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obra:ga25:ga25-2

GA25: §2

§ 2. Significado geral da fundamentação de uma ciência

a) Interpretação fenomenológica da essência da ciência

  • O ponto de partida é a ciência caracterizada como uma espécie de conhecimento, entendido não como o que foi conhecido, mas como comportamento cognoscente; esse comportamento não é um processo psíquico interior, mas uma determinada maneira de ser do ser humano que se relaciona com o ente de modo desvelador.
  • O comportamento desvelador em relação ao ente que circunda o Dasein é uma possibilidade livre da existência humana; a existência é o modo de ser próprio e exclusivo do ser humano, que inclui o conhecer como possibilidade livre, ao passo que as coisas da natureza simplesmente estão presentes.
  • Para caracterizar a essência da ciência a partir da existência, bastam duas determinações fundamentais: o ser-no-mundo e a liberdade; o Dasein existe como ser-no-mundo, e mundo designa o todo ao qual sempre já nos relacionamos, de modo que mesmo a relação pessoal entre existências não é uma relação cognitiva entre almas isoladas, mas ocorre sempre dentro de um mundo.
  • Uma coisa material como uma pedra ou uma cadeira não tem mundo, sua maneira de ser é inteiramente desprovida de relação com um mundo; o ente simplesmente presente pode ocorrer dentro de um mundo, mas só adquire a determinação de ser intramundano quando um Dasein existe e o deixa vir ao encontro; a natureza pode muito bem ser à sua maneira sem que haja Dasein e, portanto, mundo.
  • Plantas e animais não estão presentes como pedras, mas tampouco existem de modo a se relacionar com um mundo; a sua maneira de ser, distinta tanto do simples estar presente quanto da existência humana, é chamada vida, e se é lícito falar em ambiente dos animais, permanece em aberto se aí há mundo em sentido próprio.
  • A segunda determinação essencial do Dasein ao lado do ser-no-mundo é a liberdade: o Dasein é um ente ao qual importa sua própria existência, de modo que ele se escolhe ou se esquiva da escolha; só um ente capaz de decisão pode ter um mundo, e mundo e liberdade estão em íntima conexão como determinações fundamentais da existência humana.
  • O comportamento em relação ao ente intramundano é primária e inicialmente não o comportamento cognoscente da pesquisa científica, mas o usar e empregar utensílios, o lidar com veículos, ferramentas e instrumentos em sentido amplo; é no trato com o utensílio que primeiro conhecemos as coisas, pois o uso como tal é a maneira primária e própria de descobrir o ente intramundano.
  • Da mesma forma, a natureza em seu poder e força não é desvelada pela reflexão sobre ela, mas no combate com ela e na luta por dominá-la, o que os mitos da natureza expressam; e as circunstâncias e contingências da ação cotidiana não são descobertas pelo simples contemplar do mundo, mas ao agarrar ou examinar ocasiões, quando então dificuldades, obstáculos e disposições se tornam visíveis.
  • No trato com as coisas, compreende-se previamente o que significa algo como utensílio ou coisa de uso; não se aprende o ser-utensílio em geral, pois esse já deve ser previamente compreendido para que se possa dispor a usar um utensílio determinado; esse pré-entendimento da instrumentalidade e da potência da natureza permanece oculto, não temático, não objetual, pré-conceitual.
  • O que se revela nesse pré-entendimento é a constituição de ser do ente: só nos podemos relacionar com algo como simples presente enquanto previamente entendemos o que significa estar presente; todo comportamento em relação ao ente contém em si uma compreensão da maneira de ser e da constituição de ser do ente em questão.
  • Compreende-se o ser do ente, mas nem se apreende conceitualmente esse ser, nem se sabe que se o compreende pré-conceitualmente, nem que é justamente essa compreensão do ser que torna possível todo comportamento em relação ao ente; esse entender do ser, por ser pré-conceitual e não objetual, chama-se compreensão pré-ontológica do ser, e ela já se encontra presente no trato cotidiano do Dasein com o seu mundo, oculta a ele mesmo.
  • O Dasein também se compreende a si mesmo pré-ontologicamente em seu ser ao se relacionar consigo como ente; ele entende sua própria maneira de ser, a existência, mas não a apreende conceitualmente, e inicialmente identifica seu próprio ser com o das coisas, o que ocorre em todo pensamento mítico e nunca desaparece inteiramente, revelando-se ainda no momento da facticidade.
  • A distinção conceitual entre o modo de ser do Dasein e o das coisas permanece obscura por longo tempo, mesmo dentro da filosofia; Kant orbita em torno desses problemas sem os ver como tais, e começa-se hoje a reconhecê-los como centrais.
  • Três pontos resumem o que pertence essencialmente ao Dasein antes e independentemente de qualquer relação científica com o mundo: quando o Dasein existe facticamente, o ente já se encontra desvelado de alguma maneira; seu comportamento em relação a esse ente é primeiramente o trato prático; e todo ente desvelado, inclusive o Dasein ele mesmo, já é compreendido previamente quanto ao seu ser em uma compreensão ainda pré-ontológica.

