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La logica del luogo e la visione religiosa del mondo. Introdução e tradução de Tiziano Tosolini
1. Como afirma Pascal, “o homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota d'água bastam para matá-lo. Mas, ainda que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que aquilo que o mata”, e o motivo dessa nobreza é também o de sua miséria e da desgraça da vida humana; o homem, como corpo material e biológico, nasce numa natureza histórica, no mundo que passa do criado ao criante, e todo indivíduo vivente, ao exprimir em si uma totalidade, está sujeito ao desejo e se defronta desde o nascimento com a negação absoluta.
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O mundo da vida começa onde o mundo se exprime em si mesmo como identidade contraditória do uno e do múltiplo e por essa autoexpressão se forma, sendo tempo e espaço duas direções opostas do mundo.
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Os viventes, como indivíduos do mundo, formam-se exprimindo em si o mundo do presente absoluto, e os animais são instintivos, têm seu fim e, nos mais desenvolvidos, já são possuídos pelos desejos, nos quais se manifestam alegria e dor; também o animal possui uma alma.
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Todo indivíduo deseja tornar-se totalidade, mas ao tornar-se tal deixa de ser indivíduo, pois só é indivíduo diante de outro indivíduo, sendo por isso constantemente autocontraditório.
2. O desejo nunca é saciado, pois o que se sacia deixa de ser desejo, e o desejo gera desejos, oscilando o si como um pêndulo entre desejo e satisfação, de modo que a vida humana é, como diz o antigo adágio, um mundo de sofrimento; os animais não são verdadeiros indivíduos por pertencerem ao universal do espaço, enquanto o homem se forma autoexpressivamente transcendendo o mundo espaço-temporal de causa e efeito, como indivíduo autoexpressivo da autoexpressão do mundo, e por isso é cognitivo, volitivo e capaz de produzir conceitos, conhecendo suas ações e operando conscientemente.
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O prazer e o sofrimento corporais existem porque o si aparece expresso como organismo.
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Por agir conscientemente, a existência do si é pensada em termos predicativos.
3. O mundo humano é também de alegria e tristeza, dor e agonia, e quanto mais o si, implicado na autonegação do absoluto, se torna volitivo e pessoal, mais se defronta com a negação absoluta e com o uno absoluto, tocando Deus por correlação inversa e devendo escolher, desde as fontes da vida, entre morte eterna e vida eterna; Barth afirma que a fé é decisão, mas não humana, resposta ao chamado de Deus e dom da revelação, “na fé, o homem obedece com sua decisão à decisão de Deus”, e Paulo diz “já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim”, o que implica sempre oposição entre vontade divina e humana, de modo que só se pode falar de religião diante de um indivíduo inteiramente volitivo e único.
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Quem muda de vida e abraça a fé obtém a vida eterna; quem não o faz é lançado para sempre nas chamas do inferno.
4. Numa religião autêntica, a fé é alcançada não pelo simples sentimento, mas por uma vontade cultivada e aguda, quando todas as forças se esgotaram, decidindo-se de modo claro e unívoco pelo caminho, como ensina a parábola do caminho branco entre dois rios da Verdadeira Escola da Terra Pura; não há religião artística, pois arte e religião seguem direções opostas, e a religião grega, artística, nunca alcançou a verdadeira religião, tendo os gregos seguido a filosofia e os indianos a religião, e na Índia, embora o indivíduo tenha sido ainda mais ignorado, deu-se a verdadeira negação do indivíduo e a autoconsciência da necessidade de negá-lo.
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A palavra intuição pode induzir a confundir arte e religião.
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Seria grave erro considerar o budismo Mahayana um panteísmo.
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Na Grécia não houve verdadeira autoconsciência do indivíduo: em Platão o indivíduo não existe, em Aristóteles não é volitivo.
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Na filosofia indiana a vontade é absolutamente negada, e a religião indiana parte de perspectiva oposta à israelita.
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A cultura indiana, oposta à da Europa moderna, pode por isso ter algo a oferecer ao mundo atual.
5. O mundo, identidade contraditória de espaço e tempo, é um mundo de causa e efeito sem fim que passa do criado ao criante como autodeterminação do presente absoluto, e o si, embora indivíduo desse mundo, conhece-o transcendendo-o, o que o torna mais precioso que o universo que se arma para esmagá-lo, porque se constitui como autonegação do absoluto que se autodetermina expressivamente, como indivíduo múltiplo do uno absoluto, estando sempre em contato com ele por correlação inversa e sendo, portanto, religioso e capaz de entrar na vida eterna, na vida-e-contudo-morte ou morte-e-contudo-vida.
