1.3 Ricoeur
GREISCH, Jean. L’arbre de vie et l’arbre du savoir: le chemin phénoménologique de l’herméneutique heideggérienne, 1919-1923. Paris: Editions du Cerf, 2000.
DA ANALÍTICA DA FINITUDE À HERMENÊUTICA
DA PATÉTICA DA MISÉRIA À FALIBILIDADE (PAUL RICŒUR)
1. Evoca-se por fim uma segunda versão de uma hermenêutica explícita da finitude, que também se enxerta diretamente numa releitura de Kant: trata-se da análise da falibilidade que constitui o ponto de irrupção hermenêutica de Paul Ricœur.
2. Essa concepção põe-se também nos antípodas da analítica da finitude no sentido de Foucault, sem no entanto renegar tão fortemente a referência à positividade das ciências humanas como o faz Heidegger.
3. Para Ricœur não há dúvida de que um pensamento a partir dos símbolos não pode deixar de se desdobrar do lado das ciências humanas.
4. A questão central de sua interrogação no segundo volume de sua filosofia da vontade é como passar de uma simples eidética das estruturas fundamentais do voluntário e do involuntário a uma empírica da vontade má que já sucumbiu ao mal.
5. Entre a eidética pura e a simbólica do mal, que só pode ser uma hermenêutica dos grandes símbolos e mitos do mal, é preciso intercalar uma antropologia filosófica centrada no tema da falibilidade.
6. Duas coisas retêm atenção nesse esboço de uma antropologia da falibilidade: por um lado, é ela que marca em Ricœur o limiar a partir do qual a hermenêutica propriamente dita poderá decolar; por outro, ela quer quebrar o grande imperativo que quase todas as antropologias contemporâneas parecem respeitar, o de fazer da finitude a característica global da realidade humana.
7. Dizer falibilidade é dizer primeiramente desproporção; reconhece-se aqui o eco do sentimento de inadequação de si a si que forma o núcleo mais íntimo da experiência da finitude tal como descrita por Jean Nabert.
8. O que prima então é uma concepção da finitude atravessada por um desejo de superação sempre contrariado e sempre renascente, ligado às condições mais profundas da consciência de si.
9. Aos olhos de Ricœur, essa desproporção só pode ser analisada sobre o pano de fundo do paradoxo cartesiano do homem finito-infinito, recorrendo à ideia de uma mediação imperfeita cujos traços se encontram até em seus trabalhos hermenêuticos mais recentes.
10. De saída nota-se o afastamento em relação à problemática de Foucault; Ricœur credita às filosofias da finitude o reconhecimento, ainda que a contragosto, do paradoxo do homem finito-infinito, mas pode-se perguntar se Michel Foucault não quis justamente escapar a esse paradoxo.
11. Aos olhos de Ricœur, só a polaridade finito-infinito e a hipótese das mediações imperfeitas entre esses dois polos permitem pensar a constituição ontológica do homem.
12. Ainda é preciso, o que já coloca na rota de uma abordagem hermenêutica, desdobrar o mais sistematicamente possível as diferentes mediações que caracterizam o ato de existir, isto é, o ato mesmo de operar mediações entre todas as modalidades e todos os níveis de realidade fora dele e nele mesmo.
13. Mesmo estando ainda numa abordagem transcendental, a feição hermenêutica da analítica da falibilidade confirma-se por uma aposta liminar relativa à articulação do filosófico e do pré-filosófico.
14. O homem não esperou os filósofos para tomar consciência de sua própria desproporção e inventar palavras para dizê-la; o saber que se refere a ela toma a forma de uma patética da miséria, que pode revestir múltiplas expressões e figurações.
15. Não é por nada que Ricœur qualifica essa patética de pré-compreensão; em sua ordem discursiva e em seu nível próprio, ela é tão perfeita quanto toda palavra filosófica, ainda que esta seja conceitualmente mais elaborada.
16. Aqui também intervém a noção de mediação; toda transposição direta, sem tradução mediadora, da linguagem existencial da patética da miséria numa linguagem ontológica teria por efeito o curto-circuito de uma ontologia fantástica do ser e do nada.
17. O interdito platônico reportado por Heidegger no início de Ser e Tempo permanece em vigor: não contar histórias, se se quer compreender; contar nossas misérias e alegrias é uma coisa, compreender o que somos é outra.
