Introdução
WOJTYLA, Karol. Personne et acte. Gwendoline Jarczyk. Paris: Centurion, 1983.
1. A experiência do homem
Como compreender essa experiência?
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i. O presente estudo nasce de necessidade de objetivação no domínio desse vasto processo de conhecimento que se pode definir originariamente como a experiência do homem, a mais rica das experiências de que o homem dispõe e, ao mesmo tempo, talvez a mais complexa, estando a experiência de tudo o que se encontra fora do homem sempre ligada a certa experiência do próprio homem, não fazendo este jamais experiência de algo fora de si sem fazer, de algum modo, experiência de si mesmo nessa experiência.
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Quando se fala da experiência do homem, trata-se antes de tudo do fato de o homem aderir a si mesmo, isto é, estabelecer contato cognitivo consigo próprio, contato que comporta caráter experimental de certo modo permanente, mas que se renova a cada vez que se restabelece, interrompendo-se mesmo no caso do eu próprio ao nível da consciência, ainda que apenas durante o sono, sem que o homem deixe de ser ele mesmo, sendo assim a experiência de si contínua em sua duração.
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ii. A posição fenomenalista parece excluir tal unidade feita de múltiplas experiências, vendo na experiência singular apenas conjunto de impressões ou emoções que o espírito viria depois ordenar, sendo certo que a experiência é algo singular, único a cada vez e não reiterável, existindo contudo algo que se pode denominar a experiência do homem, com base em toda uma continuidade de dados empíricos, não sendo o objeto da experiência apenas o fenômeno sensível momentâneo, mas o próprio homem tal como se destaca de todas as experiências e tal como já é em cada uma delas.
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iii. Não se pode dizer tampouco que a experiência se esgote nas impressões recebidas no momento mesmo, restando apenas o trabalho do espírito que formaria o homem como objeto próprio com base no conjunto atual dos dados sensíveis, durando a experiência do homem — daquele homem que eu mesmo sou — enquanto perdura esse contato cognitivo imediato de que sou, de um lado, sujeito e, de outro, objeto.
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Em estreita ligação com esse contato desenrola-se o processo de compreensão, que também possui seus momentos e sua continuidade, compondo-se a compreensão de si mesmo de múltiplos atos de compreensão, quase como a experiência se compõe de múltiplas experiências, parecendo então que cada experiência é, ao mesmo tempo, forma de compreensão.
A experiência como base do conhecimento do homem
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i. Tudo o que se disse referia-se propriamente apenas ao homem singular, aquele que eu mesmo sou, sendo também objetos de experiência os demais homens, que existem fora de mim, implicando a experiência do homem tanto a experiência de si mesmo quanto a de todos os outros homens que, em relação ao sujeito, se encontram na posição de objeto de experiência, isto é, em contato cognitivo imediato, não podendo, é certo, a experiência individual de nenhum homem alcançar todos os demais, mesmo contemporâneos, devendo limitar-se a certo número deles, mais ou menos restrito, desempenhando o aspecto quantitativo certo papel nessa experiência.
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ii. Cabe assinalar que os homens comunicam também entre si os resultados de suas experiências relativas ao homem fora de todo contato direto, representando tais resultados já certo saber e contribuindo para o incremento não apenas da experiência, mas do conhecimento do homem, seja pré-científico, seja científico em suas diferentes disposições e orientações, estando sempre na base desse conhecimento a experiência, podendo o conhecimento assim reciprocamente comunicado enriquecer, de certo modo, as experiências próprias de cada um, não deformando-as, mas antes multiplicando-as e completando-as.
O eu próprio e o homem no campo da experiência
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i. Impõe-se retomar esse ponto, pois se percebe cada vez mais a necessidade de esclarecer o que significa a experiência em geral, e em particular a experiência do homem, não pretendendo por ora explicar esse conceito fundamental, mas apenas descrever em linhas gerais esse processo cognitivo tão rico e complexo denominado experiência do homem.
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É fato de primeira importância que os demais homens, objetos de experiência, o sejam de modo distinto daquele pelo qual o sou eu mesmo para mim e cada um para si mesmo.
