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estudos:davis:heidegger-nietzsche-2007

VOLUMES DE NIETZSCHE [GA6] COMO LUGAR DE UMA CRISE E UMA VIRADA (2007)

DAVIS, Bret W. Heidegger and the will: on the way to Gelassenheit. Evanston, Ill: Northwestern Univ. Press, 2007.

A Auseinandersetzung de Heidegger com Nietzsche foi também um confronto com sua própria aceitação da vontade. Confrontar-se com a afirmação radical de Nietzsche sobre a vontade de poder levou Heidegger a uma crise: querer ou não querer? Mas será essa a única maneira de formular a questão? Não poderia haver uma terceira via, radicalmente diferente: ser? O caminho de Heidegger para se recuperar desse dilema, na verdade, não o levou à resignação schopenhaueriana nem ao voluntarismo nietzschiano, mas sim o colocou explicitamente no caminho do não querer.

As palestras e ensaios que compõem os dois volumes de Heidegger sobre Nietzsche foram escritos entre 1936 e 1946.2 Após a publicação desses volumes em 1961, Heidegger escreveu: “Considerada como um todo, a publicação tem como objetivo fornecer uma visão do caminho do pensamento que segui de 1930 até a ‘Carta sobre o Humanismo’ (1947)” (N1 10/xl). Em outras palavras, os volumes sobre Nietzsche são um documento das mudanças no desenvolvimento do pensamento de Heidegger. Ambos reúnem o pensamento do início da década de 1930 e inauguram o pensamento posterior, encontrado em ensaios como a “Carta sobre o Humanismo”. De fato, apesar dos passos cruciais dados em obras anteriores, pode-se dizer que a segunda virada decisiva no pensamento de Heidegger, o afastamento de uma filosofia que ainda muitas vezes extrai suas categorias e sintonias do domínio da vontade, ocorre nos volumes sobre Nietzsche.

Por mais simplificado que seja o comentário de Hannah Arendt, há de fato um sentido importante em que, no primeiro volume, Heidegger ainda “acompanha” Nietzsche, enquanto o segundo é escrito em um “tom polêmico inconfundível”. 3 Na primeira série de palestras, Heidegger apresenta uma descrição surpreendentemente afirmativa da vontade, ou pelo menos daquela “vontade genuína que surge com determinação [Entschlossenheit], aquele ‘sim’ [que] instiga a tomada de todo o nosso ser, da própria essência dentro de nós” (N1 57/47). Ele chega, assim, a equiparar o sentido de vontade que encontra em Nietzsche à sua própria noção de determinação: “A vontade é, em nossos termos, Entschlossenheit, na qual aquele que quer se coloca entre os seres para mantê-los firmemente dentro de seu campo de ação” (59/48). A mudança de Heidegger em relação à vontade não é meramente uma questão de mudança de terminologia; ela sinaliza uma mudança fundamental no pensamento, na medida em que é precisamente essa característica do homem “posicionar-se entre os seres para mantê-los dentro de seu campo de ação” que se torna o alvo da crítica de Heidegger à vontade como uma questão do que estou chamando de “incorporação extática”.

Embora na primeira série de palestras Heidegger siga em grande parte Nietzsche ao ver a vontade como responsável por “instigar a própria essência dentro de nós”, e embora sua descrição fenomenológica da vontade permaneça notavelmente consistente, na quarta série de palestras a avaliação de Heidegger sobre a vontade sofreu uma alteração drástica, se não uma conversão. Além disso, o alcance fundamental da vontade é radicalmente questionado. Agora, Heidegger escreve: “Para Nietzsche, a vontade de poder é o factum último ao qual chegamos. O que parece certo para Nietzsche é questionável para nós” (N2 114/73).4 Heidegger reconhece de fato a vontade de poder como a essência do homem moderno e, de fato, como a maneira pela qual o ser dos seres se revela (em extremo ocultamento) nesta época. E, no entanto, ele continua perguntando: “Mas a própria vontade de poder — onde ela se origina…?” (ibid.). Se a vontade de poder é de fato determinada por um particular envio do ser, ou seja, como uma época extrema de auto-retirada do ser em sua essência mais própria, então, nesse abandono dos seres à vontade de poder, está oculta a possibilidade de um retorno (Einkehr) a um modo mais originário de ser.

Isso não implica uma simples rejeição do pensamento de Nietzsche, mas sim uma tentativa de ir além dele, passando por ele. É ao revelar a omnipresença da vontade de poder na época moderna que se pode despertar a necessidade de uma mudança para outra forma de ser. Nesse sentido, Heidegger continuará a “acompanhar Nietzsche”: “a metafísica moderna da subjetivação se consuma na doutrina de Nietzsche da vontade de poder como a ‘essência’ de tudo o que é real” (GA 5:239/83). No entanto, segundo Heidegger, o que o pensamento de Nietzsche afirma revelar como a essência imutável dos seres como tais — isto é, a vontade de poder como “o mundo visto de dentro”, como “o fundamento e o caráter últimos de toda mudança” e como “a essência mais íntima do ser” — deve, na verdade, ser historicamente situado em uma época particular da história do ser. A vontade de poder é o letzte Faktum apenas dentro do que Heidegger delimita como a penúltima epoche da verdade do ser na metafísica da modernidade; ela é precedida pela vontade da razão dialética e seguida pela vontade tecnológica de querer.

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