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Semântica

RICOEUR, Paul. La métaphore vive. Paris: Seuil, 1975.

  • A definição nominal da metáfora, que a identifica à transposição de um nome estrangeiro para outra coisa, permite identificá-la e classificá-la, mas uma definição real deve mostrar como ela é engendrada, o que exige considerar o enunciado como o meio contextual no qual a transposição de sentido ocorre.
  • Uma teoria do enunciado metafórico é, portanto, uma teoria da produção do sentido metafórico, e a definição nominal não pode ser abolida pela definição real, pois o nome permanece o portador do efeito de sentido metafórico, mesmo que requeira o quadro da frase.
  • O nome, como foco da metáfora, encarna a identidade semântica que é afetada, mas sua função é difícil de avaliar, sendo necessário ajourar a tentativa de coordenar uma teoria da substituição e uma teoria da interação.
  • A hipótese de trabalho subjacente à noção de enunciado metafórico é que a semântica do discurso é irredutível à semiologia das entidades lexicais, e a distinção entre o semântico e o semiótico na obra de Benveniste serve de guia.
  • A linguística da língua, ao tender a fazer da fala um simples resíduo, é contraposta pela linguística do discurso, que toma a frase como unidade e reconhece que o sentido da frase não se reduz à soma dos sentidos das partes que a compõem.
  • A frase, unidade do discurso, é uma criação indefinida que não constitui uma classe de unidades distintivas, e o nível sêmantico, ao contrário do nível semiótico, lida com a relação do signo com as coisas denotadas e com a transcendência da linguagem em relação a si mesma.
  • A distinção entre o semiótico e o semântico funda e engendra outras distinções, como as que opõem o evento de discurso ao sentido, a função identificante à função predicativa, o ato locucionário ao ato ilocucionário, e o sentido à referência.
  • A referência é um fenômeno dialético que se desdobra em referência à realidade e referência ao locutor, sendo esta última assegurada por procedimentos como os pronomes pessoais e os tempos verbais, que são essencialmente funções do discurso.
  • A distinção do semiótico e do semântico implica uma nova repartição do paradigmático e do sintagmático, de modo que a substituição, como lei paradigmática, é colocada do lado do semiótico, enquanto a metáfora tratada em discurso é uma espécie de sintagma.
  • A filosofia da retórica de I. A. Richards, baseada em uma definição de retórica como estudo da compreensão e da incompreensão verbais, rompe com a taxinomia e com a distinção entre sentido próprio e figurado, estabelecendo o primado do contexto.
  • O “teorema contextual da significação” de Richards afirma que os nomes não têm significação própria, pois o sentido da frase não resulta do dos nomes, mas o sentido destes procede do desmembramento da frase e da isolação de uma de suas partes.
  • A metáfora, para Richards, é o princípio omnipresente a toda ação livre da linguagem, mantendo duas ideias de coisas diferentes simultaneamente ativas em uma única expressão, cuja significação é a resultante de sua interação.
  • Richards propõe chamar de “teor” a ideia subjacente e de “veículo” a ideia sob o signo da qual a primeira é apreendida, sendo a metáfora o todo constituído por essas duas metades, cuja interação engendra o sentido.
  • A teoria de Max Black, que se propõe a elaborar a “gramática lógica” da metáfora, define a metáfora como uma frase em que alguns nomes são empregados metaforicamente, enquanto outros não, chamando de “foco” o nome metafórico e de “quadro” o resto da frase.
  • Black opõe a teoria da interação às teorias clássicas da substituição e da comparação, argumentando que a metáfora de interação, por ser insubstituível, é também intraduzível sem perda de conteúdo cognitivo, sendo, portanto, portadora de informação.
  • A interação, segundo Black, opera pela evocação do “sistema de lugares-comuns associados” ao foco, que filtra e organiza a visão do sujeito principal, conferindo à metáfora um poder de compreensão que nenhuma paráfrase pode igualar.
  • A explicação de Black, no entanto, encontra dificuldades ao lidar com metáforas de invenção que estabelecem novas configurações de implicações, e sua análise, ao recorrer a um sistema associado de lugares-comuns, parece limitar-se às metáforas triviais.
  • A teoria de Monroe Beardsley, situada no campo da crítica literária, define a obra literária como um discurso que comporta uma parte importante de significações implícitas, e a metáfora é tomada como um modelo reduzido para o problema da explicação.
  • Beardsley distingue a significação primária, que a frase estabelece explicitamente, da significação secundária, que ela sugere, e a metáfora é definida como uma atribuição auto-contraditória que libera a significação secundária.
  • A metáfora, ao apresentar uma incompatibilidade lógica no nível da significação primária, força o leitor a extrair do feixe de conotações do modificador aquelas que podem ser atribuídas ao sujeito, criando uma “significação emergente”.
  • A explicação da metáfora serve de modelo para a explicação da obra de arte como um todo, sendo regida por dois princípios: o de congruência, que seleciona as conotações convenientes, e o de plenitude, que atribui ao poema tudo o que ele pode significar.
  • A teoria de Beardsley, ao dar à absurdidade lógica um papel decisivo, acentua o caráter de invenção e novação do enunciado metafórico, constituindo a metáfora como uma instância de discurso por excelência.
  • Tanto a teoria de Black quanto a de Beardsley, ao recorrerem a um sistema de lugares-comuns ou a uma gama potencial de conotações, parecem não dar conta plenamente da metáfora de invenção, que cria uma significação nova e não deriva de um estoque prévio de significados.
  • A metáfora viva, como evento semântico que ocorre na interseção de vários campos semânticos, é uma criação momentânea da linguagem que, embora identificável, não tem status no código estabelecido, sendo a construção do leitor que a realiza.
  • A ação contextual da metáfora viva satisfaz os caracteres do discurso, pois ela é ao mesmo tempo um evento e um sentido, uma inovação semântica que, se adotada pela comunidade linguística, pode tornar-se uma metáfora morta e integrar a polissemia da língua.
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