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ii. Poder-se-ia mesmo hesitar e perguntar se se considera com razão ambos os casos como experiência do homem, ou se não estaríamos diante de duas experiências irredutíveis uma à outra, fazendo-se numa apenas a experiência do homem e na outra exclusivamente do próprio eu, sendo contudo difícil negar que nessa segunda experiência também se encontra o homem, experimentado ao vivermos o próprio eu, tratando-se de experiências diferentes, mas não irredutíveis, havendo unidade fundamental do objeto de experiência, malgrado a diferença evidente entre sujeito e objeto nos dois casos.
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iii. Há disparidade sem medida, pois o homem é dado a si mesmo de modo bem mais rico e diverso enquanto eu próprio do que sob a figura de outro homem que não sou eu, subsistindo tal diferença mesmo admitindo-se máxima aproximação em relação a esse outro, tornando essa aproximação eventualmente mais fácil a representação objetiva do que nele há, ou do que ele é, sem que essa representação objetiva se confunda com a experiência, sendo cada um objeto de experiência para si de modo único e não reiterável, não podendo nenhuma relação exterior com outro homem substituir essa relação de experiência própria do sujeito.
Experiência e compreensão
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i. A experiência de si mesmo não deixa, contudo, de ser experiência do homem, não ultrapassando os limites dessa experiência que compreende todos os homens ou simplesmente o homem, o que decorre certamente da participação do espírito humano nos atos da experiência do homem, sendo difícil dizer que estabilização no campo do objeto de experiência os sentidos, por si sós, podem assegurar, não sabendo nenhum homem, a partir de sua própria experiência, como se apresenta e a que se limita a experiência puramente sensível própria do animal.
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Produz-se, contudo, certa estabilização, mas apenas ao nível dos indivíduos particulares que reagrupam conjuntos dados de qualidades sensíveis, sendo diferente, na experiência humana, a estabilização dos objetos experimentais, que procede por diferenciação e classificação intelectuais, mantendo-se em virtude dessa estabilização a experiência que o sujeito faz de seu próprio eu dentro dos limites da experiência do homem, o que permite que tais experiências se recubram mutuamente.
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ii. Tal interferência das experiências, consequência da estabilização específica do objeto, constitui a base da formação do conhecimento do homem tanto a partir do que fornece a experiência do homem que eu sou quanto da experiência de todo homem que não sou eu, não constituindo a estabilização do objeto de experiência pelo entendimento, em si mesma, prova de a priori cognitivo, mas apenas prova da participação indispensável do espírito, do elemento intelectual, em todo conhecimento humano, sendo a esse elemento intelectual que se deve a fundamental identidade de objeto da experiência do homem nos dois casos.
A simultaneidade do aspecto interno e do aspecto externo da experiência do homem
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i. A identidade não deve ocultar a disparidade ilimitada, disparidade que resulta de que apenas em relação a esse homem único que sou eu existe também a experiência a partir do interior, a experiência interior, que não ocorre em relação a nenhum outro homem fora de mim, não sendo os demais jamais compreendidos senão numa experiência do exterior, permanecendo possível comunicar-se com eles de outro modo além da simples experiência, tornando de certo modo acessível o que é objeto exclusivo de sua experiência interna, sem que essa experiência interior possa, ela própria, ser transferida para além do próprio eu.
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ii. Tal circunstância não acarreta, contudo, separação na estrutura de conjunto de nosso conhecimento do homem, separação que resultaria em distinguir o homem interior, do qual apenas se faz experiência do próprio eu, do homem exterior, que seria todo outro homem fora de mim, não permanecendo os outros para mim como simples exterioridade em oposição à minha própria interioridade, mas, na estrutura de conjunto do conhecimento, complementando-se e equiparando-se esses aspectos, concorrendo a própria experiência, sob suas duas formas, interior e exterior, para esse resultado em vez de o obstar.
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iii. Sou assim, antes de tudo, para mim mesmo não apenas interioridade, mas também exterioridade, sendo objeto das duas experiências, e todo homem diverso de mim, embora seja para mim objeto de experiência apenas do exterior, não se apresenta, quanto à estrutura de conjunto de meu conhecimento, como simples exterioridade, mas possui igualmente sua própria interioridade, que, embora não experimente diretamente, não ignoro, sabendo que existe nos homens em geral, podendo em relação a alguns deles ter conhecimento aprofundado, podendo tal conhecimento, a partir de contato determinado, tornar-se espécie de experiência de outra interioridade, distinta da experiência interior do próprio eu, mas possuidora igualmente de propriedades empíricas que lhe são próprias.
