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obra:ga41:a.11

A.11 Verdade

A. DIVERSAS MANEIRAS DE INTERROGAR EM DIREÇÃO À COISA

XI. VERDADE — PROPOSIÇÃO (ENUNCIADO) — COISA

A conexão historicamente constituída entre a determinação da coisa, a estrutura da proposição e a essência da verdade não deve ser simplesmente registrada como uma sequência de doutrinas passadas, mas novamente posta em movimento mediante a pergunta acerca de sua dependência recíproca e de seu possível fundamento comum, pois permanece indecidido se a estrutura da proposição foi medida pela estrutura da coisa, se a coisa foi interpretada segundo o modelo sujeito-predicado da proposição, ou se ambas procedem conjuntamente de uma raiz mais originária que determina também aquilo que pode ser compreendido como incondicionado.

  • O repouso do acontecimento (Geschehen) proveniente de tempos antigos pode assumir diferentes formas e possuir diferentes fundamentos, e a questão da coisa deve ser examinada precisamente segundo essa possibilidade de que algo aparentemente passado continue atuando.
  • Nos tempos de Platão e Aristóteles formou-se a determinação da coisa como suporte de propriedades e, simultaneamente, foram descobertas a proposição enquanto tal e a verdade como conformidade da apreensão às coisas, tendo essa verdade seu sítio na proposição.
  • As transformações posteriores dessas doutrinas poderiam ser acompanhadas através do estoicismo, da escolástica medieval, da filosofia moderna e do idealismo alemão, mas uma simples exposição cronológica constituiria apenas história no sentido historiográfico e deixaria a própria questão «O que é uma coisa?» em repouso.
  • Questionar historialmente exige retirar do repouso a determinação platônico-aristotélica da coisa, da proposição e da verdade, inserindo-a novamente em possibilidades decisivas e submetendo-a à questão acerca da necessidade interna de sua conexão.
  • Torna-se necessário perguntar se foi mero acaso que as determinações da essência da coisa, da essência da proposição e da essência da verdade tenham surgido conjuntamente ou se existe entre elas uma conexão necessária.
  • A interpretação tradicional já estabelece uma relação precisa entre esses domínios ao afirmar que, sendo a verdade compreendida como correção ou retidão, sua estrutura essencial deve orientar-se pela estrutura essencial da coisa.
  • A relação entre sujeito e predicado, anteriormente apresentada junto às determinações de suporte e propriedade, torna exteriormente visível essa correspondência entre a estrutura da proposição e a estrutura da coisa.
  • Entretanto, essa explicação pertencia justamente à interpretação corrente e aparentemente «natural», cuja pretensa evidência se desfez quando o próprio caráter do «natural» se revelou historial.
  • Abrem-se então alternativas decisivas: a estrutura essencial da verdade e da proposição teria sido medida pela estrutura da coisa, ou, inversamente, a estrutura da coisa enquanto suporte de propriedades teria sido interpretada segundo a estrutura da proposição enquanto unidade de sujeito e predicado.
  • Permanece assim a pergunta acerca de saber se o ser humano leu na própria coisa a estrutura da proposição ou se transferiu para as coisas uma estrutura previamente pertencente ao enunciar.
  • Caso a estrutura da coisa tenha sido determinada segundo a proposição, deve-se explicar como o enunciado poderia tornar-se medida e modelo segundo os quais as coisas são compreendidas em sua coisidade.
  • Como proposição, enunciado, posição e dizer são atos humanos, poderia parecer que não é o homem que se orienta pelas coisas, mas as coisas que passam a ser determinadas segundo o homem e segundo o sujeito humano entendido ordinariamente como «Eu».
  • Essa interpretação parece inicialmente pouco provável no horizonte grego, porque a posição central do Eu pertence à modernidade e não ao pensamento grego, no qual a pólis fornecia a medida fundamental da existência.
  • Contudo, entre os próprios gregos, Protágoras formulou a sentença segundo a qual «de todas as coisas a medida é o homem; dos entes, que são; dos não entes, que não são», e teria atribuído a um escrito seu justamente o título «A verdade».
  • Essa sentença foi pronunciada numa época próxima à de Platão e impede que se descarte simplesmente como moderna a possibilidade de uma conexão entre a determinação da coisa, a verdade e o homem.
  • A eventual conformidade da estrutura da coisa à estrutura da proposição não precisa, por isso, significar necessariamente «subjetivismo», pois talvez seja apenas a interpretação posterior da filosofia grega que projete retrospectivamente sobre ela categorias subjetivistas.
