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Fim da filosofia
FABRIS, Adriano; CIMINO, Antonio. Heidegger. Roma: Carocci, 2009.
O fim da filosofia e a tarefa do pensamento (GA14)
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1. O percurso realizado através das etapas mais significativas do confronto de Heidegger com a filosofia tradicional conduz à indagação sobre a existência, para ele, de uma alternativa válida ao pensamento metafísico, ou se a reflexão filosófica atual, tal como se apresenta na obra do pensador alemão, não passa de uma série de múltiplas tentativas voltadas a repensar ou a desconstruir a tradição, num contínuo trabalho conceitual, impondo-se assim a questão sobre a existência, para Heidegger, de uma determinada tarefa para a filosofia do futuro e em que ela consiste.
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2. Ponto fundamental a considerar é a explícita e radical provisoriedade (Vorläufigkeit) com que Heidegger compreende e realiza o próprio pensamento, significando tal provisoriedade, em primeira instância, que não se pretende propor nenhuma visão de mundo, nenhuma filosofia da história, nem tampouco concepção que se oponha ao que se identifica como o paradigma tradicional do pensamento, tratando-se antes de aprender novamente a pensar, isto é, de realizar em primeira pessoa radical experiência de problematicidade capaz de libertar das múltiplas oposições que na tradição parecem destinadas a se reapresentar continuamente — como as que se dão entre irracionalismo e racionalismo, realismo e idealismo, metafísica e positivismo — e de abrir novos caminhos para redefinir não tanto a essência da filosofia, mas antes de tudo a essência do homem.
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3. A instância de radical problematicidade voltada ao futuro documenta-se de modo concreto no texto O fim da filosofia e a tarefa do pensamento (Das Ende der Philosophie und die Aufgabe des Denkens), considerável, dentro de certos limites, como espécie de testamento espiritual, no qual se retomam em linhas essenciais aspectos centrais do pensamento do evento e simultaneamente se traça uma espécie de mapa do território em que deveria mover-se o pensamento do futuro.
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4. No referido texto, a expressão fim da filosofia (Ende der Philosophie) refere-se a determinada configuração do pensamento, a da metafísica, considerada em sua constituição fundacionalista e onto-teo-lógica, ao passo que o conceito de fim não remete a visão pessimista de mundo nem à resignação de quem renuncia definitivamente ao pensamento, mas antes à conclusão ou ao cumprimento da filosofia no momento em que esta, enquanto metafísica, alcança o ponto em que sua história atinge sua extrema possibilidade, a saber, a inversão do platonismo realizada por Nietzsche.
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5. Segundo aspecto fundamental que caracteriza hoje o fim da filosofia, sempre no sentido de cumprimento de uma filosofia concebida como metafísica, consiste na afirmação das ciências vinculada à técnica moderna, observando-se que, desde a época grega, assiste-se ao fenômeno característico do nascimento e desenvolvimento das ciências, as quais se desenvolvem no horizonte aberto pela filosofia, mas dela progressivamente se distanciam, apresentando-se como saberes dotados de legítima autonomia própria.
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6. Tanto o pensamento nietzschiano quanto a imposição das ciências, que em aparência assinalam quase o desaparecimento da filosofia tradicional, constituem na realidade o exato oposto, expressão extrema e sobretudo consequente de dinâmica já caracteristicamente presente no mundo grego, permanecendo Nietzsche, a todos os efeitos, um filósofo, isto é, um pensador metafísico e platônico, ainda que — ou justamente porque — realiza dessas posições verdadeira inversão, enquanto a autonomização dos múltiplos saberes científicos manifesta-se como resultado de processo característico da metafísica tradicional, não podendo ser considerada algo que, de fora, se contraponha à filosofia enquanto metafísica e decrete seu desaparecimento.
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7. À pergunta sobre se o fim da filosofia equivale ao desaparecimento do pensamento como tal, responde-se negativamente, na medida em que a filosofia, enquanto metafísica e portanto platonismo, delineando o âmbito em que hoje se impõe a tecnociência, não esgota de modo algum o pensamento, de sorte que afirmar o fim da filosofia sob a forma da metafísica não equivale a decretar o fim do pensamento, sendo a filosofia enquanto metafísica apenas determinada forma de pensamento, por eminente e secular que seja, que encontrou em Nietzsche e na tecnociência seus resultados últimos.
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8. Ao descortinar essa perspectiva, não se pretende propor outra fundação da filosofia, o que equivaleria evidentemente a recair na metafísica, nem programa especulativo ulterior, mas antes focalizar, em tom modesto, os caracteres de um novo estilo de pensamento que não se conforme nem à metafísica nem à ciência, compreendendo-se este a si mesmo como situado numa época de transição, delineando-se tais caracteres como verdadeiras tarefas que a filosofia deve conscientemente assumir para superar os impasses da tradição metafísica.
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9. A primeira dessas tarefas consiste em levar cada vez mais a sério o confronto radical com a tradição filosófica e com a historicidade estrutural própria da reflexão, da existência humana e do ser enquanto evento, não pretendendo o pensamento do futuro eliminar a tradição, mas antes assumi-la segundo os caracteres próprios da meditação histórica.