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iv. Impõe-se ter tudo isso em conta para compreender a experiência do homem, não sendo possível separar artificialmente essa experiência da estrutura de conjunto dos atos cognitivos que têm justamente o homem por objeto, nem separá-la artificialmente do fator intelectual, possuindo todo o conjunto dos atos cognitivos ordenados ao homem, tanto ao homem que sou quanto a todo outro fora de mim, caráter empírico e intelectual simultaneamente, compreendendo-se um no outro, exercendo influência recíproca e beneficiando-se mutuamente.
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v. Convém ter sempre presente, no presente estudo, a experiência total do homem, não introduzindo a disparidade da experiência do homem antes indicada nenhuma disjunção cognitiva, nem tampouco irredutibilidade, podendo avançar-se profundamente no conhecimento íntimo do homem sem temer que os aspectos particulares da experiência induzam a erro, não deixando a complexidade da experiência humana de ser dominada por sua simplicidade fundamental, compondo-se a estrutura de conjunto da experiência, e portanto do conhecimento do homem, tanto da experiência que cada um possui em relação a si mesmo quanto da experiência dos outros homens, tanto da experiência interior quanto da exterior, compondo tudo isso, no conhecimento, a unidade de um todo mais do que uma simples complexidade, constituindo a convicção dessa simplicidade fundamental da experiência do homem dado antes encorajador para o conjunto do problema cognitivo objeto do presente estudo.
2. O conhecimento da pessoa fundado na experiência do homem
O ponto de vista empírico não se identifica com o fenomenalismo
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1. Impõe-se explicar mais detidamente em que sentido se compreende a experiência em geral ao falar-se da experiência do homem, não se tratando de sentido puramente fenomenalista, corrente no amplo círculo do pensamento empirista, não podendo o ponto de vista empírico aqui adotado ser confundido com concepção fenomenalista da experiência, conduzindo a tentativa de reduzir o domínio da experiência às funções e dados sensoriais a profundas contradições e mal-entendidos, como se mostra no caso do próprio objeto de conhecimento aqui investigado, o homem.
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Adotando-se a posição fenomenalista, impor-se-ia perguntar o que é imediatamente dado — se apenas certa superfície sensível do ser chamado homem, ou o próprio homem, ou ainda, em que medida, o eu próprio entendido como homem —, havendo dificuldade em admitir que no homem, ou antes do homem, seja imediatamente dado apenas conjunto indefinido de qualidades sensíveis, sem que o próprio homem, sua ação consciente, seu ato, seja já dado.
Partimos do fato “o homem age”, dado na experiência fenomenológica
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1. A experiência liga-se, sem contestação, a domínio de fatos que nos são dados, sendo o conjunto dinâmico o homem age certamente fato desse tipo, tomando-se aqui como ponto de partida esse fato que se produz das mais numerosas vezes na vida de todo homem, obtendo-se, multiplicado pelo grande número de homens, quantidade incalculável de fatos e, assim, imensa riqueza de experiências.
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2. A experiência remete também à imediatidade do próprio conhecimento, ao contato cognitivo imediato com o objeto, permanecendo os sentidos em contato imediato com os objetos da realidade circundante, sendo contudo difícil admitir que apenas o ato sensorial apreenda esses objetos ou fatos de modo imediato, devendo constatar-se que o ato intelectual participa, ao menos, dessa imediatidade da apreensão do objeto, sem que tal imediatidade reduza a diferença de conteúdo desta em relação ao ato puramente sensorial, nem sua gênese própria.
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3. Não se pode admitir que a experiência se limite, na apreensão do fato o homem age, à mera superfície, ao conjunto de impressões sensíveis únicas e não reiteráveis, aguardando o espírito essa matéria para dela fazer seu objeto, denominado ato ou pessoa e ato, mostrando-se antes que o espírito já está engajado na própria experiência, que lhe permite tomar contato com o objeto de modo igualmente, ainda que diversamente, imediato.
