir o que fazer em situações singulares que escapam ao alcance das regras universais.
    • Afirmar que, ao nos aproximarmos do Deus que vem após a metafísica, não sabemos se é “Deus ou khora” não é deixar tudo suspenso na indecisão, mas descrever a esfera desértica na qual qualquer movimento genuíno de fé é feito.
  • Porque Kearney interpretou mal a indecidibilidade como indecisão, supôs que o movimento de fé em Deus extinguiria a khora – visão que pressupõe uma leitura “linear” de Levinas segundo a qual o il y a pode ser definitivamente superado.
  • O fantasma do il y a é inextinguível e irreprimível – perturba os dias e assombra as noites –, e é precisamente por isso que é a condição de possibilidade de qualquer decisão ética.
    • Sem o il y a, não há risque – so o beau.
    • Sem a khora, não há fé, pois então Deus teria se revelado plena e inequivocamente, sem nenhuma confusão possível.
    • Sem a khora, há triunfalismo, dogmatismo e a ilusão de acesso privilegiado ao Segredo – ilusão que alimenta a alucinação religiosa fundamental e leva grupos a crer que Deus os prefere a outros.
    • Sem a khora, não há “impossível”, não há poética do possível, porque não haveria nada que nos empurrasse ao impossível.
    • Sem a khora, não seríamos forçados a esperar contra a esperança – a esperança quando a esperança é impossível – nem enfrentaríamos a loucura do amor aos inimigos.
  • A khora é a felix culpa de uma fenomenologia do impossível, o coração sem coração de uma escatologia ética e religiosa – o diabo ao qual a justiça exige que se dê o que lhe é devido.
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