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Heróis
Marc Richir. La naissance des dieux. Paris: Hachette, 1995.
A morte dos heróis
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Reconhecer o estatuto social da poesia épica é uma dificuldade conhecida, pois, sendo inicialmente oral e cantada por aedos nas cortes dos reis, a datação da Ilíada e da Odisseia no final do século VIII a.C. corresponde à fixação do texto por escrito, momento em que a transmissão oral se estabilizou em uma referência constante da cultura grega.
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A dificuldade da arqueologia da poesia homérica e da análise de sua composição, que reconhece muitos traços da poesia oral, não impede de identificar as características pelas quais ela já se distancia dos relatos de fundação, que em grande parte são supostamente conhecidos.
Esse distanciamento pode ser medido por três motivos principais que emergem ao longo da elaboração propriamente poética: a sublimização consumada dos deuses pela encenação do sublime, as epifanias divinas representadas de maneira antropomórfica e, nos heróis, o desdobramento do que os trágicos reconhecerão como as “paixões”.-
A sublimização dos deuses, exemplificada por citações de Longino no tratado “Do sublime”, mostra a grandeza absoluta e o poder absoluto nas encenações poéticas, como quando os cavalos dos deuses saltam a medida aérea vista de um cume, ou quando o trovão de Zeus e o tremor de Posídon abalam a terra, fazendo Aídon, senhor dos mortos, saltar do trono de pavor.
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A sublimização dos deuses não se dá apenas para o alto, mas também para os abismos, e a representação poética do sublime tende a desligar os deuses das múltiplas intrigas, ainda que essas intrigas não se reduzam mais a uma fundação de poder real.
Os deuses, no entanto, não se reduzem à sua sublimidade poética, pois permanecem ligados às intrigas humanas, e é através dos heróis épicos que eles regulam sua querela, intervindo frequentemente no relato e assumindo figura antropomórfica em suas epifanias, o que, paradoxalmente, os afasta na própria aproximação.-
Longino observa que Homero fez dos homens que estiveram em Troia deuses, e dos deuses fez homens, tornando eterna não tanto a natureza divina, mas a sua miséria, pois, enquanto para os homens resta a morte como refúgio, para os deuses não há tal alívio.
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A representação do irrepresentável, que também ocorre nas artes plásticas, tende a afastar os deuses mesmo quando eles se aproximam da forma humana, fazendo com que sua enigma comece a se colocar em um sentido diferente, desligado da fundação.
Essa situação nova em relação aos relatos de fundação abre duas direções: o aparecimento de um “caráter” heroico e, correlativamente ao desdobramento da intriga global em intriga divina e intriga heroica, a continuação do trabalho de mitologização no interior da elaboração poética.-
O “caráter” do herói não é psicológico, pois seus traços são aquilo que enlaça as intrigas divinas às intrigas heroicas, podendo ser reunidos em três vocábulos: a até, o menos e o daimôn.
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A até, exemplificada pela explicação de Agamemnon a Aquiles sobre o rapto de Briseis, é uma espécie de erro fatal irresistível, uma “loucura passageira e parcial” devida a um agente exterior, como Zeus, o Destino ou a Érinis, que inspiram a falta, sem que essa falta esteja originalmente ligada à culpa, mas sim a um “mau espírito” que conduz cegamente ao irreparável.
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O menos é um “misterioso acesso de energia”, sem nada de psicológico, que coloca o herói acima ou abaixo do humano, aproximando-o da selvageria animal, e que, por sua violência, confere poder, sendo também de origem divina.
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O daimôn, originalmente “o que distribui as partes”, evoluiu para significar a “chance” ou o “lote” impessoal que cabe ao herói, explicando as ideias e ações súbitas que entram na cabeça, como se algo as tivesse ali colocado, de modo que o homem atribui a sugestão, boa ou má, aos deuses ou a um daimôn.
Para compreender a dupla intriga, divina e heroica, da Ilíada, é necessário recorrer aos “Cantos Cipriotas”, que narram as premissas da guerra de Troia, onde Hécuba, grávida de Páris, sonha que dá à luz uma tocha, e Cassandra profetiza que ele será a perda da cidade, sendo por isso confiado a um pastor no monte Ida.-
No monte Ida, Páris é escolhido como árbitro por Hera, Atena e Afrodite, que lhe perguntam qual é a mais bela; ao dar o prêmio a Afrodite, ele provoca a cólera das outras duas deusas e obtém como recompensa o rapto de Helena, esposa de Menelau, o que deflagra a guerra de Troia.
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A origem de toda a trama remete ao festim das núpcias de Tétis e Peleu, onde Éris provoca a Querela entre as deusas, sendo essa intervenção desejada por Zeus para realizar o despovoamento da terra e a separação entre deuses e homens, com a raça heroica sendo destinada a ser aniquilada.
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O querer de Zeus traz o conflito aos deuses e aos heróis, rompendo o equilíbrio das potências divinas que assegurava a legitimidade da dinastia troiana, e essa ruptura conduz à destruição do genos heroico, manipulada pelas querelas divinas ao longo da Ilíada e no que se evoca da Odisseia.
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Na mitologia homérica, que se delineia nas relações entre deuses e entre deuses e heróis, Zeus aparece como “semeador” de discórdia e como aquele que pacientemente busca um acordo em detrimento dos heróis, o que inicia a desintricação das intrigas divinas e heroicas, que será interrogada pelos trágicos.
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No trabalho de mitologização de segundo grau que se realiza na Ilíada, o entrelaçamento da sociedade heroica e da sociedade divina, próprio ao modo de pensamento mítico-mitológico dos relatos de fundação, conduz à destruição da primeira, como se os deuses só fossem sublimes em sua distância abissal, e como se a ruptura do equilíbrio os levasse à “miséria eterna” de que fala Longino.
Há na obra homérica um duplo encontro dos deuses: o encontro sublime, bem-sucedido, que eleva ao ilimitado, e o malencontro, fracassado, onde o herói, hipnotizado pela divindade sob as modalidades da até, do menos ou do daimôn, torna-se um agente cego do destino que o ultrapassa, sendo que os homens, quase sempre anônimos e sem voz, não têm praticamente lugar nas epopeias.husserliana/richir/deuses/herois.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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