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obra:ga54:3

GA54: §3

§ 3. Esclarecimento da transformação da alétheia e da transformação das contraessências

a) Os significados internamente diversos de pseudos e de falso

  1. A compreensão grega de pseudos exige antes distinguir os sentidos modernos de falso, pois o falso pode significar o objeto falsificado, a afirmação incorreta, a declaração enganosa, a pessoa errada, o indivíduo ardiloso ou o comportamento traiçoeiro.
  2. A multiplicidade dos sentidos de falso indica um fundo comum ainda indeterminado, no qual falsidade, erro, engano, substituição e ardil se aproximam sem coincidirem plenamente.
  3. O pseudônimo mostra que pseudos não se deixa traduzir simplesmente por falso, pois ele encobre o autor e, ao mesmo tempo, deixa aparecer algo essencial dele, como ocorre nos pseudônimos de Kierkegaard.
  4. O nome falso do impostor difere do pseudônimo, porque encobre a identidade verdadeira e faz aparecer uma grandeza inexistente, enquanto o pseudônimo essencial encobre para revelar de modo indireto.
  5. O pseudos pertence ao domínio do encobrimento, mas esse encobrimento nunca é mera ocultação, pois sempre também mostra, faz aparecer e põe algo diante do olhar.
  6. As passagens de Homero e Hesíodo não funcionam como provas acumulativas, mas como indicações essenciais de que o pseudos pertence ao campo do aparecer, do fazer-aparecer, da ocultação e da desocultação.
  7. Em Homero, os sinais de Zeus podem ser pseudos quando fazem aparecer um destino favorável e, ao mesmo tempo, encobrem a desventura efetivamente reservada aos gregos.
  8. O sinal é sempre um mostrar que também retém, porque aparece em si mesmo e remete a outra coisa, sem tornar plenamente manifesto aquilo a que aponta.
  9. O sentido fundamental de pseudos reside no dispor-diante que encobre, isto é, num ocultar que põe algo diante de outra coisa e, assim, desfigura o estado efetivo do que aparece.
  10. O dispor-diante não é primeiramente uma atitude subjetiva de fingimento, mas um acontecimento objetivo no qual algo encobre outra coisa, como um armário diante de uma porta pode ocultá-la e fazer parecer que ela não existe.
  11. A ligação entre falso e ocultação torna inteligível a oposição grega entre o desoculto e o pseudos, pois este é o ocultamento que desfigura e aquele é a desocultação.
  12. Em Hesíodo, Nereu é apresentado como não-dissimulador e verdadeiro, de modo que o não-dissimular se funda no não-ocultar, e o sem-falsidade deriva de sua relação com a desocultação.
  13. O verdadeiro grego possui uma duplicidade essencial, pois pode designar tanto o desoculto quanto o que desoculta, sem que essa duplicidade deva ser resolvida pela distinção moderna entre sujeito e objeto.
  14. A interpretação moderna que atribui o desoculto aos objetos e o não-ocultador ao sujeito falsifica o campo grego da alétheia, porque nele ainda não vigora a relação sujeito-objeto.
  15. A duplicidade do verdadeiro exige perguntar se o originariamente desocultador é o dizer, o ente ou nenhum dos dois, mas essa pergunta só pode ser enfrentada mediante uma consideração mais profunda da ocultação.

Repetição

1) A chamada tradução correta de pseudos por falso

  1. A oposição entre verdade e falsidade parece natural, mas essa naturalidade encobre o enigma de que o verdadeiro grego significa o desoculto, enquanto pseudos não traz no próprio vocábulo uma referência imediata à ocultação.
  2. A tradução de pseudos por falso é correta apenas em sentido limitado, porque não confunde a oposição verdadeiro-falso com a oposição bom-mau, mas obscurece o vínculo grego entre falsidade, ocultação e desocultação.
  3. A multiplicidade do falso reaparece como objeto falsificado, afirmação incorreta, declaração enganadora, pessoa errada e comportamento ardiloso, mostrando que o falso não possui uma unidade simples.
  4. O pseudos grego distingue-se do falso moderno por significar antes o dispor-diante que encobre e revela, de modo que a falsidade se enraíza na tensão entre ocultar e desocultar.