O ato como momento particular de investigação no interior da pessoa
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1. Toda experiência humana é, ao mesmo tempo, certa compreensão daquilo de que se faz experiência, posição contrária ao fenomenalismo e própria, ao contrário, da fenomenologia, que acentua sobretudo a unidade do ato do conhecimento humano, posição-chave para o estudo da pessoa e do ato, considerando-se o ato momento particular dado na apercepção — isto é, na experiência — da pessoa.
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2. Tal experiência constitui simultaneamente forma de compreensão bem determinada, a apercepção intelectual dada a partir do fato o homem age tomado em suas inúmeras ocorrências, deixando-se esse fato, tomado em todo seu conteúdo de experiência, compreender como ato da pessoa, com evidência que lhe é própria, indicando essa evidência tanto a propriedade essencial do objeto de revelar-se ou tornar-se visível quanto a plena confirmação, no conteúdo da experiência, da compreensão do fato o homem age como conjunto estrutural pessoa-ato.
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3. Definindo-se mais precisamente a relação com os fatos em que se apoia o presente estudo, a compreensão do fato o homem age como conjunção dinâmica pessoa-ato encontra plena confirmação na experiência, revelando-se nesta a estreita correlação, correspondência semântica e interdependência entre pessoa e ato, competindo o agir, sem contestação, apenas à pessoa como agente, pressupondo assim o ato, tal como concebido, a pessoa, concepção adotada em diversos domínios do saber que têm por objeto o agir humano, sobretudo na ética, ciência do ato que pressupõe a pessoa.
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4. No presente estudo pretende-se inverter essa perspectiva: não se trata de estudo do ato enquanto pressupõe a pessoa, mas de estudo do ato que revela a pessoa, estudo da pessoa através do ato, sendo tal a natureza da correlação existente na experiência que o ato constitui momento particular da revelação da pessoa, permitindo penetrar sua essência do modo mais apropriado e compreendê-la o mais completamente possível.
A moralidade caracteriza os atos humanos
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1. A experiência e a apercepção intelectual da pessoa em seus atos e através deles provêm particularmente do fato de possuírem tais atos valor moral, sendo moralmente bons ou maus, constituindo tal caráter moral propriedade íntima e perfil particular inexistente na ação que pressupõe agentes diversos da pessoa, distinguindo-se apenas a ação que pressupõe pessoa como agente pelo caráter moral que a assinala.
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2. A história da filosofia constitui, por isso mesmo, palco do eterno encontro entre antropologia e ética, não podendo a ciência voltada ao estudo fundamental do bem e do mal morais prescindir do fato de que o bem ou o mal se manifesta apenas nos atos e através deles se torna próprio do homem, tratando a ética tradicional com grande assiduidade tanto do ato quanto do homem, como exemplificam a Ética a Nicômaco e a Suma Teológica, não sendo possível, malgrado tendência da filosofia moderna a certa abstração das implicações antropológicas, rejeitá-las totalmente no domínio da ética.
O valor moral do ato revela a pessoa mais profundamente do que o próprio ato
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1. Ao contrário da pressuposição essencial da pessoa pela ética em relação aos atos aos quais imediatamente cabe valor moral, pretende-se aqui seguir direção oposta, constituindo os atos momentos particulares da apercepção e do conhecimento empírico da pessoa, ponto de partida mais apropriado para compreender sua essência dinâmica, interessando não os valores morais em si mesmos, tema próprio da ética, mas o fato de seu advir nos atos, seu fieri dinâmico, que, mais profunda e fundamentalmente que o próprio ato, revela a pessoa.
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2. Não podendo separar-se artificialmente o ato humano dos valores morais sem desviar a atenção de sua plena dinâmica, a experiência moral, em seu aspecto dinâmico ou existencial, constitui parte integrante da experiência do homem, fundamento sólido da compreensão da pessoa, tornando-se o homem, considerado precisamente como pessoa em virtude de seus atos moralmente bons ou maus, ele próprio bom ou mau, manifestando-se a pessoa tanto no ponto de partida quanto no ponto de chegada desses valores.
