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Potência, vontade e substrução idealista no conceito de Deus (PM §5)

Ensaio de Marc Richir em SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Philosophie de la mythologie. Tradução: Alain Pernet. Grenoble: J. Millon, 1994.

  • Deus é determinado como potência de existir enquanto poder-ser incondicionado
    • Deus é caracterizado como Macht, isto é, potência, e como Macht und Gewalt, isto é, potência e poder límpidos de existir, o que equivale a vontade, ou ainda desejo
    • Essa vontade é compreendida como desejo de tomada sobre aquilo que lhe sobrevém inesperadamente como ser, entendido aqui como possibilidade
    • O primeiro conteúdo dessa vontade é o poder de assumir a contingência do ser, ainda inchoativamente confundida com a Stimmung fenomenológica
  • A potência de existir é a condição para a emancipação da apercepção de língua capturada por seu objeto
    • A unicidade ainda apenas negativa da apercepção de língua, por estar capturada por seu objeto, só pode emancipar-se mediante o poder de assumir a contingência do ser
    • Essa emancipação permite que a apercepção não opere apenas como conceito, mas como conceito de todos os conceitos
    • Nessa medida, a apercepção passa a fornecer aos nomes da língua sua referência ao ente
  • Na construção especulativa do monoteísmo, o risco de retombée na psicose transcendentale recebe o nome de panteísmo
    • O mesmo risco encontrado na fenomenologia, descrito como retombée no estado de psicose transcendentale da apercepção, reaparece agora no nível especulativo
    • Esse risco é nomeado por Schelling como panteísmo, e a crítica do panteísmo esclarece o que se deve entender mais concretamente por psicose transcendentale
    • Mantém-se o registro dos conceitos, em particular o da apercepção de língua ligada ao nome Deus, sem deslocamento para um plano extraconceitual
  • A indissociabilidade entre Étant même, poder-ser imediato, potência e vontade conduz ao fechamento autorreferencial da vontade
    • Se o Étant même é indissociável do poder-ser imediato e por si, e este é indissociável da potência terrível de existir, então essa potência coincide com vontade
    • Caso não haja nada que possa ser querido, isto é, nenhum ser e nenhuma possibilidade como objeto da vontade, a vontade só pode querer a si mesma
    • Essa auto-vontade produz um inflamar-se em si mesma, no qual o ser do Étant même se recodifica imediatamente como vontade, isto é, como vontade da vontade
    • A concentração extrema do conceito faz com que o Étant même seja apenas porque se quer como Étant même, reiterando-se conceitualmente em sua própria vontade
  • A passagem imediata de potentia a actus dissolve a potência e produz um ente necessário, sem vontade, submetido ao ser
    • Schelling descreve que a potência, ao tornar-se ente e elevar-se imediatamente de potentia a actus, já não é potência nem vontade
    • O resultado é o ente destituído de vontade e, por isso, necessário, uma potência posta fora de si, saída de si
    • Esse ente é qualificado como ente atingido pelo ser, prisioneiro do ser, portanto ente submetido ao ser, existentiae obnoxium
    • O contraste é explicitado pelo deslizamento do sentido de Étant: antes, o Étant même era pensado como livre do ser e acima do ser; agora, é o ente capturado pelo ser
  • Potenz designa o puro poder-ser cujo estatuto é não realizar-se imediatamente, e com isso define a transpassibilidade do conceito
    • Por Potenz entende-se o puro poder-ser que, enquanto tal, só tem estatuto na medida em que não se realiza ou não se cumpre imediatamente
    • Essa Potenz pode ser compreendida como transpassibilidade do conceito de Deus como Étant même para a transpossibilidade de um ser outro que não apenas seu próprio ser
    • Se a Potenz se realiza como vontade e se torna o próprio ato da vontade, então ela é posta fora de si, sai de si e se desfaz como Potenz e como transpassibilidade
    • Nessa inversão, resta apenas vontade da vontade, isto é, vontade tomada pelo ser do Étant même, que encontra então o Étant como ente bruto tomado por sua própria vontade
  • O ente atual aparece como existamenon e como não-Deus, isto é, como substância cega sem vontade
    • O ente atual é definido como existamenon, um ente posto fora de si, que já não se possui e que é irrefléxivo, besinnungslos, e por isso necessário
    • Esse ente é descrito como ente às cegas que, no ser, deixou de ser fonte do ser e torna-se substância cega sem vontade
    • Essa figura é qualificada como o oposto direto de Deus, o verdadeiro não-Deus, e é referida ao nome causa sui em Spinoza
  • O Étant même passa imediatamente ao ente cego por uma perda de consciência, e a psicose transcendentale é descrita como reificação da apercepção
    • O Étant même é dito passar ao ente cego em uma perda de consciência ligada à besinnungslosigkeit
    • O retorno da pureza substancial da consciência em objetividade reificada, solidificada ou fixada na substância cega é apresentado como outro nome da psicose transcendentale