b) A palavra não alemã falso

  1. A palavra alemã falso deriva do latim falsum, e sua entrada na língua alemã pelo cristianismo medieval já marca uma transposição do campo grego do encobrimento para o campo romano do fazer-cair.
  2. O latim falsum, ligado a fallere, significa fazer cair, abalar ou levar ao tropeço, ao passo que o termo grego relacionado indica fazer vacilar apenas como consequência de uma obstrução ou encobrimento prévio.
  3. O fazer-cair romano só é possível porque algo é colocado diante do homem e encobre o ente, de modo que o engano depende originalmente de uma disposição encobridora.
  4. No grego, o fazer-cair permanece subordinado ao dispor-diante que oculta, enquanto no romano o fazer-cair torna-se o traço decisivo da contraessência da verdade.
  5. O domínio essencial do falsum é o imperium romano, entendido como comando, ocupação prévia, domínio de um território e poder de ordenar.
  6. O comando constitui o fundamento da dominação romana, e por isso o direito romano, a justiça e o estar no direito pertencem ao campo do ordenar e do ter autoridade.
  7. Os deuses gregos não são deuses comandantes, mas indicativos e mostradores, enquanto o numen romano possui caráter de vontade, ordem e imposição.
  8. O imperium exige estar acima, supervisionar e manter os outros abaixo, de modo que o fazer-cair pertence necessariamente à ação imperial.
  9. O fazer-cair pode ocorrer por ataque direto, mas sua forma imperial mais própria é a astúcia que contorna, cerca, inclui e põe o outro a serviço da dominação.
  10. A paz romana é entendida como estado fixado dos que foram feitos cair, pois o vencido não é simplesmente destruído, mas reinscrito nos limites estabelecidos pelo dominador.
  11. Quando o pseudos grego é traduzido por falsum, o encobrimento desfigurador passa a ser compreendido como fazer-cair, e a ocultação é reinterpretada no interior da experiência imperial romana.
  12. A romanização do grego não é uma simples apropriação cultural, mas um acontecimento oculto que transforma o sentido da verdade e do ser no interior da história ocidental.
  13. A modernidade e a Renascença permanecem condicionadas pela romanização do mundo grego, pois ainda se vê a Grécia com olhos romanos, cristãos e modernos.
  14. A interpretação moderna da pólis e do político permanece romana e imperial, tornando inacessível o sentido propriamente grego da pólis.

Repetição

2) Retorno ao pensamento sobre a essência do falso

  1. A consideração da essência do falso não é uma ocupação com o negativo, porque a essência do falso pode pertencer ao núcleo da essência do verdadeiro.
  2. O pseudos grego é o dispor-diante que faz algo aparecer diferentemente do que é e, por isso, encobre ao mesmo tempo que revela.
  3. Sem o traço fundamental de ocultar e desocultar, o pseudos jamais poderia opor-se à alétheia como desocultação.
  4. O falso romano, derivado de falsum e fallere, desloca a falsidade do encobrimento para o fazer-cair, e assim transforma o engano em consequência do domínio imperial.
  5. O imperium é o comando superior que ocupa previamente, estabelece domínio e mantém os dominados em serviço para a conservação da dominação.
  6. A diferença entre pseudos e falsum possui alcance histórico essencial, porque nela se decide a transformação romana do mundo grego que ainda estrutura a autocompreensão ocidental.