A articulação da experiência humana e da experiência moral: fundamento da antropologia e da ética
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1. O presente estudo não se inscreve no domínio da ética, não pressupondo nem implicando a pessoa, mas antes abrindo-se amplamente à explicação dessa realidade, buscando-se na fonte constituída pelo ato, e mais precisamente pela moral em seu aspecto dinâmico ou existencial, o conhecimento do que é a pessoa, respeitando-se, mais do que o vínculo tradicional entre antropologia e ética, a unidade real objetiva das experiências relativas à articulação entre experiência dos valores morais e experiência do homem, condição fundamental para a apercepção e justa compreensão da pessoa.
“Colocação entre parênteses” da problemática ética
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1. A relação entre antropologia e ética pode ser concebida, segundo procedimento matemático, à maneira da colocação de um termo fora do parêntese, elementos comuns a todos os demais e postos diante do parêntese apenas para facilitar as operações, sem rejeitar o que se coloca à frente nem romper seus vínculos com o que permanece dentro, evidenciando antes essa exclusão a presença e o significado do elemento destacado no conjunto da operação.
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O problema pessoa-ato, que permaneceria implícito na ética tradicional, pode assim aparecer mais plenamente considerando-se a ética como colocada diante do parêntese, tanto em sua realidade própria quanto na riquíssima realidade constituída pela moral humana.
3. Etapas da compreensão e linha de interpretação
A indução como apreensão da unidade de significação
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1. Estabelecida a apreensão da relação pessoa-ato, ou mais precisamente a apercepção da pessoa pelo ato, com base na experiência do homem, composta de inúmeros fatos entre os quais assumem importância particular os do tipo o homem age, por neles se efetuar a descoberta particular da pessoa através do ato, oferecendo tais fatos, além de sua multiplicidade quantitativa, a complexidade de serem dados exteriormente quanto aos demais homens e interiormente com base no próprio eu, constituindo a passagem dessa multiplicidade à apreensão de sua identidade fundamental obra da indução, entendida à maneira aristotélica como apreensão pelo espírito de unidade de significação na multiplicidade fenomenal, distintamente do que sustentam positivistas modernos como Mill, que nela veem já forma de demonstração.
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2. Ao tomar a experiência do homem a forma da apercepção da pessoa através de seu ato, concentra essa apercepção em si toda a simplicidade da experiência, tornando-se sua expressão, indo-se assim, sob o ângulo da apercepção da pessoa, da multiplicidade dos fatos experienciais à sua identidade — à afirmação de que em cada fato do tipo o homem age se compreende a mesma relação pessoa-ato —, equivalendo tal identidade, em qualidade, à unidade de significação, obra da indução, permanecendo, contudo, no plano da experiência, toda a riqueza e diversidade dos fatos, à qual o espírito continua aberto mesmo ao apreender sua unidade de significação.
A redução como meio de “exploração” da experiência
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1. Explica-se assim a necessidade, com a compreensão da relação pessoa-ato, de explicá-la e elucidá-la, abrindo a indução os caminhos da redução, nascendo o presente estudo justamente como expressão dessa necessidade de explicação, elucidação ou interpretação da rica realidade da pessoa dada, juntamente com seus atos e através deles, na experiência do homem, não se tratando de demonstrar que o homem é pessoa ou que sua ação é ato — já dado na experiência —, mas de elucidar mais completamente, com base em certa compreensão fundamental, a realidade da pessoa e do ato.
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2. Tal elucidação só se realiza mediante engajamento cada vez mais profundo na experiência e em seu próprio conteúdo, saindo assim pessoa e ato da sombra e expondo-se cada vez mais plena e completamente ao espírito que os conhece, constituindo a explicação, a compreensão redutiva, espécie de exploração da experiência, não devendo o termo redução ser mal entendido como diminuição ou limitação da riqueza do objeto experiencial, mas antes como colocação em evidência de modo coerente.
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3. À indução deve-se talvez, não tanto a objetivação, quanto a intersubjetivação essencial a este estudo, constituindo-se pessoa e ato em objeto que todos podem considerar independentemente da implicação subjetiva em que esse objeto se encontra ao menos parcialmente engajado, uma vez que parte importante da experiência do homem é constituída pela experiência do próprio eu, sendo a relação pessoa-ato, para cada um, antes de tudo vivência subjetiva, fato subjetivo, tematizado e problematizado pela indução, entrando então no domínio das investigações teóricas, constituindo, enquanto vivido, o que a tradição filosófica definiu pelo termo práxis, acompanhada de compreensão prática suficiente e necessária ao homem para viver e agir conscientemente.