    • Por não haver mediação, a vontade apodera-se do ente e o corta de toda transpassibilidade, produzindo uma captura do ente que o torna inerte
    • A vontade que quer a vontade é descrita como vontade que quer o ser em detrimento do ente, esvaziando o ente de todo ser e votando-o à impotência face ao ser que irrompe às cegas, blindlings hereinstürzend
    • Esse movimento é dirigido não apenas ao panteísmo como doutrina, mas à própria apercepção de Deus, na qual a distância aperceptiva tende a desaparecer
  • A psicose transcendentale aproxima-se da psicose real quando a distinção entre Étant même e qualquer ente se apaga
    • No limite, o Étant même é todo ente, e nada mais distingue o Étant même, com a reflexividade incipiente do conceito, de todo ente tornado cego e necessário
    • A apercepção de Deus explode ou se desarticula sem mediação em apercepções de todo ente, sem manutenção da distância entre apercepção e apercebido
    • Essa adesão da apercepção ao que é apercebido é descrita como reificação psicótica do pensamento, designada como horizonte arquitetônico do panteísmo
  • Conclusão crítica: o conceito de Deus deve incluir o poder-ser imediato e por si como Potenz transpassível ao Étant même
    • Schelling conclui que é necessário incluir no conceito de Deus como Étant même o conceito de poder-ser imediato e por si
    • Esse poder-ser deve ser compreendido como Potenz que é, em realidade, transpassível ao Étant même, isto é, capaz de manter a possibilidade sem colapsar em ato imediato
  • Primeira expressão da substrução idealista: negar o não-espírito para pôr-se como espírito, mantendo-se Étant même mesmo no ser
    • Schelling formula que, se Deus procedesse efetivamente no ser do qual é potência imediata, ele seria nesse ser o ser cego, isto é, o não-espírito e portanto o não-Deus
    • Contudo, ao negar-se enquanto não-espírito, por essa negação ele chega a pôr-se como espírito, e assim esse princípio deve servir ao seu ser enquanto Deus
    • Deus é então determinado não apenas como Étant même, mas como Étant même que o é verdadeiramente, isto é, que mesmo no ser não deixa de ser Étant même, mantendo-se como essência, Wesen, e portanto como espírito
    • Essa determinação é indicada como a que deve sobrevir em acréscimo ao conceito de Étant même para que ele seja plenamente idêntico ao conceito de Deus, preparando o passage ao monoteísmo
  • A substrução idealista é interpretada como distanciamento reflexivo da psicose transcendentale no nível da apercepção de língua
    • A sequência posição, negação da posição, reassunção com reflexividade é interpretada como a negação do ser-ente cego, isto é, como a instauração de distância frente à psicose transcendentale
    • Essa distância impede que a apercepção de Deus seja engolida cegamente em Deus como buraco negro do Uno e permite que a apercepção se reflita como apercepção e como conceito
    • Correlativamente, o Étant même é deixado a distância da apercepção, e a estabilidade do jogo entre conceito e ser é apresentada como decisiva
  • O ponto sutil da estabilidade conceitual: Deus só pode existir em sua apercepção se permanecer suscetível de transpassibilidade
    • Afirma-se que Deus não pode ser, isto é, existir na sua apercepção, senão mantendo-se a distância como suscetível de transpassibilidade
    • Isso equivale a situar Deus como ser de linguagem, e não como mero ser de língua, transpassível à massa fenomenológica da linguagem enquanto campo do transpossível, Potenz, para seu conceito
    • O estatuto de significado exige que Deus exceda em si mesmo a significação do puro conceito, e o conceito se alarga ao integrar, por negação, aquilo que o faria absorver-se no ente cego como em um buraco negro
    • Esse passo é indicado como reencenação profunda do argumento ontológico e como condição da estabilidade da tautologia simbólica própria ao sistema da língua filosófica, sob a presença da crítica a Hegel
  • O jogo entre Macht e Potenz estrutura o modo de gerar e o risco de implosão
    • Macht é tomado como poder em sentido quase político, enquanto Potenz é tomada como potência no sentido de ser-em-potência transpossível
    • O poder do ser imediato, isto é, o poder de sair de si, de tornar-se não-idêntico a si, o poder de ekstasis, é designado como verdadeira força geradora em Deus
    • Essa força fornece não apenas matéria universal, mas o material mais próximo da divindade, porém com ambivalência: em extraversão, é potência do ser não-divino e até anti-divino; em introversão, é potência, fundamento, começo, posição do ser divino
  • O poder do ser imediato como vontade de emprise implica ekstasis e, simultaneamente, precisa preservar a potência como potência
    • O poder do ser imediato é apresentado como poder de apoderar-se do ser ao querê-lo, e como o ser imediato é vontade, esse poder tende a ser poder da vontade da vontade
    • Esse poder põe fora de si, ek-stasis, e tende a retornar a apercepção ao que ela apercebe, engolindo-a e tornando-a outra que si mesma
