Engajando Heidegger
CAPOBIANCO, Richard. Engaging Heidegger. Toronto: University of Toronto press, 2010.
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Introdução
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1. O destino do Ser
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2. Ereignis: (apenas) outro nome para o próprio Ser
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3. A virada em direção ao lar
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4. Da angústia ao assombro
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5. Lichtung: a iluminação inicial
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6. A luz de Platão e o fenômeno da clareira
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7. Construir: centrar, descentrar, recentrar
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8. Limite e transgressão
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Posfácio
1. Ao longo de toda a vida de pensamento, resguardou-se a palavra originária do pensamento filosófico ocidental, o Ser (Sein), buscando-se, em vários dos ensaios deste volume, retomar essa característica definidora do pensamento heideggeriano diante da tendência atual, motivada pela resistência analítica e pós-moderna ao próprio termo “ser”, de relegar o nome do Ser a segundo plano ou mesmo suprimi-lo, quando uma consideração cuidadosa dos textos reafirma que, até o fim da vida, reservou-se e preservou-se a antiga palavra “Ser” como nome da matéria fundamental do pensamento (die Sache selbst), corretamente designada como Ser-idade (Seyn), o Ser mesmo (Sein selbst), o Ser como tal (Sein als solches) e o Ser como Ser (Sein als Sein), em distinção do ente enquanto ser-idade (Seiendheit), sempre entendida como o objeto próprio da tradição metafísica de pensamento, cabendo a diversos dos ensaios a tarefa, importante mas frequentemente negligenciada, de esclarecer cuidadosamente essa linguagem do Ser, da ser-idade e dos entes.
2. O Ser permaneceu nome privilegiado no pensamento heideggeriano, sem que isso exclua a convocação de outros nomes, alguns antigos, alguns poéticos, alguns novos, a fim de trazer à linguagem o mesmo fenômeno primordial, indicado ora pelo nome do Ser mesmo, ora por aletheia, physis, Logos, hen, ora pela clareira, o quadriparte, o sagrado, ora pelo Ereignis, reunindo-se aqui essas múltiplas, variadas e ricas indicações numa descrição básica: o fenômeno sempre visado, e que o pensamento grego antigo teria originariamente entrevisto, ainda que de relance, com a palavra eon, é o aparecer temporal-espacial, finito e negativado dos entes em sua ser-idade, o qual convoca e mesmo compele, do ser humano (Dasein), uma cor-respondência em linguagem que permite tornar manifesto, com sentido, tanto o que aparece quanto o aparecer mesmo.
3. Trata-se de um único e mesmo fenômeno, o Ser mesmo, nomeado e renomeado repetidas vezes ao longo de toda a vida de pensamento, sendo a farta variedade de nomes empregados capaz de trazer à vista os diferentes traços desse fenômeno simples, podendo-se assim falar do desvelamento dos entes (aletheia), do emergir dos entes (physis), do dispor e reunir dos entes (Logos), do unificar e desdobrar dos entes (hen), do presenciar dos entes (Anwesen), do clarear/iluminar dos entes (Lichtung), do livrar dos entes (das Freie), do deixar dos entes (Lassen), do dar dos entes (Es gibt) e do apropriar ou acontecer apropriativo dos entes (Ereignis), dizendo e mostrando todos esses nomes, de modos algo diversos, o fenômeno primordial, sendo, nos termos heideggerianos, todos esses nomes o Mesmo (das Selbe), ainda que não simplesmente idênticos (das Gleiche) num sentido vazio e meramente lógico-formal.
4. É objetivo principal destes ensaios evidenciar com maior nitidez como todos esses nomes dizem o Mesmo e, portanto, são o Mesmo, concentrando-se a atenção nos termos Ereignis e Lichtung, cujo Ereignis, embora amplamente mencionado na bibliografia contemporânea, não recebeu consideração adequada quanto à sua precisa significação e à sua relação com o Ser mesmo, procurando-se, mediante exame atento das próprias palavras heideggerianas, demonstrar de modo decisivo que o Ereignis sempre foi entendido como outro nome do Ser mesmo, ao passo que a Lichtung, apesar de sua importância sobretudo no Heidegger tardio, recebeu escassa atenção acadêmica, contribuindo os dois estudos aqui reunidos sobre esse termo tanto para melhor compreender seu lugar no pensamento quanto para realizar a promessa existencial dessa noção, devendo-se ter sempre presente que todas essas reflexões possuem dimensão existencial referida à travessia humana entre nascimento e morte, no habitar sobre a terra e sob o céu, sempre na companhia de outros e de outros entes, procurando-se, em vários dos ensaios, extrair tematicamente o caráter profundamente humano desse “pensamento meditante”.
5. Considerados em conjunto, estes estudos refletem uma duradoura apreciação pela originalidade, potência e beleza do pensamento heideggeriano, discutindo-se, ainda que em certos pontos problemas ou inconsistências dessa obra, sempre com intenção esclarecedora e edificante, jamais de mera refutação ou descarte, devendo-se ter em conta que todo grande pensador merece ampla margem de consideração, caracterizando-se a abordagem destes ensaios como um engajamento com o mais instigante pensador do século XX nas especificidades de seu pensamento, esforço do qual se espera resultem, para o leitor, novas percepções acerca de suas ideias e termos centrais, bem como renovada apreciação pela surpreendente riqueza e alcance de seu projeto filosófico.
