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Vida do sujeito

BERNET, Rudolf. La vie du sujet: Recherches sur l'interprétation de Husserl dans la phénoménologie. Paris: Presses Universitaires de France, 1994.

Introdução

A redução fenomenológica e a vida dupla do sujeito

1. A redução fenomenológica reconduz o pensamento a fenômenos cujo aparecimento exige uma transformação específica da atitude subjetiva, despertando aquilo que permanece encoberto na experiência ordinária e revelando um domínio fundamental de doação do qual os fenômenos cotidianos recebem sua significação, embora permaneçam divergências quanto ao conteúdo, à forma e às relações desse aparecimento.

2. A redução faz aparecer, em Husserl, a correlação entre subjetividade constituinte e mundo constituído; em Heidegger, o ser dos entes e o sentido do ser a partir da existência efetiva do Dasein; e, em Jean-Luc Marion, o chamado enquanto tal, abrindo um campo de doação que pretende ultrapassar tanto a constituição transcendental quanto a manifestação ontológica.

3. A investigação daquilo que aparece nem sempre foi acompanhada por uma análise suficiente do próprio aparecer, pois a identificação de toda manifestação com intencionalidade ou transcendência extática obscurece, conforme a crítica de Michel Henry, uma autoafecção originária da vida sem a qual nenhuma afecção pelo mundo poderia ocorrer.

4. A releitura da redução em Husserl e Heidegger permite investigar a vida dupla do sujeito transcendental e do Dasein, simultaneamente vinculados ao mundo e capazes de afastar-se dele, situando a cisão fenomenológica no próprio aparecimento do sujeito, em vez de reduzi-la a uma oposição entre racionalidade filosófica e experiência cotidiana.

5. A duplicidade apresenta-se em Husserl como diferença entre consciência constituinte e espectador imparcial da constituição, enquanto em Heidegger assume a forma da existência imprópria e própria do Dasein, que se manifesta ora absorvido nas ocupações familiares, ora reconduzido a si pelo desmoronamento da significatividade mundana.

6. A atribuição de uma vida dupla ao sujeito não elimina as diferenças fundamentais entre Husserl e Heidegger, pois os modos de manifestação da subjetividade e as relações que simultaneamente unem e separam suas duas formas de existência recebem interpretações distintas.

Husserl

1. A Sexta meditação cartesiana de Eugen Fink oferece um acesso privilegiado à concepção husserliana da redução porque foi elaborada em estreita colaboração com Husserl, que acompanhou sua redação, releu o manuscrito e registrou discordâncias cuja consideração permite distinguir uma exposição autorizada dos pontos efetivamente controversos.

2. A investigação transcendental do método atribui à redução a tarefa de explicitar a diferença entre o ser do mundo e o pré-ser da consciência, prolongando essa diferença para o interior da própria subjetividade e fazendo da separação entre consciência constituinte e espectador fenomenológico um problema ontológico particularmente profundo.

O ser do mundo e o ser da consciência constituinte

1. A redução retira a consciência constituinte de sua identificação empírica com o mundo sem eliminar sua orientação constitutiva para ele, enquanto o espectador fenomenologizante suspende a participação nessa atividade e só pode explicitar o mundo como constituído porque encontra previamente realizada a constituição que torna sua observação possível.

2. Nenhuma dificuldade cotidiana, necessidade de esclarecimento ou ambição científica determina necessariamente a passagem à redução, de modo que o abandono da fixação natural no mundo exige um salto (Sprung) que ultrapassa o eu empírico e inaugura a investigação fenomenológica sem garantias antecipadas de seu resultado.

3. O salto para fora da participação na constituição produz a distinção entre consciência constituinte e espectador não participante (unbeteiligter Zuschauer), permitindo que o mesmo sujeito reconheça a diferença entre seu ser transcendental e o mundo que constitui, anteriormente ocultada pela autoapreensão empírica.

4. A reflexão fenomenológica distingue-se de uma simples objetivação reflexiva porque não converte a consciência constituinte em objeto de outra consciência igualmente constituinte, mas introduz um espectador que acompanha a constituição sem participar de sua realização.