c) O imperial na figura curial da cúria

  1. A apropriação romana do grego substitui o pseudos como disposição encobridora pelo falsum como fazer-cair, e essa substituição se torna a forma duradoura da dominação ocidental sobre a essência da inverdade.
  2. O império eclesiástico, sob a forma da cúria romana e do sacerdotium, consolida o predomínio do falsum mediante o caráter imperativo do dogma.
  3. O dogma eclesiástico opera com o verdadeiro dos ortodoxos e o falso dos hereges e infiéis, e a Inquisição espanhola aparece como figura do imperium curial romano.
  4. Por meio do império estatal e eclesiástico romano, o pseudos grego torna-se para o Ocidente simplesmente o falso, e o verdadeiro passa a ser entendido como o não-falso.
  5. O verum romano, como contra-palavra de falsum, pertence ao mesmo campo imperial do fazer-cair e determina também o sentido posterior de verdade.
  6. O cristianismo transmitido aos povos germânicos introduz veritas e verum como nomes da fé cristã, especialmente mediante a fórmula da Vulgata segundo a qual Cristo é o caminho, a verdade e a vida.
  7. A palavra alemã verdade passa a ser determinada pelo verum e pela veritas da língua eclesiástica latina, de modo que sua significação dominante também se torna romano-cristã.
  8. O radical de verum remete originariamente ao fechar, cobrir, proteger e resguardar, mas no campo imperial passa a significar manter-se em posição, permanecer de pé, estar por cima e comandar.
  9. O verum, enquanto o que permanece firme contra o cair, torna-se o reto, o correto e o justo, e assim a veritas converte-se em rectitudo, isto é, em correção.
  10. A palavra latina aperire, abrir, conserva indiretamente o sentido originário de verum como fechamento, pois o aberto é o não-fechado.
  11. O verum romano toca o domínio da ocultação e da desocultação, mas não permite que esse domínio se torne o campo determinante da verdade.
  12. A transformação romana da verdade como rectitudo prepara a forma metafísica ocidental da verdade como correção.

d) A transformação na essência da alétheia desde Platão

  1. Desde Platão e sobretudo Aristóteles, a alétheia sofre uma transformação interna, pois o desocultamento passa a ser representado pelo corresponder do enunciado ao ente desoculto.
  2. A correspondência grega ainda permanece no espaço da alétheia, porque o dizer verdadeiro é um dizer que se mantém junto ao desoculto e o deixa aparecer como aquilo que ele é.
  3. A correspondência assume progressivamente a representação dominante da alétheia, e a verdade passa a ser compreendida como adequação do dizer ao ente manifesto.
  4. A veritas romana como rectitudo acolhe facilmente essa representação, pois a correspondência grega e a retidão romana coincidem na figura da adequação entre pensamento e coisa.
  5. A fórmula medieval da verdade como adequação do intelecto à coisa traduz a alétheia para a veritas e fixa a verdade metafísica como correção.
  6. Na passagem para a rectitudo, desaparece o campo grego da desocultação, e o verdadeiro torna-se um caráter do comportamento psíquico-espiritual no interior do homem.
  7. A verdade como correção abre o problema moderno da concordância entre um processo interno da consciência e as coisas externas, problema que nasce num campo já desenraizado da alétheia.
  8. Como o homem é compreendido como animal racional, a ratio torna-se sua faculdade fundamental, e a verdade passa a depender do uso correto dessa faculdade.
  9. O verum transforma-se em certum quando a verdade passa a significar o assegurado, o certo e o garantido pela segurança do uso correto da razão.
  10. A dogmática cristã consolida a verdade como rectitudo, e a teologia da justificação prepara a passagem da verdade para a certeza da salvação.
  11. Em Lutero, a questão da verdade cristã torna-se questão da certeza da salvação e da justificação, de modo que a verdade assume a forma de segurança do justo diante de Deus.
  12. Em Descartes, o início da metafísica moderna repousa na transformação da veritas em certitudo, e a questão da verdade torna-se questão do uso correto da razão e da faculdade de julgar.
  13. A falsidade moderna passa a ser entendida como erro, isto é, como uso incorreto da faculdade de julgar, e a inverdade se reduz à incorreção do juízo.
  14. Em Kant, a crítica da razão pura delimita o uso correto e incorreto da razão, continuando a determinação moderna da verdade como segurança do uso racional.
  15. A verdade moderna é marcada pela segurança, pela retidão e pela garantia da posição humana diante do ente.
  16. Em Nietzsche, a verdade culmina como justiça do vontade de poder, pois o verdadeiro é o correto que se ajusta ao real compreendido como vontade de poder.
  17. A justiça nietzschiana é a forma extrema da veritas como rectitudo e iustitia, porque representa o comando da vontade de poder como medida de toda correção.
  18. A verdade ocidental, enquanto veritas, permanece ligada ao comando, ao alto, ao senhorio e à autoconservação do que se impõe como dominante.
  19. O ciclo metafísico da verdade se fecha quando a veritas romana se torna justiça da vontade de poder, deixando a alétheia fora do círculo dominante da história ocidental.
  20. O domínio da alétheia foi soterrado e também incorporado como pedra ajustada no bastião romano da veritas, rectitudo e iustitia, razão pela qual ela passou a ser interpretada apenas a partir da correção.
  21. A metafísica ocidental, mesmo quando eleva o verdadeiro ao espírito absoluto de Hegel ou ao âmbito dos anjos e santos, permanece afastada do início e do fundamento essencial da verdade como desocultação.

