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Coisas

(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. 1. ed ed. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:156-158)

1. A intelecção que atualiza a realidade como um prius em relação a si mesma não constitui necessariamente a forma mais originária de intelecção; essa maneira de enfocar a intelecção é, ela própria, uma forma derivada.

2. A sensibilidade no homem é ordinariamente sensibilidade intelectiva, e a inteligência é inteligência senciente; contudo, no domínio imediato da vida, anterior a toda reflexão especulativa, as coisas não se dão como um prius à sua intelecção, mas simplesmente funcionam para o homem sendo, vistas à luz do ser.

  • O sentir humano não é puro sentir: o sentir é intelectivo e a intelecção primária e fundamental é intelecção senciente.
  • O exemplo dos óculos ilustra essa tese: enquanto usados sem reflexão, os óculos não se apresentam como coisa real, mas simplesmente “oculam”, permitindo ver através deles, esquecidos e por isso mesmo inteligidos em sua forma mais originária.
  • A prova desse conhecimento imediato está em que, ao refletir sobre os óculos e sua presumida realidade, é preciso remeter-se àquilo que já eram antes de toda reflexão, sem que haja ainda nenhum prius à intelecção, apenas presença intelectiva à luz do ser.
  • O ser dos óculos não se apresenta sequer como ser do óculo; antes, o óculo é (west), sem mais, no seu uso, podendo apenas posteriormente ser pensado como ser do objeto.

3. Para que o objeto funcione intelectivamente como coisa sentida, seria necessário previamente, com prioridade formal e não temporal, que ele se mostrasse como coisa real dotada de notas ou propriedades sobre as quais se apoia seu ser como possibilidade de vida; permanece em aberto se os entes começam de fato por se mostrar como coisa real e se o próprio ser (Sein selbst) coincide com esse ser das coisas ou é algo derivado de um conhecimento primário do ser mesmo, anterior ao conhecimento da realidade.

4. Há uma certa prioridade do por si mesmo das coisas sobre o ser que elas possuem, no que se concorda com Zubiri; discute-se, porém, que as coisas comecem por aparecer dessa maneira: elas começam antes por funcionar na existência humana, sendo esse funcionar precisamente o ser, que se apresenta ocultando-se, de modo que a coisa funciona como esta determinada coisa apenas à luz de seu próprio funcionar, sendo o ser, mesmo ocultando-se, o próprio des-velador e a des-velação de tudo o que é des-velado.

5. As coisas são primeiramente, para a intelecção, coisas sentidas, e seu ter sentido é justamente o ser; somente depois é possível enfrentá-las como algo que já é por si mesmo antes de sua intelecção, num antes que constitui uma forma do tempo originário em que o ser faz de ser (west), de modo que as coisas são coisas reais dentro de uma modificação do ser, sendo o ser mesmo anterior à realidade das coisas e fundamento dela.

6. O deixar que as coisas sejam não se refere a um comportamento especial do homem diante das coisas já reais, mas a um comportamento fundamental do Dasein enquanto tal, que é o próprio ser do Dasein e graças ao qual as coisas permanecem sendo para o homem, comportamento fundamental este identificado como o deixar-ser originário (sein lassen).

  • No uso ordinário, fala-se de um deixar-ser quando, por exemplo, alguém se abstém de um empreendimento antes proposto; deixar-ser algo significa não mais tocá-lo nem ocupar-se dele, no sentido negativo de prescindir, renunciar, indiferença e até abandono.
  • A expressão necessária aqui, deixar-ser o ente, não pensa em abandono nem em indiferença, mas justamente no contrário: deixar-ser é o comprometer-se com o ente, não como mera exploração, guarda, cuidado ou planejamento do ente que vem ao encontro ou que se busca, mas como comprometer-se com o aberto e com sua abertura, na qual todo ente já se encontra, aberto que nos começos do pensar ocidental foi pensado como τά άληθεα, o não-oculto.
  • O comprometer-se com o des-ocultamento do ente não se perde nesse des-ocultamento, mas se desdobra como um retroceder ante o ente, para que este se manifeste no que é e como é, e para que o assimilar representativo tome dele a direção e a medida; assim, o deixar-ser se ex-põe ao ente como ente e transpõe seu comportamento ao aberto.
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