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10. A segunda tarefa consiste na tomada de consciência de que o pensamento não pode ter repercussão ou efeito concreto sobre as condições de vida da sociedade pós-industrial na era da técnica, não lhe podendo ser atribuída vontade de modificar o existente com base em veleidades práticas ou políticas, o que significaria reafirmar aspecto próprio da metafísica da subjetividade: a redução de tudo o que é a algo manipulável, produzível, construível.
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11. A terceira característica do pensamento futuro consiste em sua natureza preparatória ou provisória (vorläufig), modalidade viva desde os anos juvenis, quando já a fenomenologia da faticidade renunciara a toda determinação estática e definitiva do filosofar, deixando espaço a método e articulação conceitual e linguística conscientes de sua provisoriedade estrutural, tratando-se, para o pensamento do futuro, de preparar novos cenários, não mais de construir ou edificar sistemas metafísicos, não sendo doutrinas aquilo que se prepara, mas antes atitude global do homem que lhe permite ultrapassar toda determinação fruto de residual vontade metafísica, devendo a preocupação principal desse pensamento consistir em manter o homem aberto e disponível para o possível, implicando concretamente a disponibilidade para ultrapassar os limites da visão tecnocientífica da idade moderna e contemporânea, na medida em que esta constitui apenas uma possibilidade para o homem, não a única nem a definitiva.
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12. Coerente com essa atitude preparatória, no duplo sentido de pensamento que pretende preparar em vez de construir e de pensamento que descortina possibilidades, situa-se quarta característica decisiva: o pensamento do futuro não se compromete com previsões nem oferece profecias, abrindo-se antes ao porvir na medida em que, voltando-se à tradição filosófica, busca explicitar as dimensões de sentido que esta não pensou, embora as tenha pressuposto e, por vezes, entrevisto, encontrando os diversos encargos do pensamento seu ponto de convergência na exigência de pensar o sentido do ser, sendo esta precisamente a coisa mesma (die Sache selbst) do pensamento.
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13. Ao falar da coisa mesma, retomando expressão presente, ainda que em formas ligeiramente diversas, em Husserl, mas também, anteriormente, em Platão, Kant e Hegel, refere-se precisamente àquilo que está em questão e que ainda deve ser pensado, a saber, aquela dimensão de sentido que a filosofia habitou desde o início, sem contudo tê-la trazido à luz de modo explícito e consciente: o evento, a verdade do ser.
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14. O modo específico como se compreende a relação entre o pensamento futuro e a história da filosofia esclarece-se analisando a relação com Hegel e Husserl, ambos empenhados, a seu modo, em radical refundação da filosofia movendo-se no horizonte da subjetividade absoluta — Hegel mediante seu método dialético-especulativo, Husserl mediante seu princípio de todos os princípios e a consequente tendência a buscar evidência última —, não consistindo o problema em evidenciar os erros desses filósofos, mas em perguntar se eles efetivamente alcançam um fundamento último ou se, ao contrário, suas próprias reflexões pressupõem estruturalmente algo ainda mais originário, movimento análogo ao dirigido também a Platão, paradigma de toda metafísica.
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15. Identifica-se na verdade do ser, entendida não mais como correspondência, mas como evento, clareira (Lichtung) ou desvelamento, a dimensão originária no interior da qual somente se tornam possíveis as tentativas filosóficas de Platão, Hegel e Husserl, instalando-se tanto a ideia quanto a subjetividade absoluta na dimensão de sentido que se dá como clareira, abertura, evento do ser, sem que tais autores possam, nessa perspectiva, aspirar a captar o originário, por não serem propriamente capazes de pensá-lo, significando recolocar a problemática do pensamento futuro não mais na perspectiva onto-teo-lógica, mas no interior da pergunta pela verdade do ser, descortinar a via que conduz a apreender o ser como evento, aquele irredutível e último dar-se em que toda filosofia determinada habita, sem contudo esgotar-lhe a riqueza.
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16. O pensamento heideggeriano escapa às contraposições conceituais que historicamente caracterizam a tradição filosófica, não podendo ser dito racionalista, na medida em que por razão se entenda o proceder lógico das ciências, a dialética especulativa de Hegel ou o intuicionismo fenomenológico de Husserl, nem tampouco irracionalista, uma vez que não se pretende contrapor às expressões fortes da filosofia passada, nem se pode falar de fundação última e absoluta, dado que se sublinha o caráter de estrutural ocultamento, de mistério, que atravessa o dar-se histórico-epocal do ser, sem que, todavia, o pensamento do evento se reduza a relativismo veladamente historicista, justamente por pretender ultrapassar as determinações unilaterais presentes nas diversas fases da história da metafísica.
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17. Permanecem evidentemente numerosos problemas em aberto, o que não deve ser tomado como carência, visto que aquilo que importa para Heidegger, além de toda retórica da problematicidade que facilmente se insinua sempre que se pretende ultrapassar as estreitas malhas de um pensamento modelado sobre padrão matemático ou científico, é aprender novamente a colocar perguntas de modo efetivamente radical, sentido mais profundo de um pensamento que jamais abandonou a paixão pelo reto e genuíno perguntar e que a confia, como tarefa principal, à filosofia do século XXI.
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