6. O problema religioso é inteiramente problema do si volitivo, do indivíduo, mas não diz respeito à busca de tranquilidade, que se situa em perspectiva oposta, pois um si que apenas teme a dor e busca o prazer é mero ser biológico, e para ele a religião seria ópio do povo; o si, autonegação do uno absoluto, quanto mais se torna indivíduo, mais se põe diante de Deus, no limite extremo do indivíduo e do uno total, apresentando-se cada si diante de Deus como representante da humanidade do eterno passado ao eterno futuro e como um dos inúmeros centros da esfera infinita sem circunferência cujo centro está em toda parte.
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Se a religião fosse busca de tranquilidade, não chegaria a pôr questões morais.
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Cada si põe-se diante do presente absoluto como sua determinação momentânea.
7. Quando o absoluto se determina como identidade absolutamente contraditória do múltiplo e do uno, o mundo, autodeterminação do nada absoluto, é sem fundamento volitivo, e na unicidade total a vontade absoluta se confronta com as inúmeras vontades individuais, emergindo o mundo humano da lógica da afirmação-e-contudo-negação da sabedoria prajñā, conforme o dito “Faz surgir a mente que não se detém em parte alguma”; Banzan Hōjaku, sucessor de Baso, diz: “É como brandir uma espada no ar; o problema não é se a espada atinge ou não o objeto. No ar não fica nem traço do círculo vazio traçado pela espada, e sua lâmina não se lasca. Comparando-se essa imagem à mente, a mente é ignara, inteiramente vazia de pensamentos e imaginações. A totalidade da mente coincide com o Buda e a totalidade do Buda coincide com a mente. Não há diferença alguma entre o Buda e a pessoa. Este é o início da Via”, expressão da identidade contraditória do si e do mundo, do indivíduo e do todo.
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Pela lógica objetiva isso parece panteísmo, mas as palavras dos mestres zen afirmam sempre negando uma identidade contraditória.
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Dizer que o Buda-todo e o indivíduo são um implica uma afirmação-e-contudo-negação, e o verdadeiro indivíduo constitui-se como autodeterminação momentânea do presente absoluto.
8. O que se manifesta como autodeterminação do Nada é a vontade, e o si volitivo não é ser subjetivo nem predicativo, mas surge como autodeterminação do lugar na identidade das direções do sujeito e do predicado, tocando o absoluto passo a passo por determinação inversa, sempre como indivíduo único, isto é, no limite extremo do humano e como representante da humanidade, como na palavra de Rinzai, “no vosso pedaço de carne vermelha há uma pessoa verdadeira sem posição (vera persona senza rango) que entra e sai pelas portas do rosto de cada um de vós”, e na de Shinran, “quando reflito bem sobre o Voto que Amida pronunciou após meditar por cinco éons, percebo que tudo isso foi unicamente para mim, Shinran”, que não se refere a um mero indivíduo.
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Por isso a moral é universal, enquanto a religião diz respeito a indivíduos, e Kierkegaard distingue o cavaleiro da moral (cavaliere della morale) do cavaleiro da fé.
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Agamêmnon sacrificando Ifigênia e Abraão prestes a sacrificar Isaac têm significados opostos, como mostra com clareza Temor e tremor.
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Abraão, a caminho de Moriá, está diante de Deus como indivíduo singular no limite extremo do humano, respondendo “Eis-me aqui!” ao chamado “Abraão!”, e ao mesmo tempo como representante da humanidade, a quem Deus diz: “Eu te abençoarei com toda bênção e multiplicarei muito a tua descendência. Na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque obedeceste à minha voz”.
9. No mundo religioso, quando o indivíduo se despoja de si e retorna a Deus, não busca a paz espiritual, mas sacode de si a própria humanidade e experimenta o fato da criação divina, onde Deus se revela e o homem encontra a revelação, obedecendo com sua decisão à decisão de Deus; a queda de Adão indica que o homem se origina como autonegação de Deus, o que em termos budistas corresponde ao súbito surgir do pensamento (improvviso sorgere del pensiero), sendo o homem autocontraditório desde os primórdios e marcado pelo pecado original, do qual não pode libertar-se por si, salvando-se apenas pela fé em Cristo como revelação do amor de Deus, morrendo em Adão e vivendo em Cristo.
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A fé não é crença subjetiva, mas toca o surgimento do mundo histórico.
