User Tools

Site Tools


estudos:rivera:cst1:start

Comentários a Ser e Tempo I

JRCST1

Com a publicação deste Comentário à Introdução de Ser e Tempo, dá-se início a uma obra que pretende abranger a totalidade desse livro fundamental do pensamento heideggeriano. Este primeiro volume refere-se apenas à Introdução. Um segundo volume abrangerá a Primeira Seção e o terceiro volume, a Segunda Seção. O trabalho que agora iniciamos complementa e enriquece a tradução de *Sein und Zeit*, realizada por Jorge Eduardo Rivera, publicada em primeira edição em 1997 pela Editorial Universitaria de Santiago do Chile e posteriormente retomada pela Editorial Trotta de Madri em várias edições.

O leitor se perguntará: para que um comentário? Todas as obras filosóficas importantes convidam a isso, pois nelas há muito mais do que se percebe à primeira vista. Além disso, nessas obras geralmente surgem problemas de compreensão que tornam sua leitura árdua. Para muitos leitores, *Ser e Tempo* é uma obra difícil de ler, não apenas por seu estilo, próprio da mentalidade de outra época, mas também pela complexidade do pensamento nela desenvolvido.

Mas este comentário não pretende apenas esclarecer as dificuldades de sua leitura, mas também desenvolver certas ideias que se encontram presentes de forma embrionária na obra. Todos os grandes autores tiveram quem os estudasse e interpretasse. O caso talvez mais notável seja o de São Tomás de Aquino, cujos comentaristas se movem nas mais elevadas esferas do pensamento.

O trabalho em torno de uma obra filosófica consiste em esclarecer as dificuldades que nela encontramos e em mostrar a estrutura que a sustenta e a articula. Além disso, pretende-se tornar visível essa estrutura, explicitando-a e revelando, dessa forma, o tema e a razão de ser da obra.

Todo leitor se percebe — perceba ou não — como um comentarista da obra que lê. Nenhum comentário pode pretender ser exaustivo e completo. É sempre possível recomeçar e encontrar aspectos que, em uma primeira leitura, ficaram na sombra. Este estudo pretende ser um convite ao leitor para que ele continue refletindo sobre a obra.

“Ser e Tempo” é um livro clássico, assim como o foram os grandes diálogos de Platão ou a “Metafísica” e a “Ética” de Aristóteles. O que caracteriza uma obra clássica é o fato de que outras obras filosóficas de menor envergadura giram em torno dela. As obras clássicas são algo como os pontos cardeais do pensamento filosófico. Elas ordenam toda a história da filosofia e provocam suas oscilações, suas mudanças bruscas e seus momentos de plenitude, de vida e de luz.

O comentário que aqui empreendemos é o resultado de um grande e contínuo esforço para compreender, da forma mais completa possível, esta obra extraordinária de Martin Heidegger. Ao lê-la, perguntamo-nos de onde Heidegger tirou a inspiração para escrever uma obra tão perfeita quanto Ser e Tempo. Os autores deste livro devem confessar que, muitas vezes, ao longo de suas pesquisas, ficaram encantados com a sutileza, a beleza e a potência do pensamento aqui desdobrado. Esse mesmo entusiasmo é a razão do que agora empreendemos: gostaríamos de colocar em palavras os inúmeros momentos de admiração e espanto despertados por esta obra genial de Heidegger.

Semana após semana, nos reunimos para trabalhar juntos e trocar ideias. A elaboração deste texto, que agora começa a ver a luz, foi um trabalho conjunto de enorme importância para nós mesmos. Ao longo desse trabalho, pudemos descobrir a riqueza filosófica especial que existe no diálogo em torno de uma grande obra. Uma coisa é o que o mestre faz com seus discípulos e outra é a troca de ideias entre dois filósofos em torno de uma obra tão importante quanto *Ser e Tempo*.

Normalmente, os livros são escritos a partir da solidão do pensamento individual. Este livro, ao contrário, que se inicia com este prólogo, foi uma obra realizada em diálogo constante e permanente. Sem esse diálogo, muitas das ideias que aqui aparecem não teriam sido formuladas.

Acontece com as obras realizadas em conjunto exatamente o mesmo que acontece com o encontro entre dois seres humanos: o que era incompleto, inacabado, mero fragmento de algo invisível, mas sempre pressentido, torna-se realidade plena por meio da troca de ideias com os outros. Nesta fase da vida, pudemos aprender por meio da experiência o que antes talvez compreendêssemos apenas teoricamente: que a verdade efetivamente se revela no encontro com o outro. Essa constatação vital nos confirma, ao mesmo tempo, o fato de que nossa existência é um processo de aprendizado constante por meio das inúmeras experiências que vivemos.

Gostaríamos de expressar aqui nosso especial agradecimento ao Decano da Faculdade de Filosofia, Professor Luis Flores Hernández, e, por seu intermédio, à Pontifícia Universidade Católica do Chile, pelo imenso apoio concedido a esta obra: a estada de pesquisa concedida a Jorge Eduardo Rivera em Friburgo de Brisgovia, e a contratação da professora María Teresa Stuven pelo Instituto de Filosofia da PUC. Gostaríamos também de agradecer o valioso patrocínio da Edições Universidade Católica do Chile para a sua publicação.

estudos/rivera/cst1/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1