  • Se a proposição e a verdade nela presente, enquanto conformidade, efetivamente fornecem a medida para a determinação da coisa, torna-se necessário perguntar onde residem o fundamento e a garantia de que a essência da própria proposição tenha sido corretamente determinada.
  • A pergunta desloca-se então para uma dimensão ainda mais originária: de onde se determina aquilo que a verdade propriamente é?
  • Aquilo que aconteceu na determinação antiga da essência da coisa não está simplesmente encerrado e ultrapassado, mas permanece profundamente imobilizado em determinações ainda vigentes, razão pela qual precisa ser novamente posto em movimento.
  • A tentativa de compreender efetivamente aquilo que ordinariamente se diz e significa ao falar da coisa, da proposição e da verdade conduz imediatamente a um turbilhão de questões que a interpretação tradicional havia encoberto sob a aparência de evidência.
  • A questão passa a formular-se inicialmente como alternativa: ou a essência da proposição e da verdade se determina a partir da essência da coisa, ou a essência da coisa se determina a partir da essência da proposição.
  • A própria estrutura dessa alternativa, porém, deve ser interrogada, pois talvez o «ou… ou» seja insuficiente e as estruturas da coisa e da proposição apenas se correspondam porque ambas são conjuntamente determinadas a partir de uma mesma raiz mais profunda.
  • Surge então a pergunta pelo fundamento comum da essência da coisa, da essência da proposição e de sua proveniência recíproca.
  • Esse fundamento parece remeter novamente ao incondicionado, pois aquilo que condiciona a coisa em sua coisidade não pode ser, por sua vez, simplesmente uma coisa condicionada.
  • Entretanto, a própria essência do incondicionado depende daquilo que previamente se determina como coisa e como condicionado.
  • Quando a coisa é compreendida como ens creatum, isto é, como ente subsistente criado por Deus, o incondicionado assume a forma de Deus segundo a compreensão do Antigo Testamento.
  • Quando a coisa é compreendida como objeto colocado diante do Eu, portanto como Não-Eu, o incondicionado torna-se o próprio Eu, mais precisamente o Eu absoluto do idealismo alemão.
  • A possibilidade de procurar o incondicionado acima, atrás ou dentro das coisas depende, portanto, do sentido atribuído à condição e ao ser-condicionado.
  • Somente mediante essa pergunta se abre a direção para um possível fundamento comum da determinação da coisa, da proposição e de sua verdade.
  • Ao mesmo tempo, a pergunta inicial pela coisa é abalada em seus próprios fundamentos, pois aquilo que parecia constituir uma determinação antiga, concluída e simplesmente transmitida reaparece como um acontecimento ainda atuante.
  • O acontecimento que havia estabelecido a determinação normativa da coisa permaneceu aparentemente passado, mas na verdade apenas estava soterrado e em repouso, podendo agora ser novamente libertado.
  • A pergunta pela coisa começa, assim, a mover-se novamente a partir do próprio fundo de seu início.
  • Compreender a pergunta pela coisa como questão historial significa libertar e pôr em movimento o acontecimento que repousa nela e permanece aprisionado em suas determinações sedimentadas.
  • Essa tarefa não consiste em corrigir simplesmente uma deficiência ou incompletude da determinação inicial da coisa, pois isso reduziria a investigação à pretensão vazia segundo a qual os posteriores seriam superiores aos predecessores apenas por terem vindo depois.
  • Quando há crítica, ela não se dirige ao começo grego enquanto tal, mas ao modo como esse começo é carregado no presente sem ser mais reconhecido como começo.
  • O problema encontra-se em transformar aquilo que foi uma decisão originária numa determinação supostamente «natural», falsificando-a precisamente ao torná-la indiferente e autoevidente.
  • Tratar a pergunta «O que é uma coisa?» historialmente também não significa recolher informações historiográficas acerca das opiniões anteriormente formuladas sobre a coisa nem comparar essas opiniões para produzir uma nova teoria mediante a seleção do que nelas ainda parecer correto.
  • Trata-se antes de recolocar em movimento o acontecimento íntimo e inicial da questão segundo as vias mais simples de seu próprio movimento, vias que permaneceram aprisionadas na rigidez de um repouso.
  • Esse acontecimento inicial não se encontra distante numa antiguidade encerrada, mas permanece presente em cada proposição, em cada opinião cotidiana e em cada modo atual de acesso às coisas.
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