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4. A linha de investigação e interpretação aqui escolhida passa pela retomada teórica dessa práxis, não se perguntando como agir conscientemente, mas o que é a ação consciente, isto é, o ato, e de que modo esse ato revela a pessoa e serve à sua plena compreensão, sendo necessário considerar também o momento relativo à práxis, ao conhecimento prático a que tradicionalmente se vinculou a ética, que apenas pressupõe a pessoa, tratando-se aqui, ao contrário, de sua colocação em evidência e interpretação.
Objetivo da interpretação: apreensão adequada das razões do objeto
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1. O presente estudo possui caráter de redução, não indicando esse termo limitação ou diminuição, mas significando reducere reconduzir às razões, aos fundamentos verdadeiros, isto é, explicar, elucidar, interpretar, avançando-se sempre mais além na sequência do objeto dado na experiência, segundo o modo como é dado, sem que a indução e a intersubjetivação da pessoa e do ato apaguem em nada essa riqueza e complexidade, que constituem, para o espírito em busca de razões verdadeiras, fonte inesgotável e auxílio constante.
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2. Não se trata de abstração, mas de penetrar na realidade realmente existente, devendo as razões que explicam essa realidade corresponder à experiência, sendo assim a redução, e não apenas a indução, imanente em relação à experiência, sem deixar de ser transcendente a ela, sendo em geral a compreensão imanente à experiência humana e, ao mesmo tempo, transcendente em relação a ela, não por ser a experiência ato ou processo sensível e a compreensão ordem intelectual, mas em razão do caráter essencial de uma e de outra.
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3. Na explicação ou interpretação trata-se de tornar a imagem intelectual do objeto adequada, igual ao objeto, isto é, capaz de apreender todas as suas razões, apreendendo-as corretamente e conservando entre elas sua proporção específica, dependendo em larga medida disso a justeza da interpretação, bem como sua dificuldade.
A concepção: expressão da compreensão e interpretação do objeto
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1. Reside também aí a dificuldade da concepção, entendida como expressão do próprio processo de compreensão, desde a apercepção inicial da pessoa no ato até sua interpretação completa, tratando-se não apenas da convicção íntima de que o homem agente é pessoa, mas de sua apresentação intelectual e linguística, de configuração exterior que a torne plenamente comunicável, formando-se tal concepção juntamente com a compreensão do objeto e assumindo as formas necessárias para que essa compreensão possa exprimir-se e ser comunicada a outros homens.
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2. A dificuldade da interpretação e da concepção do homem vincula-se à disparidade já assinalada na experiência do homem, e por conseguinte na apreensão da relação pessoa-ato a partir dela efetuada, devendo tal relação revelar-se de modo diverso a partir do eu próprio no campo da experiência interior e no campo da experiência exterior que abrange os demais homens, constituindo a integração conveniente dessas compreensões, decorrentes de tal disparidade, uma das tarefas principais deste estudo.
4. A concepção de pessoa e ato tal como se pretende apresentá-la neste estudo
Tentativas de restituição da subjetividade do homem
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1. Se a disparidade da experiência do homem, desde o início assinalada, cria dificuldade na interpretação e concepção do ser humano, deve reconhecer-se que ela abre também possibilidade particular e ampla perspectiva, revelando-se a pessoa, com base na experiência total do homem, através do ato justamente porque nessa experiência o homem é dado não só exteriormente, mas também interiormente, abrindo-se, ao ser dado não apenas como homem-sujeito mas também em toda a experiência de sua subjetividade enquanto eu, a possibilidade de interpretação do homem como objeto de nossa experiência que restitua, ao mesmo tempo, em sua verdadeira dimensão, a subjetividade do homem.
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2. A experiência do homem, com sua clivagem característica entre aspecto de interioridade e de exterioridade, parece estar na origem das grandes clivagens entre correntes principais do pensamento filosófico — corrente objetiva e corrente subjetiva, filosofia do ser e filosofia da consciência —, sendo contudo simplificação excessiva reconduzir essa divisão ao único duplo aspecto da experiência humana, devendo, do ponto de vista da pessoa e do ato que aqui se busca compreender com base na experiência do homem, ceder toda absolutização de um dos dois aspectos diante da necessidade de sua mútua relativização, o que decorre da própria essência dessa experiência.