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Moralmente é irracional que o pecado dos pais passe aos filhos, mas essa é a realidade da existência humana.
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Para a Verdadeira Escola da Terra Pura, este mundo é inteiramente cármico, velado pela ignorância de avidya e preso ao samsara, e salva-se pelo Voto Compassivo de Amida e pela fé em seu Nome, respondendo ao chamado do absoluto.
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A consequência última é dizer com o mestre zen Bankei que “este mundo do samsara torna-se, tal como é, o mundo do não nascimento”, sendo a totalidade do Buda idêntica à pessoa, como brandir uma espada no ar ou, como diz Jōshū, “como lançar uma bola nas corredeiras: os pensamentos não se detêm nem por um instante”.
10. A relação religiosa consiste na identidade contraditória entre o que sempre transcende o si e o constitui e o si único, individual e volitivo, isto é, entre o totalmente transcendente e o totalmente imanente, não podendo ser pensada nem objetivamente de fora nem subjetivamente de dentro, mas a partir do mundo histórico como autodeterminação do presente absoluto, o qual tem sempre algo de religioso em seu fundamento constitutivo e no qual cada si é inteiramente criado e ao mesmo tempo cria, participando da formação autoexpressiva do mundo.
11. Nesse mundo há duas direções da atitude do si diante do absoluto, a da autodeterminação espacial e a da autodeterminação temporal do presente absoluto, mas o mundo pensado apenas como autodeterminação espacial não passa do mundo da natureza e não é histórico, pois o mundo histórico deve incluir o homem como mundo de determinação mútua e identidade contraditória de subjetivo e objetivo, mundo da vida que se exprime e se forma nessa autoexpressão.
12. Na direção externa, espacial e objetiva, o si é o que se exprime transcendendo-se e entra em contato com a autoexpressão do absoluto, direção seguida até o fim pelo cristianismo, pois Javé, originariamente Deus de Israel, purificou-se na história e sobretudo nos sofrimentos desse povo até dar origem a uma religião mundial do absoluto; o budismo, ao contrário, seguindo a direção temporal e subjetiva, ultrapassa o si pondo-o em contato com um absoluto transcendente, e seu caráter peculiar é essa direção de transcendência imanente.
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Os profetas eram considerados boca de Deus, comunicadores de sua vontade.
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No cativeiro babilônico, privada do rei, a religião de Israel foi fortalecida interiormente por Jeremias e Ezequiel e elevada além de si mesma.
13. O si autoconsciente não é instintivo como mero ser subjetivo nem racional como mero ser predicativo, mas, identidade contraditória de espaço e tempo, é subjetivamente predicativo e predicativamente subjetivo, existência volitiva que forma a história na passagem do criado ao criante e que, por correlação inversa, se põe diante do absoluto que o transcende e confronta de fora e de dentro: na direção externa encontra um imperativo absoluto a que deve obedecer negando-se, vivendo se obedece e sendo lançado no fogo eterno se recusa; na direção interna, o absoluto envolve inteiramente o si e persegue o si desobediente que foge, e essa é sua infinita compaixão.
14. Também o amor é, de certo modo, relação de identidade contraditória entre pessoas que constantemente se opõem, e o amor absoluto significa envolver sempre aquilo que se opõe completamente; o si volitivo, existência autocontraditória, choca-se no fundamento de sua constituição com aquilo que o constitui e aí entra em contato com o amor absoluto que o abraça, pois o si pessoal não se constitui de simples conflito de vontades, razão pela qual em toda religião Deus é, em certo sentido, amor.
15. O verdadeiro absoluto deve negar-se até tornar-se diabólico, sentido do meio hábil (upāya) religioso, e deve ver a si mesmo até no ato de tornar-se demoníaco, onde surgem religiões como a Verdadeira Escola da Terra Pura, para a qual justamente os maus têm direito à salvação, e uma religião baseada no amor absoluto, na qual, quanto mais único e volitivo se torna o si, mais vale a palavra de Shinran de que o Voto de Amida foi feito unicamente para ele; o absoluto, negando-se completamente, torna o homem verdadeiramente humano e o salva.
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Os meios hábeis e os milagres referidos pelos homens religiosos compreendem-se pela autonegação absoluta do absoluto.
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Diz-se que o Buda, para salvar o homem, rebaixa-se até tornar-se demônio, e a ideia de autonegação de Deus encontra-se também na doutrina cristã da encarnação.
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Este mundo é o mundo do Voto compassivo de Amida, dos meios hábeis, em que o Buda salva o homem assumindo formas diversas.