Repetição

3) O destino da atribuição do ser

  1. Para que a alétheia grega inicial se torne visível, é necessário delinear a história da transformação da essência da verdade, não como história de opiniões sobre a verdade, mas como história da própria essência da verdade.
  2. A história, pensada a partir do fundamento do ser, é a transformação da essência da verdade, pois o ser do ente histórico provém desse deslocamento essencial.
  3. Os momentos mais originariamente históricos são os instantes silenciosos em que a história se detém e nos quais a verdade se destina inicialmente ao ente.
  4. História não significa simples sucessão de acontecimentos, movimentos ou fatos, mas destino, envio e atribuição do ser.
  5. Se o homem é o ente ao qual o ser se revela, então a essência da história é a revelação do ser, e essa revelação se modifica conforme se modifica a essência da verdade.
  6. A historiografia moderna confunde o histórico com o historial ao transformar acontecimentos, feitos e fatos em objetos de cálculo, balanço, taxação e técnica investigativa.
  7. Burckhardt e Nietzsche permanecem presos ao esquema do século XIX que calcula a história por valores, custos, cultura e barbárie.
  8. Spengler radicaliza, sem pensamento metafísico originário, a contabilidade histórica do Ocidente e anuncia o declínio do Ocidente a partir de uma interpretação biologizante e superficial da história.
  9. A ideia moderna de atribuir sentido à história pressupõe falsamente que a história seja em si sem sentido e dependa do homem para receber significado.
  10. O homem não confere sentido à história, mas deve cuidar para que a história não lhe oculte nem recuse seu sentido.
  11. O sentido da história é a essência da verdade na qual repousa o verdadeiro de cada época da humanidade.

4) O acontecimento da virada da essência da inverdade

  1. A história ocidental da verdade percorre o caminho da alétheia à veritas, da veritas à adequação medieval, à rectitudo, à iustitia e, por fim, à certitudo moderna.
  2. A transformação da verdade arrasta consigo a transformação da inverdade, e a opinião de que o único contrário da verdade é a falsidade nasce desse processo histórico.
  3. O acontecimento decisivo é a virada da inverdade do pseudos grego para o falsum romano, pois essa virada torna possível a concepção moderna da falsidade como erro.
  4. O erro moderno é entendido como uso incorreto da faculdade humana de assentir e negar, e esse uso é avaliado segundo a segurança que o homem busca para si mesmo.
  5. A certitudo desenvolve a veritas na direção da garantia de permanência da vida, entendida como vantagem, segurança e conservação.
  6. Em Nietzsche, a segurança da vida funda-se na correção essencial da vontade de poder, que constitui a realidade de tudo o que é real.
  7. A justiça nietzschiana, sem saber, continua a tradição ocidental da veritas como iustitia, pois designa a autogarantia e a intensificação permanente da vontade de poder.
  8. A vontade de poder só se conserva aumentando-se, de modo que a autosegurança exige retorno constante sobre si e superação permanente de si mesma.
  9. Em Fichte e sobretudo Hegel, prepara-se a verdade como autocerteza absoluta da razão absoluta, consumando a direção moderna da certitudo.
  10. Em Hegel e Nietzsche, no século XIX, completa-se a transformação da veritas em certitudo, e essa consumação constitui o sentido histórico oculto do século XIX.
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