b) A conversão do comportamento pré-científico ao científico pelo ato fundamental da objetivação. Objetivação como realização explícita da compreensão do ser

  • Mesmo quando, no trato cotidiano, nos voltamos expressamente para as coisas e deliberamos sobre elas, esse olhar circunspeto ainda não é comportamento científico, pois permanece na atitude do lidar com; e igualmente, tomar distância de todo comportamento técnico e permanecer contemplativo junto ao ente não constitui ainda um comportamento teórico-científico.
  • A ausência de prática técnica não gera positivamente um comportamento científico, pois a ciência como tal requisita e inclui medidas técnicas; o que caracteriza positivamente o comportamento científico é que o Dasein se impõe como tarefa livremente escolhida o desvelamento do ente pelo desvelamento mesmo, vinculando-se livremente ao ente que se deve desvelar como única instância reguladora.
  • O comportamento que constitui o comportamento científico como tal chama-se objetivação; objetivar significa fazer de algo um objeto, e o ente não precisa tornar-se objeto para ser o que e como é; tornar-se objeto significa que o ente, como o ente que já é, deve responder ao questionar cognoscente sobre o que é, como é e de onde é.
  • Com a objetivação coloca-se a tarefa de expor e determinar o ente que vem ao encontro na contraposição; todo determinar é distinguir e delimitar, e na delimitação o ente é compreendido conceitualmente; os conceitos assim formados precisam ser verificados e comprovados no ente de que tratam e do qual foram extraídos.
  • O comportamento em relação ao ente só é possível com base numa prévia iluminação por uma compreensão do ser; nas ciências, onde o ente como tal deve tornar-se objeto, é necessária uma elaboração explícita dessa compreensão do ser; o essencial da objetivação está na realização explícita da compreensão do ser em que se torna compreensível a constituição fundamental do ente que deve tornar-se objeto.
  • A gênese de uma ciência se realiza na objetivação de um domínio do ente, o que significa a elaboração da compreensão da constituição de ser do ente em questão; dessa elaboração brotam os conceitos fundamentais que delimitam o terreno e o domínio da ciência, e sobre a objetivação se edifica a tematização.

c) O processo de objetivação na gênese da ciência natural matemática moderna

  • A distinção da ciência natural moderna não está na observação de fatos, no experimento, nem no uso de cálculo e medição tomados isoladamente ou em conjunto, pois a ciência antiga e medieval também recorreram a esses recursos; o decisivo está em que Galileu orientou o conhecimento da natureza a partir da pergunta: como a natureza deve ser previamente determinada para que fatos naturais se tornem acessíveis à observação?
  • A natureza precisa ser previamente projetada como um conjunto fechado de deslocamentos de corpos materiais no tempo, e o que a delimita como tal — movimento, corpo, lugar, tempo — deve ser pensado de modo a possibilitar a determinabilidade matemática; a realização fundamental de Galileu e Kepler foi o projeto matemático explícito da natureza, que é o próprio projeto da constituição de ser da natureza.
  • Não há fatos puros: fatos como tais só podem ser apreendidos quando o domínio da natureza está delimitado como tal; em toda pesquisa que se pretende puramente factual já há pré-concepções sobre a determinação do domínio dentro do qual os fatos são encontrados, e os fatos por si mesmos não podem iluminar a constituição de ser como tal.
  • A essência da ciência como desvelamento do ente pelo desvelamento mesmo reside na objetivação; por ela a ciência ganha solo e delimita seu campo de pesquisa, e a maneira como ganha seu fundamento e seu domínio é como ela se fundamenta; assim já está em certo sentido respondida a pergunta sobre o que significa fundamentar uma ciência.