16. Das duas direções opostas da relação entre o si e o absoluto nascem dois tipos de religião, cristã e budista, mas a que assume abstratamente apenas uma delas não é verdadeira religião, pois um Deus apenas transcendente não é verdadeiro Deus, que deve ser Deus de amor, como o cristianismo reconhece ao dizer que Deus criou o mundo por amor, e a obrigação moral só brota do fundo do coração porque o si é envolvido pelo amor absoluto, sem o qual ela seria apenas questão legal.
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O amor não é instinto; o instintivo é cobiça pessoal, e o verdadeiro amor é relação de identidade contraditória entre pessoas, entre um eu e um tu.
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Kierkegaard chama dever o amor cristão, e no fundamento do reino dos fins kantiano deve haver amor puro, pelo qual somente se constitui a pessoa.
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Julga-se o amor instintivo ou impessoal porque se pensa a existência humana pela lógica objetiva, como mero sujeito de juízo, quando a verdadeira obrigação do si emerge, em termos budistas, do mundo do Voto compassivo do Buda.
17. O mundo do amor absoluto não é de condenação mútua, mas mundo criativo de respeito e amor recíprocos em que o si e o outro são um, sendo todos os valores criativos e toda criação proveniente do amor; o Nenbutsu, para quem o pratica, não é prática nem bem, pois implica abandonar a força própria e confiar na força do Outro, e a espontaneidade dármica (jinen hōni) deve ser criativa, agindo o si como elemento criativo do mundo criativo, o que em termos cristãos significa a coincidência da decisão de Deus com a humana, conforme o poema do mestre zen Munan: “Enquanto vives / sê como morto, / completamente morto, / age seguindo o coração, / e tudo irá bem”; desse ponto de vista o si é verdadeiramente criativo no mundo histórico.
18. O budismo desenvolvido na Índia oferece verdades religiosas profundas, mas não foi além da renúncia ao mundo, e nem o Mahayana alcançou a efetividade do mundo, enquanto no budismo japonês ideias como o verdadeiro agir é um não agir e a espontaneidade dármica de Shinran, expressões da mentalidade japonesa que tem a realidade atual por absoluta, contêm algo da afirmação-e-contudo-negação absoluta, até agora mal entendido como passividade absoluta ou não discriminação irracional, quando a autêntica atividade absoluta deve nascer de uma verdadeira passividade absoluta.
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O juízo dos juízos, que transcende o juízo consciente abstrato, contendo-o e estabelecendo sua correção, ou a discriminação da não discriminação, isto é, a ação-intuição, é condição fundamental da ciência.
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No fundamento do conhecimento científico, tornando-se coisa se vê e tornando-se coisa se ouve, perspectiva de Dōgen ao afirmar que “todos os dharmas autenticam o si”.
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Também aqui o si, como autodeterminação do presente absoluto, obedece às decisões de Deus por meio de suas próprias decisões.
19. A discriminação da não discriminação não significa que o si siga algo externo, mas que obedece ao que o transcende e constitui, de modo volitivo, como identidade contraditória de sujeito e predicado, sendo por isso ação-intuição, e toda verdadeira ação desinteressada, assim como a ação moral que partilha esse pressuposto, é religiosa em seus fundamentos, ideia inacessível a quem está preso à filosofia kantiana; só a lógica do lugar compreende uma verdadeira religião da força do Outro e permite uni-la, centrada no Voto compassivo de Amida, à cultura científica contemporânea.
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O espírito da época atual talvez exija antes uma religião do Voto compassivo absoluto de Amida que uma religião do Senhor dos Exércitos, questão sobre a qual os budistas devem refletir criticamente.
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Uma guerra mundial deve ser uma guerra em que o mundo inteiro negue a guerra, em vista de uma paz eterna.
20. A relação entre Deus e o homem não é relação de poder nem de finalidade no sentido comum, mas relação expressiva, pois o absoluto possui-se e vê-se na autonegação absoluta, e o que se lhe opõe nessa autonegação é expressão do próprio absoluto; trata-se da relação entre o que sempre se exprime autonegativamente e o que, tendo sido expresso, se lhe opõe autoexpressivamente, nem mecânica nem teleológica, mas identidade absolutamente contraditória entre o inteiramente criativo e o que, criado, cria, incluindo sempre essa dimensão do criar e do ser criado.
