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§4. O conceito de "homem" na tradição bíblica

A explicação da ideia de homem como pessoa, assimilando o ζῷον λόγον ἔχον grego, remonta à passagem de Gênesis 1,26 sobre o homem feito à imagem e semelhança de Deus, cuja história de interpretação percorre Paulo, os Padres, a teologia medieval, os reformadores e chega até Scheler, num percurso que a hermenêutica deve examinar em sua estrutura de sentido.

  • Em Paulo, o homem é declarado imagem e glória de Deus e predestinado a ser conforme a imagem do Filho, ao passo que Taciano distingue claramente duas maneiras fundamentais de entender o homem: aquele que age como animal e aquele que se afasta da animalidade aproximando-se de Deus.
  • Agostinho observa que a Escritura agrupa o homem com os animais terrestres quanto ao dia da criação, mas o separa em razão da excelência da razão, segundo a qual o homem é feito à imagem e semelhança de Deus.
  • Tomás de Aquino, apoiado em Damasceno, define a imagem de Deus no homem pelo intelectual, pelo livre-arbítrio e pelo ser senhor de si mesmo, fazendo do homem princípio de suas próprias obras, parágrafo que contém toda a estrutura metodológica interna da teologia medieval.
  • Zwínglio interpreta a proximidade natural do homem a Deus como decorrência de ter sido criado à sua imagem, enquanto Calvino atribui ao estado inicial do homem dons como razão, inteligência e julgamento que o capacitam a transcender até Deus e a felicidade eterna, linha que chega através do idealismo alemão à interpretação schelariana da personalidade.
  • Scheler move-se entre questões antiquadas tornadas ainda mais nefastas pelo refinamento fenomenológico, distinguindo homo naturalis e homo historiae numa distorção da distinção kantiana entre conceito de natureza e conceito inteligível, e definindo o homem como intenção e gesto da transcendência, um entre limite entre animal e Deus, ideia de teomorfismo que retoma inconscientemente a teologia antiga e a gnose valentiniana, arruinando tanto a teologia quanto a filosofia sob aparência de mera descrição fenomenológica das coisas.
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