obra:ga46:39-40
GA46 §§39-40
Zur Auslegung von Nietzsches. II. Unzeitgemässe Betrachtung “Vom Nutzen und Nachteil Historie für das Leben” (WS 1938-1939) [2003]
A Historiografia — o Ser Humano — a História (Temporalidade)
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Os três tipos de historiografia correspondem a três atitudes da vida humana — intensificação, conservação e libertação da vida —, e a pergunta sobre por que precisamente essa tríplice correspondência permanece sem resposta em Nietzsche, embora ele não a estabeleça de modo arbitrário; interrogar a historiografia e sua relação com o ser humano — que é histórico, ao contrário do animal — permite alcançar algo sobre a essência do ser humano e, por essa via, sobre o ente em seu todo.
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A historiografia é o conhecimento do passado desejado e utilizado pela vida humana a serviço do futuro e do presente, e ela só existe onde há uma relação aberta entre o passado enquanto tal e o futuro e o presente enquanto tais; a unidade originária dessa relação entre futuro, ter-sido e presente é o que se chama “tempo”, e essa relação — não uma representação posterior, mas algo que é em si e a partir de si (temporalização) — chama-se temporalidade e sua temporalização, que é o fundamento da possibilidade do criar, do conservar e do libertar.
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A tríplice divisão das atitudes essenciais da vida humana funda-se, em sua unidade e possível copertenença, na temporalidade do ser humano; a temporalidade não apenas possibilita e fundamenta a historiografia em geral, mas também a tríplice divisão de seus tipos — permanecendo aberta, porém, a questão inversa de se dessa temporalidade necessariamente emerge aquela tríplice articulação que Nietzsche estabelece.
A Essência da Temporalidade
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A temporalidade se distingue da simples intratemporialidade — o fato de algo estar “no tempo” —, e, longe de equivaler à mera transitoriedade, é precisamente o fundamento da “permanência” do ser humano enquanto ser histórico.
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A temporalidade é o fundamento da historicidade, incluindo a unidade do arrebatamento — a possibilidade do retorno, da autenticidade e da ipseidade —, e se relaciona com a verdade do Ser, de modo que o Ser é projetado a partir do “tempo”.
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A temporalidade conduz à determinação mais originária da essência do ser humano: para a fundamentação essencial do ser humano, o decisivo não é perguntar apenas pela posição do ser humano no conjunto do ente, mas de modo diferente e mais originário pela relação do ser humano com o Ser — a meditação sobre a instância na verdade do Ser.
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A questão da historiografia e de sua “relação” com o ser humano, quando interrogada de modo mais originário, pode conduzir a uma meditação pela qual toda interpretação do ser humano em termos de “vida” e “animalidade” fica abalada.
Historiografia e História
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A elucidação da essência da historiografia e a indicação da temporalidade como fundamento de sua possibilidade permitem realizar, a partir da própria coisa, a distinção entre historiografia e história: a historiografia é o fornecimento representativo do conhecimento do que foi outrora presente, enquanto a história é o acontecer e o acontecido — o acontecido como possível objeto da historiografia.
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A história não é apenas “objeto” da historiografia, mas fundamento de sua possibilidade: somente o que é propriamente histórico pode ser objeto de historiografia; o ser humano é passível de historiografia porque é histórico, e é histórico porque é “temporal” — o “porque” aqui em sentido pensante, não explicativo.
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“História” designa três sentidos distintos: em primeiro lugar, todo acontecer e transformar, o devir e o perecer da natureza; em segundo, um evento, algo que “acontece”, se passa e atravessa; em terceiro, aquele modo de ser que, conservando o ter-sido em si mesmo e antecipando-se a si, promove o presente — não apenas estando “no” tempo, mas sendo em si “temporal” e por isso intratemporário.
Histórico
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O ser humano é histórico não porque “tem” uma história passível de cômputo historiográfico, mas porque “tem” história e tradição por ser em si mesmo histórico, e o é porque e na medida em que sua essência pode ser a temporalidade; quanto mais originariamente isso ocorre, tanto mais histórico é o ser humano e tanto menos ele necessita da historiografia.
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A história é a instância permanente da verdade do Ser no ser-aí, na medida em que o Ser é projetado como acontecimento-apropriador e chegou à sua essência como recusa; por isso, a essência da história não pode ser determinada a partir da “vida” em geral nem da vida humana, pois é a historicidade — como guarda espaço-temporal da verdade do Ser — que molda a essência do ser humano com base em sua destinação ao Ser.
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A questão da “temporalidade” não é antropológica nem pertence a uma suposta “filosofia da existência”, mas é a questão “ontológico-fundamental”, na qual “ontologia” não é mais entendida no sentido tradicional, mas como questionamento da verdade do Ser; o fato de que nesses desenvolvimentos apareça o título “existência” como caráter do ser-aí não autoriza em nenhum sentido falar de “filosofia da existência” — tais rótulos são expedientes da covardia intelectual, e as “correções” propostas à suposta “filosofia da existência” e a adaptação à visão de mundo política são prova inequívoca de que a questão simples de “Ser e Tempo” ainda não foi compreendida e sobretudo não deve ser compreendida.
O Histórico e o A-histórico
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O a-histórico é ambíguo em Nietzsche: significa, primeiro, o sem-história — sem possibilidade de historiografia, como o animal; segundo, o não acorrentado ao passado, pela força do esquecimento a partir do criar; e, terceiro — aspecto não considerado por Nietzsche —, o ainda-não-histórico que precisamente possibilita a historiografia.
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O a-histórico, nesse terceiro sentido, é a própria história, e o prefixo negativo não indica privação, mas a prerrogativa que o próprio Nietzsche atribui à vida; para Nietzsche, a “história” — quando não simplesmente equiparada à historiografia — é aquilo que surge pela objetivação operada pela historiografia, mas, visto corretamente, é o inverso: a história como acontecer temporal é o fundamento da historiografia.
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