5. A redução instaura uma cisão efetiva na subjetividade e revela a diferença ontológica entre consciência e mundo, ultrapassando o mero despertar reflexivo da atividade constituinte para esclarecer aquilo que a imersão natural e a própria correlação constitutiva tendem a encobrir.

6. A distinção entre ser (Sein) do mundo e pré-ser (Vor-Sein) da consciência permanece insuficientemente esclarecida quanto ao horizonte de sua compreensão, embora a afinidade ou analogia entre ambos não autorize reuni-los sob um conceito geral e indiferenciado de ser.

7. A ênfase de Fink no abismo interno da subjetividade encontra resistência nas observações de Husserl, que preservam a dualidade sem admitir necessariamente um desinteresse absoluto pelo mundo e acrescentam a importância de distinguir o ser das coisas intramundanas do ser do próprio mundo.

O ser da consciência constituinte e o ser do espectador fenomenológico

1. O espectador fenomenológico produz-se na epoché universal e revela uma consciência constituinte que já operava anteriormente sem reconhecer sua própria atividade, fazendo desaparecer sua autoapreensão como sujeito mundano e explicitando a diferença entre seu pré-ser e o mundo constituído.

2. O reconhecimento de si da consciência constituinte depende da mediação de outro modo de si mesma, o espectador fenomenológico, enquanto este dispõe de uma consciência imediata de sua atividade e pode refletir reiteradamente sobre ela sem introduzir uma heterogeneidade semelhante àquela que o separa da consciência constituinte.

3. A oposição entre os dois modos de vida transcendental decorre sobretudo de suas orientações distintas, pois a consciência constituinte tende à realização do mundo, enquanto o espectador investiga a origem dessa realização, sendo mais preciso falar de transformação do interesse pelo mundo do que de sua eliminação completa.

4. A suspensão da participação espontânea nos assuntos mundanos permite esclarecer a dependência do mundo em relação à consciência, mas não interrompe a tendência constituinte nem impede que essa consciência volte a mergulhar no mundo e no desconhecimento de si associado a essa imersão.

5. A diferença de interesses corresponde a atividades igualmente distintas, pois a consciência constituinte organiza e enriquece um mundo compartilhado, enquanto o espectador realiza solitariamente a análise fenomenológica desse trabalho contínuo.

6. A redução afasta o sujeito fenomenologizante da referência comunitária aos entes acessíveis a todos e o reconduz à solidão de sua existência transcendental egológica, tornando o conhecimento fenomenológico de si uma tarefa que não se confunde com a participação no mundo comum.

7. Os outros sujeitos integram uma comunidade transcendental de constituição, mas essa colaboração não constitui automaticamente uma comunidade de autoconhecimento transcendental, pois a realização compartilhada do mundo e a explicitação reflexiva dessa realização pertencem a planos diferentes.

8. O solipsismo husserliano diz respeito ao reconhecimento fenomenológico da constituição, cuja evidência se realiza individualmente, enquanto a própria constituição permanece comunitária e produz um mundo de ser intersubjetivamente comum.

9. A unidade da vida transcendental consiste em uma identidade atravessada pela diferença, pois consciência constituinte e espectador dependem reciprocamente de sua coexistência, fazendo o sujeito permanecer imerso no mundo ao mesmo tempo que dele emerge para conhecer-se, sem jamais apresentar simultaneamente todas as faces de seu ser.

Heidegger

1. A acusação de abandono da redução, reiterada por Husserl e por numerosos intérpretes, é contrariada pelo curso heideggeriano de 1927, no qual a redução fenomenológica aparece explicitamente como componente fundamental do método e recebe uma definição crítica em relação à formulação husserliana.

2. A redução reconduz, em Husserl, a atitude natural à vida transcendental e às vivências nas quais os objetos se constituem como correlatos da consciência, enquanto em Heidegger conduz da apreensão dos entes à compreensão de seu ser e de seu modo de desvelamento (Unverborgenheit).

3. A distância entre as duas formulações diminui quando se reconhece que a explicitação husserliana da correlação transcendental também revela o ser da consciência constituinte, o ser do mundo constituído e sua diferença, tornando inadequado afirmar que a questão ontológica da consciência esteja simplesmente ausente dessa investigação.

