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Estado interpretativo

(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. 1. ed ed. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:22-24)

1. O problema surge do fato de o Dasein não apenas possuir uma compreensão pré-ontológica de seu ser, mas ter também, juntamente com ela, uma interpretação dessa mesma compreensão, interpretação essa em que o Dasein desde logo se encontra instalado, constituindo um estado interpretativo, uma Ausgelegtheit.

2. A interpretação será tratada no parágrafo 32 de Ser e tempo, um dos parágrafos centrais de toda a obra, em que se estuda a aberturidade ((Erschlossenheit) do Dasein, aberturidade essa que consiste precisamente na condição que faz do Dasein um ente aberto: aberto a si mesmo, aberto ao mundo e aos entes intramundanos, aberto aos outros Dasein e aberto, sobretudo, ao ser enquanto tal, estando essa aberturidade constituída basicamente pela disposição afetiva e pelo compreender, articulados ambos por meio do discurso.

3. O compreender não é, em Ser e tempo, algo pura e exclusivamente intelectual, não se tratando de um ato particular da inteligência, mas antes de um modo de ser, aquele que consiste na projeção do ser do Dasein em direção às suas possibilidades de ser.

  • Compreender significa então uma certa habilidade dentro de uma práxis, tratando-se de um entender-se a respeito do ser, de ser entendido ou, se se quiser, perito em ser, isto é, perito em ser o próprio ser, não sendo esse ser o ser que já se tem num radical haver-sido, mas o ser ao qual se marcha existindo.
  • Esse ser que está adiante e ao qual se vai é o ser do Dasein enquanto poder-ser, enquanto possibilidades, havendo-se o Dasein, no compreender, com suas possibilidades, isto é, com seu ser possível.

4. Lançando-se em direção a seu ser possível, isto é, futuro, o Dasein abre-se a si mesmo como futuro e abre-se às coisas do mundo como possibilidades para ser, abrindo-se também aos demais e, sobretudo, ao ser enquanto tal, que é o possibilitante de toda possibilidade, significando dizer que o Dasein tem uma compreensão pré-ontológica de seu ser e do ser, no fundo, que o Dasein abre seu próprio ser como aquilo que lhe vai a ele em seu ser, abrindo-o, por conseguinte, em sua dimensão prática.

5. Se não houvesse mais que compreensão, concatenada certamente com a disposição afetiva que nos abre ao ser que já somos nesse radical passado constitutivo da existência, não haveria, de certo modo, maior problema, radicando-se porém o problema em que essa compreensão não se basta a si mesma, exigindo um desenvolvimento ou desdobramento em que se explicita a si mesma em sua relação com os diferentes entes e, entre outros, com o ente que é o próprio Dasein, sendo essa explicitação do compreendido no compreender a Auslegung.

  • Auslegen significa, literalmente, ex-por, detalhar, explicitar, ex-pondo a interpretação o compreendido e, ao mesmo tempo, apropriando-se dele.
  • Na compreensão, perde-se, por assim dizer, nas coisas e no ser, submergindo-se neles, saindo-se de si mesmo, ao passo que, na interpretação, recupera-se para si aquilo que se havia encontrado na saída para fora que é o projetar das possibilidades, podendo-se dizer que nos apoderamos disso.
  • A interpretação toma cada um dos entes particulares e o compreende a partir da totalidade aberta pelo compreender, isto é, compreende-o como esta ou aquela coisa, em função de todas as demais, não se tratando ainda de uma teoria, mas, desde logo, de uma interpretação em ação, como quando se interpreta algo como uma cadeira, sentando-se nela.

6. O problema radica em que a interpretação não é algo que o Dasein necessariamente faz por si mesmo, mas algo em que se encontra, desde logo, já instalado, sendo o que Heidegger chama de estado interpretativo, Ausgelegtheit, literalmente o encontrar-se com que já se interpretou, começando a interpretação das coisas e de si mesmo por lhe ser dada já feita ao Dasein.

  • O Dasein poderia, sem dúvida, levá-la a cabo por si mesmo, mas, em razão de um modo seu de ser, que Heidegger chamará de queda (Verfallen), o Dasein propende imediata e regularmente a absorver-se na interpretação já realizada pelo sujeito impessoal da existência que é o se ou o impessoal (das Man).
  • No impessoal, eu sou eu mesmo, mas o sou a partir dos outros, e esses outros não são estes ou aqueles, mas são todos e não é nenhum em particular, isto é, não é ninguém, encontrando-me eu mesmo entre esses outros.

7. Esse estado interpretativo em que o Dasein imediata e regularmente se encontra interpreta o próprio ser do Dasein não a partir de possibilidades que o próprio Dasein projetasse, mas a partir das possibilidades projetadas pelo impessoal, possibilidades essas que tomam o Dasein não naquilo que é mais peculiar de seu ser, isto é, não em seu ser mais próprio e intransferível, mas o tomam a partir das coisas com as quais o Dasein tem de haver-se, interpretando o Dasein seu próprio ser a partir do ser dos entes intramundanos.

8. O trato com os entes intramundanos absorve o Dasein de tal maneira que este se perde entre as coisas que tem à mão e não percebe, em sua interpretação, o ser que ele mesmo é, sabendo sem dúvida o Dasein que não é um ente intramundano, reconhecendo-se como uma essência peculiar entre todas as demais.

9. O modo de ser dessa essência não é, para o Dasein, radicalmente diferente do ser das coisas com as quais constantemente se encontra, isto é, toma-se a si mesmo como um ente Vorhandenes, como um ente cujo ser consiste pura e simplesmente em estar-aí e em continuar estando-o.

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