b) A relação entre fundamentação da ciência e filosofia

  • A autofundamentação das ciências realizada por elas mesmas no projeto da constituição de ser de seu domínio é ao mesmo tempo necessária e limitada: é sim uma fundamentação enquanto a ciência ganha seu solo por esse projeto, mas não o é de modo pleno porque esse projeto esbarra em um limite necessário dentro da própria ciência, exigindo uma fundamentação mais originária que as ciências com seus métodos não podem executar.

a) O limite da autofundamentação da ciência

  • No projeto da constituição de ser de um domínio, o físico delimita os conceitos fundamentais de movimento, corpo, lugar e tempo, mas não tematiza a essência do movimento como tal nem o ser do tempo; quando suas reflexões avançam sobre essas generalidades, torna-se inseguro, pois seus métodos fracassam aí; o mesmo ocorre com o biólogo em relação ao ser da vida e com o historiador em relação à historicidade.
  • Os conceitos fundamentais de uma ciência não podem ser esclarecidos pelos métodos dessa mesma ciência: os conceitos fundamentais da filologia não se esclarecem pela filologia, nem os da história pela pesquisa de fontes; e a verdadeira história de uma ciência não se faz pela descoberta de novos fatos, mas pela transformação de seus conceitos fundamentais, ou seja, pela mudança na compreensão da constituição de ser do domínio.
  • A autofundamentação das ciências exige por sua vez uma fundamentação que elas não podem realizar, pois falta o método seguro para perguntar pelo que os conceitos fundamentais visam como tais; essa fundamentação necessária da autofundamentação da ciência é a fundamentação propriamente dita da ciência.

b) Fundamentação da ciência como ontologia regional. Fundamentação da interrogação ontológica na filosofia como ontologia fundamental

  • O que está no limite das reflexões das ciências é a meditação temática sobre o ser visado no projeto da constituição de ser como tal; a fundamentação da autofundamentação das ciências consiste na transformação da compreensão pré-ontológica do ser em uma ontologia explícita, que pergunta tematicamente pelo conceito de ser e pela constituição de ser como tais.
  • Como cada ciência tem seu domínio regional de ente como objeto, a meditação ontológica correspondente se refere à constituição de ser regional que determina esse domínio; em toda ciência de um domínio do ente já reside latentemente uma ontologia regional que lhe pertence, mas que ela mesma, por princípio, não pode desenvolver.
  • Toda investigação ontológica objetiva o ser como tal; toda investigação ôntica objetiva o ente; a objetivação ôntica só é possível com base no projeto ontológico da constituição de ser, e a interrogação ontológica exige por sua vez uma fundamentação mais originária, executada pela investigação que se chama ontologia fundamental; ontologia nesse sentido universal e radical não é outra coisa que a essência da filosofia.
  • A constituição de ser que precisa ser previamente compreendida para que o ente possa vir ao encontro é aquilo que em certo sentido é mais cedo que o ente, é a priori; esse entendido anteriormente ao ente é justamente o mais tardio e último a ser conceitualmente apreendido, e os próprios gregos chamavam as ciências individuais de filosofias individuais, revelando uma consciência ainda obscura de que toda investigação do ente já compreende o ser.
  • Toda ciência é latente e no fundo filosofia; a própria filosofia está inscrita no fundo do Dasein humano como possibilidade factual, pois a compreensão do ser é a condição mais originária de possibilidade da existência humana; por isso a filosofia, como tarefa de iluminação explícita do ser, é a possibilidade mais livre da existência humana: só onde a necessidade mais originária vincula é possível a liberdade mais elevada.
  • É possível ocupar-se com as ciências do ente sem se importar com a filosofia que nelas necessariamente, embora ocultamente, reside, pois a filosofia é a coisa da mais alta liberdade pessoal e ninguém é obrigado a abraçá-la; mas ela pode ser livremente assumida como necessidade radical da existência humana, desde que a existência singular se resolva a compreender a si mesma.
  • Em síntese: a autofundamentação das ciências precisa por sua vez de fundamentação, porque contém uma compreensão pré-ontológica do ser que as ciências do ente são por princípio incapazes de iluminar; essa fundamentação se realiza nas ontologias regionais, que por sua vez se fundam na ontologia fundamental, que constitui o centro da filosofia; toda ciência do ente contém necessariamente em si uma ontologia latente que a sustenta e fundamenta.
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