21. Compreender o outro é uma espécie de ação, não por ser movido de fora ou de dentro, mas por criar a si mesmo autoexpressivamente, assim como mover o outro pela própria autoexpressão não é tornar-se o outro, mas fazer que o outro se crie autoexpressivamente, e nessa relação se constitui a compreensão recíproca entre pessoas; o mundo autoexpressivo é o mundo autocriativo e vice-versa, sendo expressivo em seu aspecto autonegativo, onde os indivíduos se opõem, e formativo em seu aspecto autoafirmativo, como unicidade total.
22. Na formação do mundo histórico, expressão é poder, potencialidade de operação formativa, e não o simples significado de fenomenólogos e hermeneutas, que a abstraem de seu dinamismo formativo e a reduzem ao conteúdo de um mundo estático; tudo o que existe concretamente se forma autoexpressivamente, e a vontade, no sentido mais profundo, é a atividade pela qual o si, ponto autoformador do mundo, forma o mundo exprimindo-o em si, de modo que até os símbolos têm poder formativo e a palavra de Deus deve ser assim compreendida, constituindo-se o mundo histórico a partir do absoluto que se vê em si por autonegação, razão pela qual se diz que Deus cria o mundo por amor.
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Tradicionalmente a vontade foi pensada abstratamente como operação da consciência, mas sem que o si exprimisse o mundo em si não haveria operação volitiva.
23. A relação entre o que se exprime e o que se exprime ao ser expresso é relação de expressão, isto é, de palavra, meio entre Deus e o homem, que não é mecânica, teleológica nem racional: Deus encontra o si como vontade absoluta e se exprime como palavra formativa, e isso é a revelação, como nos profetas que, em lugar de Deus, diziam “Assim diz Javé, Senhor dos Exércitos, Deus de Israel”; o verdadeiro dever histórico de cada época deve ter a natureza da palavra de Deus, outrora transcendente, como em “Foi-me dirigida esta palavra do Senhor”, hoje inteiramente imanente, autoexpressão do fundo do mundo histórico, mas sempre transcendente-e-contudo-imanente, cabendo ao verdadeiro filósofo imergir criticamente no mundo e compreender seu dever histórico.
24. Também na Verdadeira Escola da Terra Pura o Buda se exprime no Nome Sagrado e a salvação vem da fé no poder maravilhoso do Nome, pois a continuidade da descontinuidade entre o absoluto e o homem só se realiza pela expressão, pela palavra, e só o Nome revela a compaixão absoluta do Voto de Amida, como afirma o Tannishō.
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“É com base no mistério do Voto que Amida concebeu o Nome, fácil de reter e de proclamar, e prometeu acolher quantos o pronunciam. Por isso recitamos o Nenbutsu crendo que seremos libertados da cadeia de renascimentos e mortes, salvos pelo mistério da grande misericórdia e do grande Voto de Amida. Mas se percebemos que a própria recitação do Nenbutsu é intenção e vontade de Amida, nosso juízo e nossa vontade nada têm a ver com isso. Assim sabemos que nascemos na Terra da Verdadeira Recompensa, segundo o Voto de Amida. Se, portanto, cremos no mistério do Voto, estando nele incluído o mistério do Nome, o mistério do Voto e o de seu Nome são uma só coisa e de modo algum duas coisas diferentes.”
25. A relação entre o absoluto e o homem, sempre como correlação inversa, dá-se apenas na expressão do Nome Sagrado e não é perceptível pelos sentidos nem questão de razão, que é sempre imanente e humana, e não via de comunicação com o absoluto: o si opõe-se ao absoluto no ápice da vontade individual e Deus encontra o si como vontade absoluta, mediação entre vontades que só pode ocorrer pela palavra, a qual, como logos, é racional, mas é a única capaz de exprimir o que supera a razão, pois a vontade transcende e até rompe a razão.
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O que transcende completamente o si e contudo o encontra deve exprimir-se objetivamente.
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A arte também é expressão objetiva, mas sensorial e não volitiva, enquanto a expressão religiosa refere-se a uma vontade absoluta que se opõe ao si pessoal.
26. O Buda transcende totalmente o si e contudo o envolve, a ponto de Shinran dizer que “a própria recitação do Nenbutsu é intenção e vontade de Amida”, sentido de seu salto transversal, efeito do poder maravilhoso do Nome Sagrado; em toda religião autêntica, fé e salvação exigem entre o absoluto e o homem a razão do absurdo (ragione dell'assurdo), própria não dos sentidos nem da razão, mas da palavra criativa como autoexpressão do absoluto, como no cristianismo, “No princípio era o Verbo” e “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”, e no budismo, onde o Buda se identifica com o Nome Sagrado, palavra que não é trans-racional nem irracional, mas faz do si um verdadeiro si e da razão uma verdadeira razão.
