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§4

§ 4. Desfigurações da ideia de fenomenologia

§ 4. As desfigurações da fenomenologia assumem tanto a forma de estreitamento de seus motivos quanto a de expansão acrítica, mundivisiva e pseudointuitiva, e ambas precisam ser combatidas por um radicalismo que recuse reduzir a fenomenologia a análise de significados, psicologia descritiva, epistemologia, filosofia realista, mística ou cosmovisão, reconduzindo-a antes à ciência originária capaz de questionar inclusive a divisão tradicional das disciplinas, a absolutização da ciência teórica, a oposição entre racionalismo e irracionalismo e os sistemas tecnicamente construídos, para que ciência e filosofia voltem a constituir formas vivas de existência e investigação enraizadas nas fontes originárias da vida.

  • O primeiro tipo de desfiguração restringe a fenomenologia a uma explicação de significados de palavras, a tautologias ou a uma ciência preliminar destinada apenas a delimitar conceitos filosóficos com maior precisão.
  • Outra redução faz dela substituta aperfeiçoada da psicologia experimental, retirando-lhe justamente sua orientação originária.
  • Uma forma mais sofisticada identifica-a a uma nova epistemologia, seja como edição melhorada do problema da constituição transcendental — motivo efetivamente presente, mas não último —, seja mediante exploração de resultados mal compreendidos em favor de aspirações ingenuamente realistas.
  • Todas essas reduções procuram encaixar a fenomenologia nas disciplinas filosóficas historicamente disponíveis, sem perguntar se a própria divisão e quantidade dessas disciplinas resistiriam a uma crítica verdadeiramente radical.
  • Mais perigosas do que tais estreitamentos são as expansões acríticas que transformam intuição, visão e visão de essência (Wesensschau) em palavras de ordem adequadas ao desejo contemporâneo de sensações e experiências extraordinárias.
  • A pretensão de oferecer continuamente “visões de essência” pode não passar da absolutização arbitrária de leituras, intuições rápidas e aperçus, produzindo dogmatismo pseudofenomenológico que desacredita as tendências e o método genuínos.
  • A fantasia segundo a qual bastaria adotar uma postura intuitiva para receber automaticamente todas as evidências converte a fenomenologia numa caricatura mística e termina produzindo decepção quando a investigação efetiva exige trabalho metódico.
  • A associação apressada entre mística e fenomenologia é tão arbitrária quanto a associação entre fenomenologia e botânica, música ou direito civil; tendências teosóficas e extrapolações mundivisivas não pertencem ao espírito científico e sequer merecem uma refutação filosófica detalhada.
  • Compreender a fenomenologia como ciência originária absoluta do espírito não significa supor que ela possa conhecer teoricamente toda vivência ou substituir, aprofundar e melhorar pela teoria a experiência religiosa, artística ou vital.
  • A fenomenologia combate o racionalismo absoluto e todas as formas de racionalismo, mas combate igualmente o balbucio irracionalista de supostas “palavras originárias”.
  • A própria oposição entre racionalismo e irracionalismo é recusada como divisão mal colocada, e a fenomenologia não procura um caminho intermediário entre os dois, mas uma direção mais originária na qual tal oposição ainda não possui validade fundamental.
  • A impotência espiritual contemporânea decorre do afastamento das fontes originárias da vida e da permanência na periferia de seus próprios problemas.
  • Escrever sobre o “sentido da cultura” ou formular programas abstratos para uma renovação cultural não substitui a criação efetiva de uma nova cultura.
  • Do mesmo modo, a crise das ciências não se resolve pela postura profética de seus supostos inimigos nem pela substituição da ciência por religião, mas pela recuperação de sua ideia soterrada, de modo que ciência volte a ser Lebensform (forma de vida) e não mero ofício ou negócio.
  • A corrupção provocada por uma conceitualidade inautêntica tornou tão difícil reconhecer a própria possibilidade de transformação que a fenomenologia precisa eliminar desde o início expectativas falsas e motivos ocultos que continuamente desviam a problemática.
  • A identificação desses motivos ocorre no próprio avanço da pesquisa, produzindo novamente uma estrutura circular: somente a investigação fenomenológica pode revelar aquilo que, desde o início, precisava ser eliminado para que a investigação fosse autêntica.
