estudos:schurmann:politico-1982
POLÍTICO (1982)
SCHÜRMANN, Reiner. Le principe d’anarchie. Heidegger et la question de l’agir. Paris: Seuil, 1982.
-
A descrição das épocas pela constelação manifesta das coisas, ações e palavras aproxima-se do político de uma maneira diferente da dos antigos, concebendo-o como o sítio onde a força de um princípio reúne, por um tempo e segundo uma ordem passageira, tudo o que é presente.
-
O político é definido como o sítio (der Ort) onde coisas, ações e palavras podem convir.
-
A noção heideggeriana de sítio remete primitivamente à ponta da lança onde tudo se reúne.
-
No político, um princípio exerce sua força para reunir, temporariamente e em uma ordem específica, a totalidade do que é presente.
-
Essa descrição das épocas dá um passo atrás em relação aos princípios que nelas reinam, retrocedendo do presente para a presença e respondendo à questão “Onde?” as palavras, ações e coisas se alojam no desvelamento da presença, em vez de responder à questão “Por quê?”.
-
Os princípios (archai) respondem à questão “Por quê?”, fornecendo a razão para o que acontece em uma ordem epocal.
-
O “passo atrás” (Schritt zurück) heideggeriano retrocede do ente (o presente) para o ser (a presença).
-
O sítio responde à questão “Onde?” as palavras, ações e coisas se alojam no desvelamento (aletheia) da presença.
-
A resposta situa o político como um tipo particular de desvelamento, no qual a questão de um primeiro ou de um fim que comande a práxis não se coloca mais.
-
Para a tradição oriunda da filosofia ática, a reflexão sobre o político se esforçava para traduzir uma ordem anistórica em organização pública, tomando de empréstimo as categorias da análise dos corpos sensíveis (ousiologia) e transpondo-as do discurso especulativo para o discurso prático, com base no esquema da relação a um primeiro (pros hen).
-
A reflexão política tradicional buscava traduzir uma ordem anistórica e cognoscível em si mesma para a organização pública, servindo-lhe como modelo a priori e critério de legitimação a posteriori.
-
As categorias para compreender o corpo político eram transpostas da análise dos corpos sensíveis (presente na Física de Aristóteles) do discurso especulativo (ontológico) para o discurso prático.
-
A filosofia especulativa servia de padrão (protetor e modelo) para a filosofia prática, fornecendo-lhe a referência a um primeiro (arche).
-
Assim como na conhecimento do sensível é necessário um primeiro para referir o múltiplo e verificá-lo, na ação é necessário um primeiro que dê sentido e direção ao agir.
-
A analogia aristotélica do exército em debandada ilustra como o comando (arche) se impõe, assim como a substância, enquanto arche, impõe sua unidade aos acidentes.
-
Essa identidade formal, baseada na relação “para um” (pros hen), mantém-se da filosofia especulativa à filosofia prática até a teoria política contemporânea, mesmo quando a natureza do primeiro (homem, coletividade, bem comum, dever) varia.
-
A desconstrução heideggeriana da ontologia interrompe essas transposições, pois, uma vez que cada domínio era concebido segundo o esquema da relação a um primeiro, as categorias do político não eram sui generis, mas sim emprestadas da ousiologia.
-
A análise do domínio político, tal como a do devir ou da substância sensível, não podia prescindir do recurso a um princípio (de legitimação, de movimento ou de unidade).
-
As categorias do político, por serem concebidas segundo o esquema da relação a um primeiro (pros hen), são emprestadas da ousiologia (estudo da substância) e não são próprias (sui generis) ao domínio político.
-
A desconstrução heideggeriana da ontologia invalida a possibilidade de tais transposições categóricas da ousiologia para o político.
-
estudos/schurmann/politico-1982.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