O aspecto da consciência
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1. Não se pretendem conduzir as análises deste estudo apenas no plano da consciência, ainda que devam incluir o aspecto da consciência, sendo o ato, momento particular da apercepção da pessoa, não apenas conteúdo já constituído na consciência, mas realidade dinâmica que revela ao mesmo tempo a pessoa como seu próprio sujeito eficiente, sendo nesse sentido que se pretende considerar o ato em todas as análises deste estudo e através dele descobrir a pessoa.
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2. Revelando-se sempre através da consciência o ato e a pessoa cuja essência esse ato particularmente descobre, com base na experiência do homem e sobretudo na experiência interior, devem pessoa e ato ser considerados também sob o aspecto da consciência, sem que a razão pela qual o ato — actus personae — é ação consciente se reduza apenas a aparecer-nos sob esse aspecto.
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3. A primeira tarefa deste estudo consiste em examinar a relação recíproca entre consciência e eficiência da pessoa, isto é, entre consciência e aquilo que constitui a própria essência do dinamismo próprio do ato humano, penetrando no cerne dessa rica totalidade da experiência, onde se revela cada vez mais plenamente a pessoa através de seu ato, descobrindo-se a transcendência específica manifestada pela pessoa nesse mesmo ato, submetida a análise tão aprofundada quanto possível.
Transcendência e integração da pessoa
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1. A apercepção da transcendência da pessoa no ato constitui a forma principal da experiência a que remete toda esta concepção, encontrando-se nela a fonte fundamental da convicção de que o homem que age é verdadeiramente pessoa e de que sua ação constitui de fato actus personae, tratando-se aqui sobretudo de extrair da experiência do ato tudo o que testemunha o homem como pessoa.
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2. A intuição fundamental da transcendência da pessoa no ato permite perceber também o momento da integração da pessoa no ato, complementar à transcendência, sendo a integração condição essencial desta no conjunto estrutural da complexidade psicossomática do sujeito humano, reforçando tal aspecto complementar a convicção de que a categoria de pessoa e ato constitui a verdadeira expressão da unidade dinâmica do homem, fundada em unidade ôntica cujos elementos e problemas essenciais aqui apenas se aproximam, sem pretensão de esgotá-los, remetendo o último capítulo, Esboço de uma teoria da participação, a outra dimensão do fato o homem age que se impunha indicar, ainda que sem análise completa neste estudo.
Significado da problemática personalista
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1. O conjunto das pesquisas e análises deste estudo reflete a extrema atualidade da problemática personalista, cujo valor fundamental para todo homem e para a família humana em seu crescimento contínuo dificilmente se poderia negar, gerando a reflexão sobre as diversas linhas do desenvolvimento dessa família, e da cultura e civilização, com todas as desigualdades e dramas desse desenvolvimento, necessidade viva de cultivar filosofia da pessoa, parecendo que a multiplicidade dos esforços cognitivos dirigidos ao exterior deixa muito atrás de si a soma dos esforços e resultados que o homem concentra sobre si mesmo.
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2. Sendo o homem, como constatado, o primeiro, mais próximo e mais frequente objeto da experiência, expõe-se por isso mesmo ao desgaste do hábito, correndo o risco de tornar-se para si mesmo demasiado habitual, perigo que este estudo também nasce da necessidade de superar, nascendo do espanto perante o ser humano que constitui, como se sabe, o primeiro incitamento ao conhecer, tornando-se esse assombro sistema de perguntas e depois sistema de respostas e soluções, satisfazendo-se assim necessidade determinada da existência humana.
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3. Trata-se de atingir a realidade humana em seu ponto mais essencial, designado pela experiência do homem, do qual o homem não pode retirar-se sem sentir haver-se extraviado a si mesmo, não sendo este trabalho concebido à maneira de comentário nem de sistema, mas representando ensaio próprio de compreensão do objeto em questão, propondo-se encontrar, em suas análises, expressão sintética para a concepção de pessoa e ato, essencial a essa concepção parecendo ser sobretudo a busca de compreender a pessoa humana por ela mesma, respondendo ao desafio proposto pela experiência do homem em toda sua riqueza e pela problemática existencial do homem no mundo contemporâneo.
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