27. Quando Shinran afirma que “no Nenbutsu, a verdadeira compreensão é uma não compreensão”, não se trata de tornar-se inconsciente, mas da discriminação da não discriminação, em que o criativo age como identidade contraditória de conhecimento e prática; no cristianismo, a criatividade da palavra de Deus pessoal e transcendente contém um sentido de condenação, e por isso se é justificado pela fé, ao passo que a criatividade do Nome Sagrado, expressão da grande compaixão e misericórdia do Buda, salva e abraça o si, que chega à espontaneidade dármica, entendida não como naturalidade comum, mas como ser envolvido no Voto da compaixão absoluta.
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Não se trata de tornar-se distante e indiferente: a grande sabedoria nasce da grande compaixão e misericórdia, sem as quais seria dogmatismo egocêntrico ou mero passatempo lógico.
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A verdade existe onde tornando-se coisa se pensa e tornando-se coisa se vê, e compaixão significa assumir radicalmente esse ponto de vista, sendo o agir autoafirmação na negação do absoluto.
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Para conhecer verdadeiramente uma pessoa é preciso adotar a perspectiva do sem pensamento nem ideia (senza pensiero né idea), e também nas verdades científicas o si conhece como autodeterminação do presente absoluto, podendo-se falar ainda aí de espontaneidade dármica.
28. A compaixão não nega a vontade, mas a constitui, pois o si não é ser subjetivo nem predicativo, mas locativo, subjetivamente predicativo e predicativamente subjetivo, e é compassivo em seu fundamento, já que compaixão significa que dois totalmente opostos se tornam um por identidade contraditória; a vontade, instintiva no aspecto subjetivo e racional no predicativo, é histórico-formativa como autodeterminação do lugar, e a autenticidade existe onde não há o menor traço de um eu, onde o si é pura determinação do lugar, devendo a perfeita autenticidade apoiar-se na grande compaixão, fundamento da razão prática.
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A moral kantiana é cívica, mas a moral histórico-formativa deve basear-se no Voto compassivo de Amida.
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Segundo D. T. Suzuki, a ideia do Voto compassivo está ausente das raízes culturais ocidentais, e nisso se manifesta a diferença fundamental entre cultura oriental e ocidental.
29. O zen, que teria exercido grande influência na cultura japonesa, não é misticismo: o satori, como ver a própria natureza, é penetrar até o fundo do si, que se constitui como autonegação do absoluto e é por isso fundamentalmente autocontraditório, possuindo sua existência naquilo que em seu íntimo sempre o transcende e afirmando-se ao negar-se, o que exige compreensão radical da razão do absurdo, para a qual o kōan é apenas um meio, como no caso de Shuzan Oshō, que, erguendo um bastão curto diante dos discípulos, disse: “Ó monges! Se chamais isto de bastão curto, opondes-vos à sua realidade. Se não o chamais bastão curto, ignorais o fato. Dizei-me, ó monges: como quereis chamá-lo?”.
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A própria autoconsciência em que o si se conhece já é autocontraditória.
30. A razão do absurdo não é irracional, mas, como na palavra de Shinran de que a verdadeira compreensão é não compreensão, identidade contraditória de númeno e fenômeno, de conhecimento e prática, onde se constitui também a ciência e de onde nasce a fórmula do criado ao criante, perspectiva da autodeterminação do mundo histórico e de um nível extremamente ordinário, como diz Rinzai: “No Buda-dharma não se exige esforço algum. Basta ser uma pessoa comum, sem nada mais a fazer além de defecar, urinar, vestir-se, comer e, quando cansado, repousar. O tolo ri de mim, mas o sábio compreende o que digo”; a escatologia refere-se precisamente a esse nível ordinário, e todos os mal-entendidos sobre o zen derivam da lógica objetiva.
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Mente-e-contudo-Buda, Buda-e-contudo-mente não exprime uma visão subjetivista, mas, como em “todas as mentes não são mentes, por isso se chamam mentes”, a identidade contraditória de mente e Buda, do indivíduo e do todo, segundo a lógica prajñā.
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Não é que a mente exista e por isso o mundo exista: o si é pensável dentro do mundo histórico, e, conforme A vida, o mundo do si consciente constitui-se como autodeterminação do mundo histórico em seu aspecto temporal, de modo que todas as perspectivas subjetivistas partindo de um si consciente abstrato apenas obscurecem a visão.