18. Alguns acrescentarão com Spinoza que só renunciando a nos lamentar e a nos alegrar nos tornamos capazes de compreender.
19. A última observação pode prestar-se a mal-entendido, convindo abrir uma breve parêntese sobre o papel da narrativa na elaboração de uma hermenêutica da finitude.
20. A finitude se conta, e contá-la é também interpretá-la; além disso, conforme o círculo inevitável evocado acima, há narrativa, e pluralidade irredutível de narrativas, isto é, segundo a fórmula de Wilhelm Schapp, pluralidade de histórias nas quais estamos enredados.
21. Entendida nesse sentido, a narratividade, longe de se reduzir a um simples problema de configuração literária, reveste um estatuto existenciário ao mesmo título que a historicidade (Geschichtlichkeit) heideggeriana, e releva de pleno direito de uma analítica da existência.
22. Não é por acaso que a hermenêutica de Ricœur, desdobrada a jusante de sua analítica da falibilidade, concede lugar importante ao fenômeno da intriga narrativa.
23. Precisamente porque nossas vidas têm um fim, elas podem e devem ser levadas à narrativa, notadamente quando se trata de contar a história das vítimas, tão rapidamente esquecidas.
24. Ao mesmo tempo que nos impõe uma certa ideia de finitude, a narrativa permite reformular o problema do fim; uma hermenêutica da finitude tem muito a ganhar deixando-se instruir pela maneira como a crítica literária trata o problema da conclusão dos relatos, isto é, as questões relativas ao que Frank Kermode chama the sense of an ending.
25. Nem todos os fechamentos se equivalem, nem são fins de partida sem saída: o fim pode também ser pensado sob o signo do cumprimento, em vez de sê-lo simplesmente sob o signo do fracasso e da ruptura.
26. Por outro lado, se nos colocarmos do lado dos resultados obtidos ao término da analítica da falibilidade, verifica-se que eles não conseguem preencher plenamente a distância entre o patético e o transcendental.
27. Isso vale mesmo para a última etapa, a mais dramática, dessa analítica, a análise da fragilidade afetiva; mesmo aqui subsiste a distância entre o afeto vivido e o afeto refletido.
28. Uma filosofia dos afetos não pode ser ela mesma afetiva, sob pena de deixar de ser filosofia; a estratégia de recuperação transcendental dos elementos de sentido contidos na patética da miséria fracassa.
29. Mas esse fracasso pode e deve ser assumido pela razão hermenêutica, que reconhece que a pré-compreensão do homem por si mesmo contém uma riqueza de sentido que a reflexão sozinha nunca poderá igualar.
30. É uma tripla trajetória que permite constituir o conceito de falibilidade, analisando primeiro a desproporção no plano da razão teórica, depois prática e, enfim, no da fragilidade afetiva.
31. Remetendo diretamente ao capítulo conclusivo, no qual o conceito de falibilidade se encontra verdadeiramente constituído, encontra-se uma tese que interessa diretamente à interrogação: tomada no sentido mais vago, a ideia de finitude confunde-se simplesmente com a de limitação.
32. Ora, nada mostra melhor os limites dessa ideia que a impossibilidade de aplicá-la diretamente ao problema do mal; a prova do mal contém mais que a simples experiência dos limites.
33. Por isso a ideia de limite, tomada enquanto tal, não pode dar conta da de falibilidade.
34. O limiar a partir do qual uma hermenêutica do mal pode se desdobrar requer a tríade kantiana das categorias da qualidade: realidade, negação, limitação, que, transferidas do plano da física ao da antropologia, se desdobram como afirmação originária, diferença existencial (ou negação) e mediação humana.
35. Nessa dedução, a finitude é resultado e não origem; a finitude não pode ser a primeira palavra da antropologia filosófica, mas sua última palavra.
36. Trata-se evidentemente de coisa muito diferente de uma simples mudança de posição; ela corresponde a uma mudança do próprio ponto de vista da compreensão: só assim a finitude poderá ser tida como sinônimo de fragilidade humana.
37. Em última análise, isso equivale a fazer do homem, para citar uma admirável fórmula de Ricœur que parece resumir o essencial, a Alegria do Sim na tristeza do finito.