4. A ocupação circunspecta do Dasein com os utensílios encobre habitualmente tanto sua própria existência quanto o mundo familiar que a sustenta, mas uma perturbação da vida cotidiana pode revelar a relação entre o ser intramundano dos utensílios e o ser-no-mundo, sem exigir a linguagem da constituição transcendental.

5. A redução husserliana ultrapassa o reconhecimento da consciência constituinte ao introduzir um espectador que não existia como tal na vida natural, inaugurando uma modalidade de subjetividade consciente de sua própria atividade e distinta da orientação espontânea para o mundo.

6. A angústia desempenha em Heidegger uma função comparável a uma segunda redução, suspendendo a evidência das ocupações habituais e revelando a divisão entre fuga para os assuntos cotidianos e cuidado com o próprio poder-ser, sem eliminar o pertencimento constitutivo do Dasein ao mundo.

7. A proximidade dos resultados ontológicos não suprime uma diferença decisiva quanto ao aparecer, pois Husserl e Fink mantêm a apresentação do ser diante de uma consciência intencional, enquanto a transcendência do Dasein inaugura uma investigação distinta da fenomenalidade que não se reduz à substituição terminológica da intencionalidade.

O ser dos entes à mão e o ser do Dasein ocupado — existência imprópria

1. A vida cotidiana descrita por Heidegger aproxima-se da atitude natural husserliana por sua orientação prática para coisas dotadas de sentido, entre as quais os sujeitos interagem, colaboram e entram em conflito em função de um mundo da vida (Lebenswelt) compartilhado ou experimentado como estranho.

2. A distinção entre o ente à mão (zuhanden) e o ente simplesmente dado (vorhanden) desenvolve possibilidades já presentes em Husserl, mas acentua a prioridade prática da manualidade (Zuhandenheit) e compreende o mundo circundante (Umwelt) como condição das remissões entre coisas, irredutível a uma coleção de objetos.

3. A originalidade heideggeriana não se concentra exclusivamente na descrição da vida natural nem na diferenciação entre o ser das coisas e o ser do sujeito, pois a análise husserliana da correlação constitutiva também permite reconhecer tanto sua conexão quanto sua diferença.

4. A diferença decisiva situa-se no acesso fenomenológico ao ser, já que o salto husserliano envolve uma iniciativa de esclarecimento, enquanto as duas reduções heideggerianas resultam de acontecimentos inesperados que se impõem ao Dasein e fazem aparecer o ser sobre um fundo de ausência.

5. A primeira redução manifesta-se na perturbação das remissões dos utensílios, na perda de sua localização habitual e na falta dos outros, fazendo a manualidade, a espacialidade e o ser-com (Mitsein) tornarem-se acessíveis precisamente quando a continuidade ordinária de seu funcionamento se interrompe.

6. O sentido prático de um utensílio depende de uma totalidade de remissões e da familiaridade prévia com a significatividade (Bedeutsamkeit) do mundo, cujo funcionamento eficiente exige que suas condições permaneçam discretas, até que uma interrupção suspenda o curso natural das ocupações e as torne perceptíveis.

7. A inutilização, a falta ou a obstrução produzidas por um utensílio interrompem a circunspecção e revelam o mundo circundante, mostrando que a manifestação do ser exige uma distância em relação ao domínio prático do sujeito e uma espécie de atopia na qual as coisas recuperam liberdade diante de sua apropriação utilitária.

8. O signo constitui um utensílio excepcional porque sua função consiste em mostrar as próprias remissões que sustentam o uso dos demais utensílios, oferecendo um fio condutor ontológico para compreender a manualidade em vez de simplesmente prolongar o encadeamento das tarefas práticas.

9. O indicador de direção de um automóvel torna visível uma situação compartilhada de circulação e seus regulamentos, distinguindo-se de uma peça mecânica comum porque orienta comportamentos mediante a manifestação de relações entre veículos, condutores, ciclistas e pedestres.

10. O signo mostra ao destacar-se do uso ordinário e ao permitir que sua presença material seja ultrapassada em direção ao que indica, exigindo um Dasein capaz de compreender a ausência e de reconhecer, para além do objeto visível, a estrutura de remissões do mundo.

