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Sujeito em Heideegger

BARBARAS, Renaud. Introducción a una fenomenología de la vida: intencionalidad y deseo. Madrid: Ediciones Encuentro, S.A., 2013

  • Heidegger inscreve-se indiscutivelmente na perspectiva aberta pela descoberta husserliana do a priori da correlação, ressaltando a necessidade de interrogar o sentido do ser do sujeito
    • Em Os problemas fundamentais da fenomenologia, afirma reconhecer no ênfase cartesiano posto no sujeito um impulso genuíno do perguntar filosófico, ao mesmo tempo em que julga necessário não partir simplesmente do sujeito, mas perguntar se e como seu ser deve determinar-se como ponto de partida da problemática filosófica, sem orientação unilateralmente subjetivista
  • Essa orientação não subjetivista implica necessariamente uma crítica das concepções cartesiana e husserliana da subjetividade, já que ambas tornam incompreensível a correlação do sujeito com o ente transcendente, fazendo Heidegger radicalizar a crítica que o próprio Husserl dirige a Descartes até voltá-la contra Husserl
    • Heidegger esclarece o propósito da analítica existencial observando que Descartes investigou o cogitare do ego mas deixou inteiramente sem elucidar o sum, sendo a pergunta ontológica pelo ser do sum o que permite compreender o modo de ser das cogitationes
  • O cogitare designa, segundo Heidegger, o modo pelo qual os entes estão presentes ao sujeito, o elemento mesmo do aparecer ou da correlação, e não deve remeter primeiro a conteúdos representacionais
    • Descartes não está em condições de esclarecer o sentido do ser das cogitationes porque nunca interroga o sentido do ser do sum, tendo determinado o ser desde o início como Ens creatum, o que faz do sujeito uma substância e bloqueia o acesso ao sentido de seu ser
    • A abertura ao ente que o cogitare originalmente designava degrada-se então em representação interior do sujeito, rasgando a correlação segundo a cisão entre conteúdo imanente e objeto transcendente, o que leva Heidegger a determinar o ser do Dasein como existência, e não como substância, para acercar-se do sentido autêntico do cogitare
  • Essa crítica repete a que o próprio Husserl dirige a Descartes, sobretudo nas Meditações cartesianas, sob o rótulo de realismo transcendental, ainda que a radicalização heideggeriana revele uma dependência negativa dessa ontologia subjacente
    • Na carta a Husserl de 22 de outubro de 1927, escrita por ocasião do artigo Fenomenologia para a Encyclopaedia Britannica, Heidegger constata o acordo de ambos quanto ao beco sem saída do realismo transcendental, já que o ente chamado mundo por Husserl não poderia esclarecer-se em sua constituição transcendental remetendo a um ente do mesmo modo de ser
    • Heidegger acrescenta que isso não significa que o lugar do transcendental não seja de modo algum ente, colocando-se antes o problema de saber qual é o modo de ser do ente em que o mundo se constitui, apontando assim para o desnível ontológico que Husserl estabelece entre o constituinte e o constituído, o abismo de sentido entre consciência e realidade
  • Esse desnível decorre da dependência secreta que a fenomenologia husserliana mantém em relação à ontologia substancialista
    • Husserl reconhece que o sujeito não pode ter o mesmo sentido de ser que o mundo por ele constituído, mas, ao pensar univocamente o sentido do ser do ente, só pode garantir a diferença do sujeito excluindo-o do campo do ente, caracterizando-o como absoluto fora do mundo, alheio à realidade
    • A extramundaneidade da consciência transcendental aparece como compromisso entre reconhecer a diferença do sujeito e manter um sentido unívoco do ente, traduzindo Husserl a determinação negativa de que o sujeito não existe como os demais entes em não-pertencimento ao reino do ente, o que revela uma ingenuidade acerca do sentido do ser dos entes do mundo
    • Impõe-se então o problema urgente e insondável da relação entre consciência transcendental e consciência psicológica, sendo preciso recompor o que foi rasgado e compreender como essa consciência, absoluto fora do mundo, pode ao mesmo tempo formar parte dele, quando teria sido preferível partir da mundaneidade da consciência em vez de tentar constituí-la
  • É exatamente assim que procede Heidegger, radicando a analítica existencial na necessidade de superar essa ingenuidade ontológica persistente em Husserl
    • O lugar do transcendental deve ser algo ente, colocando-se o problema de saber qual é o modo de ser do ente em que o mundo se constitui, problema central de Ser e tempo enquanto ontologia fundamental do Dasein, tratando-se de mostrar que o modo de ser do Dasein humano difere inteiramente do de todos os demais entes e que, justamente por esse modo de ser que lhe é próprio, encerra em si a possibilidade da constituição transcendental
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