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Nascimento dos Deuses

Marc Richir. La naissance des dieux. Paris: Hachette, 1995.

Prefácio

  • o objetivo da obra é resgatar “ao vivo” a transformação constitutiva da mitologia que a instituição do Estado (do rei) impõe ao material mítico preexistente, atribuível, a partir dos trabalhos de Claude Lévi-Strauss e de Pierre Clastres, a “sociedades contra o Estado”
    • inexistem sociedades, na história ou na etnografia, em que essa mutação seja observável diretamente, estando sempre situadas “antes” ou “depois” dela
    • o caso grego permite acompanhar o curso desse trabalho de “mitologização” sobre um material mítico-mitológico preexistente, indo das “lendas” de fundação das cidades gregas até a elaboração propriamente mitológica em Hesíodo
    • essa curva costuma estar ausente em outras culturas onde não houve fixação escrita dessas lendas de origem oral
    • o caso grego caracteriza-se pela multiplicidade de pequenas cidades em conflito mútuo, cada qual reivindicando as altas origens narradas de sua fundação até a época propriamente histórica
  • esses relatos, tidos como lendas, foram retomados nas elaborações de uma cultura em rápida transformação, mas atenta à fidelidade às tradições, sendo a tragédia a mais importante dessas elaborações
  • a consideração dos relatos gregos de fundação revela que o enredo da fundação é o da passagem da barbárie do tirano em sua irrupção à civilização do rei legítimo em sua fundação, e correlativamente, a passagem das personagens míticas originais à condição de divindades ou heróis
    • a fundação real, para ser estável, precisa assegurar a continuidade dinástica, o que exige elaborar regras estáveis de parentesco e devolução do poder
    • há um duplo remanejamento do material simbólico preexistente — mitos ainda subsistentes e relatos de fundação mais antigos caídos em desuso — por meio de “divinização” e “heroização” de personagens, e de “genealogizações” entrecruzando deuses e heróis
  • a fundação mítico-mitológica constitui, à luz da obra de Claude Lefort, uma fundação teológico-política da realeza, indissociável a instituição política da instituição social
    • não há deuses sem reis, nem religião arcaica sem Estado e poder coercitivo
    • essa fundação é complexa a ponto de fracassar na maioria dos casos, fracasso retomado e reelaborado em múltiplos níveis pela tragédia
    • o campo simbólico se polariza em termos de poder, sendo o poder régio legítimo apenas quando fundado em equilíbrio harmonioso entre os poderes detidos pelos deuses
    • a retomada do material mítico-mitológico preexistente implica sua colocação em ordem numa coerência única, tarefa própria do trabalho hesiódico de fundação ao assegurar a ordem entre os deuses — trabalho da fundação mitológica propriamente dita, não mais da fundação mítico-mitológica inchoativa
    • há na mitologia stricto sensu um verdadeiro “espírito de sistema” que se conquista e se depura em relação à multiplicidade indefinida dos mitos, noção de Lévi-Strauss
  • esse trabalho de pensamento, que não decorre de fantasia alguma, é reconstituído em sua “carne”, identificando seus principais motivos no esboço de uma fenomenologia de uma espécie de “hipnose” coletiva (“transcendental”) que acompanha a questão da fundação, na travessia da tirania encarnada pelo Um coercitivo (o déspota, o tirano) rumo à realeza justa, equilibrada e garante da nova ordem simbólica em vias de se instituir
  • no caso grego, essa travessia não chegou a ocorrer de fato, tendo sido abandonada numa retomada distinta da questão da fundação — a fundação da democracia, em que o problema da soberania deixa de ser central — e desativada, no mesmo movimento, pela experiência trágica
    • o efeito catártico consiste em despertar essa hipnose coletiva colocando-a, ela mesma, “sob hipnose” pela “magia” da poesia e do teatro
    • o fracasso da fundação, encenado de múltiplas maneiras na tragédia, significa a proliferação da tirania não apenas na figura do herói ou do rei, mas entre os próprios deuses
    • a tragédia, na curva significante que vai de Ésquilo a Eurípides passando por Sófocles, constitui uma elaboração simbólica em abismo dos infortúnios da fundação, conduzindo o homem a se confrontar consigo mesmo como enigma
    • a catarse trágica expõe uma fenomenologia da afetividade de extraordinária riqueza e sutileza, ausente da filosofia, propondo uma elaboração simbólica sobre a qual ainda se vive, a despeito das racionalizações psicológicas
  • essa fenomenologia oferece matéria para reancorar a experiência como experiência fenomenológica e para compreender os motivos e motivações da experiência mítico-mitológica do pensamento
    • pela tragédia se abre a possibilidade de uma verdadeira fenomenologia da afetividade, já pressentida por Karl Reinhardt, que “curto-circuita” pela catarse trágica seu codificação em termos de fundação e suspende toda teorização filosófica e psicológica, a qual opera uma redução mais ou menos explícita e empobrecedora da afetividade
    • sob o horizonte dessa fenomenologia já esboçada no interior da elaboração simbólica da tragédia, abre-se a chance de reler de outro modo os relatos mítico-mitológicos de fundação, e talvez os próprios mitos, e assim de se reencontrar de outro modo, fora das armadilhas narcísicas do triunfalismo cientificista da época atual
  • para concluir, a obra não pretende contribuir aos trabalhos muito ricos da Escola francesa de antropologia da Grécia antiga, decifrando em detalhe tal ou qual código simbólico ou relações entre códigos, mas propor uma interpretação filosófica global do próprio trabalho de pensamento mítico-mitológico e mitológico, mostrando, longe de qualquer redução etnocentrista, que esse trabalho de pensamento é um trabalho de pensamento por inteiro, como qualquer outro
    • ele se efetua com outras “coordenadas” simbólicas e em outra instituição simbólica diferente da nossa, o que submete a explicitação a própria questão do pensamento
    • contrariamente ao que pretendia Platão, não há pensamento “puro”, nem pensamento que possa se desdobrar sem se figurar numa “plástica” que lhe seja própria
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