11. A falta de um utensílio em seu lugar habitual torna explícita a espacialidade previamente compreendida sem atenção, interrompendo o trabalho e revelando que a orientação cotidiana depende de uma familiaridade com regiões e relações de localização que normalmente dispensa a procura deliberada.

12. A familiaridade discreta com uma região possui prioridade sobre a localização isolada dos utensílios, mas costuma manifestar-se expressamente quando a ocupação encontra uma deficiência e aquilo que deveria estar em determinado lugar deixa de ser encontrado.

13. A organização espacial segundo des-afastamento (Entfernung) e direcionamento (Ausrichtung) não transforma o mundo em propriedade de um sujeito isolado, pois a ocupação já se realiza em um mundo comum dominado pelo impessoal (das Man), cuja normatividade persiste mesmo quando o Dasein está fisicamente sozinho.

14. O ser-com determina a existência mesmo na ausência factual de outras pessoas, de modo que a solidão constitui uma modalidade deficiente dessa estrutura e só pode ocorrer porque a relação com os outros pertence originariamente ao ser-no-mundo.

15. A ausência e a perturbação oferecem revelações ontológicas que o Dasein ocupado não procurava e preferiria evitar, pois a explicitação dos utensílios, do mundo e do ser-com ocorre ao preço da perda de utilizabilidade e da interrupção da eficácia cotidiana.

O ser do mundo enquanto mundo e o ser-no-mundo do Dasein — existência própria

1. A angústia realiza uma segunda redução que ultrapassa a perturbação de tarefas particulares e revela a ocupação cotidiana como fuga diante do próprio ser, fazendo ruir a familiaridade do mundo e reconduzindo o Dasein a um cuidado de si que aprofunda os ensinamentos ontológicos da primeira redução.

2. A ausência experimentada na angústia já não corresponde à falta de um utensílio, mas ao desaparecimento da própria manualidade e ao colapso da significatividade do mundo familiar, produzindo uma experiência radical de insignificância na qual os entes deixam de oferecer o apoio habitual à existência.

3. O encontro com a facticidade e com o ser-para-a-morte (Sein-zum-Tode) esvazia a absorção cotidiana e rompe a segurança das identificações impessoais, expondo o Dasein à singularidade de seu próprio ser e à convocação silenciosa da consciência (Gewissen) para assumir o questionamento ontológico.

4. A solidão da angústia não transforma o Dasein em objeto de uma observação imparcial, mas realiza uma autoafecção na disposição afetiva (Befindlichkeit), pela qual ele experimenta sua singularidade insubstituível sem deixar de ser-com os outros e ser-no-mundo, cuja estrutura se anuncia justamente através da perda da familiaridade.

5. O chamado da consciência (Ruf des Gewissens) manifesta de modo especialmente claro a vida dupla do Dasein porque provém de si e simultaneamente se impõe a si, reconduzindo a existência dispersa no impessoal à apropriação de suas possibilidades e fazendo a conversão ocorrer como relação interna entre modos distintos do mesmo ser.

6. A existência própria permanece uma modificação da existência imprópria, sem constituir um estilo de vida inteiramente autônomo, de maneira que a resolução não elimina o poder do impessoal e o Dasein continua originariamente situado tanto na verdade quanto na não verdade.

7. A redução revela uma existência constitutivamente dividida, na qual o cuidado de si e a ocupação com o mundo impedem a coincidência plena consigo mesmo, tornando impossível isolar um Dasein exclusivamente próprio ou um sujeito transcendental puramente espectador e, consequentemente, apresentar um fenômeno inteiramente puro.

8. A diferença entre Husserl e Heidegger torna-se decisiva na concepção do aparecer, pois a exigência husserliana de doação em pessoa (Selbstgegebenheit) conserva a apresentação do ser diante de um olhar intencional, enquanto o ser do Dasein não se oferece integralmente como objeto e exige a exploração de uma profundidade enigmática.

9. A profundidade do fenômeno ontológico envolve tanto a impossibilidade de controlar sua manifestação, recebida afetivamente na existência, quanto a inseparabilidade entre revelação e encobrimento, fazendo a não verdade integrar o aparecimento da verdade e exigindo que a fenomenologia esclareça o jogo entre o aparente e o inaparente.

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