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TRÊS FORMAS DE AFETIVIDADE (2020)
BÉGOUT, Bruce. Le concept d’ambiance: essai d’éco-phénoménologie. Paris: Éditions du Seuil, 2020.
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A tese central é que o homem vive continuamente no interior de ambiências.
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Ele não é apenas consciência de si ou cuidado, mas está, em sua relação consigo, com os outros e com o mundo, tomado por ambiências, envolvido nelas.
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Toda situação da vida possui sempre uma certa tonalidade afetiva, um princípio a priori.
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Sentimos tudo a partir de um clima afetivo; a ambiência forma a abóbada invisível sob a qual se desenrolam todas as nossas experiências.
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É essa atmosfera afetiva, de contornos muitas vezes mal definidos, que se sente primeiro ao descobrir um novo lugar, e da qual nos lembramos muito tempo depois.
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A existência humana se desenrola sempre no interior de situações afetivas.
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Ela não é primeiramente um olhar teórico ou uma circunspecção prática, mas uma pura vibração sensível que nos acompanha por toda parte.
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O indivíduo não se relaciona espontaneamente ao entorno pelo modo da curiosidade ou da utilidade; ele já está impregnado por uma impressão de conjunto.
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O ente que se apresenta não é um objeto ou um instrumento, mas é atraente, repulsivo, intrigante – um objeto-valor, objeto-estilo, objeto-expressão.
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O ser-no-mundo se abre originariamente no interior de uma expressão afetiva dada.
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Só o enfraquecimento progressivo dessa presença libera o campo da perceptibilidade e deixa aparecer simples entes.
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O mundo se desvela no interior dessa ressonância; sentimos primeiro tons, ares, excitações vagas que nos atraem ou repelem.
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Este primado da afetividade, destacado por pensadores modernos como Schopenhauer, Nietzsche, Scheler, Heidegger ou Henry, não é uma mera fase cronológica originária.
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Ele constitui a parte mais profunda do ser da existência.
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Não se trata de inverter a hierarquia razão/emoção, mas de compreender que na raiz de todo ser estão feixes de paixões, nós de sentimentos.
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“O coração é a chave do mundo e da vida” (Novalis), pois tudo que é só tem sentido pela maneira como se manifesta afetivamente.
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“Sob cada pensamento jaz um afeto.” Tudo o que se desenvolverá depois (ideias, projetos, valores) o fará a partir desta potência afetiva originária.
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Para reconhecer esta primazia, é preciso abandonar os preconceitos tradicionais que desacreditam a afetividade.
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O principal preconceito é o de seu caráter derivado: a tradição (de Aristóteles a Kant) concebeu a afetividade segundo um modelo reativo.
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O afeto seria uma reação da reação, o efeito de um efeito, duplamente passivo.
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Ele acompanharia a sensação dando-lhe uma ressonância de prazer ou desprazer; seria sua repercussão subjetiva, o contragolpe da impressão.
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Esta concepção epifenomenalista do sentimento é contestada por Nietzsche, Scheler e Heidegger.
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A experiência humana não começa com a ação física da coisa sobre a sensibilidade.
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Desde o início, ela está imersa numa ambiência que a abre ao mundo e aos outros.
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A afetividade não é um fenômeno derivado, mas a condição de possibilidade e a dimensão originária de toda experiência.
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O sentimento repousa sobre uma intencionalidade específica com estruturas a priori; o percebido já é pré-selecionado por um filtro afetivo.
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O caráter afetivo do percebido (agradável ou ameaçador) não advém como consequência da apreensão, mas a torna possível.
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Antes da forma está o pathos, que pilota as escolhas; a percepção nasce da afetividade.
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Percebe-se desde logo algo que vibra como agradável ou triste; só depois, pelo seu atenuação, se destacam qualidades sensíveis objetivas.
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Este caráter afetivo funda o próprio campo da objetividade.
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Não há uma “coloração afetiva” de conteúdos perceptivos pré-afetivos; toda descoberta se efetua a partir e em função da afetividade.
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A tonalidade da disposição afetiva (Befindlichkeit) constitui existencialmente a abertura ao mundo do Dasein (Heidegger).
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Os sentidos não são simples janelas; eles pertencem ontologicamente a um ser já disposto afetivamente.
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O sensível deriva do afetivo; sentimos antes de perceber. A “afecção” tradicional recupera sua dimensão verdadeiramente afetiva.
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Não há dissociação rígida entre o afetivo, o cognitivo e o prático. Em cada experiência, essas atitudes se entrelaçam, mas a afetividade forma o elemento central, abrindo-nos ao mundo e a toda transcendência.
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A afetividade das ambiências se distingue de outros dois modos:
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A afetividade vital: engloba as sensações afetivas corporais (pulsões, tendências, impulsos vitais). É não intencional, expressa a vitalidade interna do corpo entre prazer e dor.
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A afetividade intencional: articulada à consciência representativa, contém uma direção intencional para algo; é o que a língua comum chama de “sentimento” (amor, ódio por um indivíduo ou substituto). É um pouco fantasmática, construindo seu objeto a partir de desejos e imaginações.
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A afetividade própria das ambiências não se confunde com essas duas:
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Diferente da afetividade vital, não se limita a impressões internas/corpóreas; exprime desde logo uma real pertença ao mundo, um estado afetivo em ressonância imediata com o entorno.
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A ambiência nos afeta como um todo sem objeto, que envolve, penetra e transcende nossa sensibilidade.
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Antes da distinção sujeito/mundo, ela faz sentir a unidade indivisa dos dois. Ela não é nem dentro nem fora, mas medial.
Diferente da afetividade intencional (sentimento), a tonalidade difusa e atmosférica da ambiência não se refere a um objeto particular sobre o qual a consciência projeta fantasias.-
A ambiência que se sente numa situação (ex.: à noite em ruas desertas) não pertence a uma consciência de objeto modelada por um valor afetivo.
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É uma presença tonal que invade de todos os lados e repele toda ligação consciente ou pré-consciente.
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Não é possível extrair do fenômeno da ambiência a menor ligação intencional.
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O que é sentido numa ambiência não pertence mais ao sujeito que a experimenta do que ao entorno; pertence à própria situação afetiva, que transborda a relação eu/não-eu e exprime uma comunidade mais antiga que sua separação.
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