  • Um dos preconceitos mais profundos encontra-se na divisão tradicional das disciplinas filosóficas segundo verdadeiro, bom e belo, associados respectivamente à lógica, ética e estética e às faculdades psíquicas de entendimento, vontade e sentimento.
  • A psicologia é então instalada como ciência fundamental dessas faculdades e, posteriormente, filosofia da religião ou metafísica é utilizada para satisfazer a exigência de unidade, produzindo construções sistemáticas que permanecem exteriormente compostas.
  • Acréscimos como filosofia da história ou tentativas de fundar a lógica na ética não superam esse esquema porque continuam aceitando como evidentes as divisões herdadas.
  • Sistemas das ciências construídos a partir dessas classificações não transformam as ciências reais, que continuam seguindo seus próprios caminhos sem se enquadrar nas molduras elaboradas pelos filósofos.
  • A oposição entre natureza e cultura, ciências naturais e ciências culturais, ou natureza e espírito, ciências naturais e ciências do espírito, funciona frequentemente como pressuposição não examinada dos sistemas de ciência e produz artificialmente problemas de fronteira, como o da posição da biologia.
  • Problemas autênticos não se resolvem anexando conceitos gerais às ciências existentes, mas tornando problemática a própria facticidade dessas ciências e conduzindo-a a problemas radicais de origem.
  • A transformação concreta das ciências particulares não pode ser obtida pela alteração técnica de esquemas conceituais, como se bastasse mudar alavancas e aparelhos de comutação para colocar o pensamento em outra via.
  • A época tecnicizada projeta sobre a vida espiritual a expectativa de que mudanças profundas possam ser produzidas mediante dispositivos e sistemas, sem reconhecer que a vida espiritual precisa reencontrar organicamente suas fontes originárias e desdobrar-se novamente a partir de situações fundamentais vivas ao longo das gerações.
  • A construção de uma “cosmovisão fenomenológica” seria apenas recaída no mesmo modo de pensar que precisa ser destruído, pois uma vida desviada não pode ser regenerada por programas e sistemas, mas somente pelo exercício fiel e radical de uma vida autêntica.
  • A herança moderna da precipitação construtiva e das modas filosóficas exige, dentro da própria geração fenomenológica, crítica recíproca rigorosa para preservar a investigação em seu caminho autêntico.
  • Um preconceito ainda mais profundo encontra-se na absolutização não crítica da ideia de ciência que acompanha a história espiritual europeia desde sua configuração grega.
  • A fenomenologia precisa enfrentar radicalmente essa absolutização ao discutir o problema do teorético e compreender a teoria como forma determinada de explicitação, em vez de fazer de toda experiência uma variante da constituição científica.
  • O perigo consiste em restringir os problemas transcendentais à forma de constituição denominada “ciência” e olhar todos os domínios da vida através desse único transparente.
  • A influência de Kant e do idealismo alemão reforça essa tendência, e justamente suas limitações tendem a desaparecer das reconstruções contemporâneas que celebram seu renascimento.
  • A fenomenologia reage internamente contra tal redução porque não pertence ao tipo de filosofia e ciência criticado por Nietzsche como forma de hostilidade invejosa à sabedoria e à vida, escondida sob cadeias de formas racionais.
  • Sua atitude fundamental consiste em acompanhar vitalmente o sentido genuíno da vida, inserir-se compreensivamente em suas motivações e elevar as tensões internas sem anulá-las, numa disposição de humilitas animi.
  • A ciência originária exige, do pesquisador, inserção viva nas motivações e tendências do espírito, numa proximidade que pode recordar o élan vital de Bergson, mas sem o sentido místico e conceitualmente confuso atribuído a essa expressão em sua filosofia.
  • A medida e o limite de uma atuação verdadeiramente viva não podem ser produzidos por fórmulas gerais, pois dependem de vocação interna, autocrítica e trabalho perseverante.
  • O único modo legítimo de romper o silêncio sobre essa dimensão íntima da investigação consiste no trabalho real, contínuo e intransigente “às coisas mesmas”.
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