estudos:cassin:pan
“Todo” e “conjunto”: pan aberto / holon fechado
CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014
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Dupla via grega para dizer o todo
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O grego antigo dispõe de duas séries principais para expressar o todo.
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A primeira série articula pas e to pan.
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A segunda série articula holos e to holon.
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A distinção não coincide com a oposição latina entre omnis e totus.
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Trata-se de uma diferença conceitual estrutural, não apenas lexical.
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Complexidade semântica e gramatical de pas e holos
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Pas pode significar todo, cada ou todos.
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Holos significa inteiro, completo, total.
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Pas pode corresponder tanto a omnis quanto a totus.
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Holos corresponde apenas a totus.
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A ordem das palavras modifica decisivamente o sentido.
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Pasa polis designa qualquer cidade.
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Pasa hê polis designa a cidade inteira.
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Hê pasa polis designa a cidade como conjunto.
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A forma intensiva hapas reforça a totalização sem exceção.
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Indistinção aparente e problema conceitual
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Tanto pas quanto holos podem ser traduzidos por todo.
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Ambos podem significar o conjunto completo de partes.
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Essa sobreposição torna a distinção difícil.
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A diferença não é quantitativa, mas estrutural.
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Ela concerne ao modo de constituição da unidade.
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Indicação etimológica do sentido de holon
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Holos remete à ideia de completude íntegra.
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Está ligado ao sânscrito sarva, completo e intacto.
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Dessa raiz derivam termos ligados à salvação e à saúde.
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O holon designa o todo como mais do que soma das partes.
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Ele implica integridade e coesão interna.
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Exemplo platônico da sílaba
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Sócrates utiliza a sílaba como exemplo paradigmático.
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A sílaba é composta de letras, mas não se reduz a elas.
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Ela constitui uma unidade distinta das partes.
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O holon é uma forma una produzida a partir das partes.
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O pan designa a soma das partes tomadas em conjunto.
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A distinção opõe conjunto orgânico e agregação.
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Ambiguidade deliberada em Platão
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Platão explora a tensão entre pan e holon.
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O jogo entre singular e plural intensifica a dificuldade.
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Pan pode designar o todo como soma.
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Hapanta pode designar a totalização completa.
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A reflexão permanece aberta e problematizante.
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Releitura aristotélica da distinção
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Aristóteles retoma o exemplo da sílaba.
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Ele opõe a sílaba ao amontoado.
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O que confere unidade é o eidos.
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A matéria são as letras.
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A forma é causa do ser da sílaba.
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A unidade não é material, mas formal.
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Ousia, phusis e princípio de unidade
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A essência é identificada com a natureza.
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Essa natureza não é elemento, mas princípio.
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O holon possui uma unidade fundada na essência.
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A essência organiza a multiplicidade.
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A unidade é interna e normativa.
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O conceito de sunolon
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Sunolon designa o composto concreto.
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Ele articula forma e matéria.
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Refere-se ao indivíduo concreto.
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A unidade do indivíduo é holística.
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O indivíduo é mais do que soma de partes.
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Critério aristotélico da posição
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Para quantidades finitas, a posição é decisiva.
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Aquilo cuja posição é indiferente é pan.
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Aquilo cuja posição importa é holon.
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Alguns entes podem ser ambos.
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A forma permanece, a disposição muda.
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O corpo como holon paradigmático
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O corpo vivo é o exemplo máximo de holon.
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A separação de partes gera mutilação.
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As partes deixam de ser plenamente o que eram.
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O organismo não é agregativo.
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Ele é uma unidade funcional.
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Implicações ontológicas da distinção
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Pan remete à justaposição.
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Holon remete à organicidade.
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A distinção afeta a noção de unidade.
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Afeta também a noção de identidade.
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Produz uma modulação ontológica duradoura.
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Primazia do holon na tradição clássica
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O holon é associado ao finito.
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O finito é associado à completude.
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O infinito é associado à privação.
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O infinito carece de limite e de telos.
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O holon é cognoscível e mensurável.
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Parmênides e o ser como holon
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O ser é descrito como inteiro.
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Ele é completo e acabado.
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Não admite exterioridade.
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O ser é fechado e pleno.
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Essa concepção fundamenta o classicismo.
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Aristóteles contra o infinito positivo
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O infinito é definido negativamente.
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Ele é aquilo que sempre tem algo fora.
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Ele pertence à matéria.
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Está ligado à potência.
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Não pode ser plenamente conhecido.
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Aplicação estética da totalidade
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A tragédia deve representar uma ação inteira.
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Ela deve ter começo, meio e fim.
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Deve ter extensão apreensível pela memória.
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A beleza exige fechamento.
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A forma completa é condição do belo.
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Aplicação lógica: o universal
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O universal se articula com holon.
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Ele não é distributivo como pan.
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Ele funda a ciência.
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O particular é articulado segundo pan.
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A ciência exige unidade holística.
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Aplicação política
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A cidade platônica é um holon.
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Ela é um organismo hierárquico.
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É orientada para um fim único.
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A democracia aristotélica é pan.
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Ela é mistura e multiplicidade de cidadãos.
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Aplicação cosmológica
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Os estóicos distinguem holon e pan.
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Holon designa o mundo organizado.
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Pan inclui o mundo e o vazio.
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O mundo é um organismo.
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O todo absoluto inclui o indeterminado.
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Traduções latinas e confusão terminológica
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Pan e holon são traduzidos de modo variável.
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Universitas, universum, omne e summa se cruzam.
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As distinções gregas se perdem.
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Traduções acumulam ambiguidades.
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O vocabulário moderno herda essa confusão.
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Consequência moderna
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O mundo passa a ser concebido como fechado.
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O universo passa a ser concebido como infinito.
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A distinção antiga se inverte.
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A modernidade nasce desse deslocamento.
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A diferença entre pan e holon prepara essa mutação.
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