    • Contudo, como vontade em movimento, esse poder é concebido como força geradora, mas ela seria imediatamente atração sem retorno ao buraco negro do Uno se não fizesse surgir, desde sua transpassibilidade, a Potenz como ser-em-potência cujo estatuto é não dever ser cumprido imediatamente por um ato
    • Em extraversão, a potência é puxada para fora como possível a ser posto em ato e então se fixa como ser cego do ente cego; em introversão, a potência é chamada a permanecer potência, sendo fundamento e eterno começo em Deus, dita também natureza em Deus
  • A possibilidade do ser adverso é dada no Seynkönnen imediato, mas Deus a contém como possível apenas possível, como fundamento e começo
    • A possibilidade do ser adverso, isto é, do ser cego e do não-Deus, é dada no poder-ser imediato, Seynkönnen
    • Deus, segundo seu conceito, é poder-ser não para ser o ente conforme a esse poder, mas para não o ser, e por isso para ter esse ser em si como apenas possível
    • Esse apenas possível é definido como fundamento, e o que é apenas fundamento é sempre não-ente, e como começo do ser divino
    • Esse possível apenas possível é caracterizado como aquilo que escapa ao poder de emprise e exige a localização, em Deus, de um site de transpassibilidade
  • A substrução idealista é reformulada como encadeamento entre um primeiro ser não-ente e um segundo ser como ente puro, sem passagem de potência a ato
    • O conceito de Deus implica que ele se ponha no primeiro ser como não sendo, mas não pode pôr-se como não sendo sem pôr-se em outro como sendo
    • No segundo ser, Deus se põe como sendo puramente, isto é, como ente sem passagem de potentia a actum
    • O primeiro ser, em sua negação, é a possibilidade ou Potenz do segundo, de modo que o segundo tem sua potência, possibilidade e material no primeiro, e mesmo na negação do primeiro
    • O não-ente e o ente puro são declarados indissoluvelmente encadeados e inseparáveis
  • A potência não é potência do ente puro, mas potência no ente puro, isto é, transpassibilidade preservada pela negação
    • A potência não é entendida como ser-em-potência do ato que se poria com o ente puro, pois tal passagem conduziria ao ente cego e ao ser cego, isto é, à psicose transcendentale
    • A potência permanece potência na distância própria à transpassibilidade, isto é, na negação, e por isso não é potência do ente puro, mas potência no ente puro
    • Essa estrutura é descrita como transpassibilidade da linguagem fenomenológica na apercepção de Deus e como transpossibilidade da linguagem em relação a essa apercepção
    • Por essa via, evita-se a sombra do politeísmo, pois a Potenz transpassível não é material de Deus, mas material em Deus, e o vínculo com o ato do ente puro é o vínculo da negação da potência com a concretude ainda vazia, e não o vínculo unívoco potência-ato
    • Assim, a apercepção de Deus não é realização do campo inchoativo da linguagem, mas negação desse campo como potência transpassível, e a passagem à língua e ao referente ocorre por essa negação, caracterizando-se como verdade do idealismo
  • A retomada da terceira lição precisa a infinitude da potentia existendi e o caráter surabundante do ente que a contém
    • Enquanto simples Potenz cujo ser consiste em não passar ao ente em ato, a potentia existendi, a potência de existir, é dita infinita
    • Nessa medida, o ente que contém essa potência por mantê-la como potência para existir é dito surabundante, überschwenglich, e exaltado
    • A negação operante nessa existência é dita, por isso, infinita, e o risco correlato é a implosão na psicose transcendentale, descrita como redução ao silêncio
  • Dois momentos do ser divino são estabelecidos como potência pura e ato puro, com infinitude recíproca e finitude relativa
    • Os dois momentos são apresentados como potentia pura, potência pura, e actus purus, ato puro, sendo o ato puro já ato sem dever ter passado pela potência
    • O ato puro, tomado em si mesmo, é dito tão infinito quanto a potência pura tomada em si mesma
    • O ato puro, tomado isoladamente, é associado ao retorno à implosão identitária do buraco negro do Uno, isto é, ao engolimento da apercepção pelo que ela apercebe e ao retorno da psicose transcendentale cortada de transpassibilidade
    • Contudo, cada um é dito finito em relação ao outro, o que corresponde à possibilidade de uma apercepção a distância do que apercebe, pois Deus não é apenas ser de língua confundido com o nome, mas também portador do campo da linguagem que excede o nome por transpassibilidade
  • A relação paradoxal entre potência pura e ato puro é descrita como encantamento e magia que elevam o ato acima da ipséidade
    • A potência pura é descrita como encantamento, Zauber, e magia, Magie, pela qual o ato puro é elevado acima de toda ipséidade e determinado ao puro ser surabundante
    • O equilíbrio dos momentos faz com que o ente puro, como condensado simbólico infinito do campo fenomenológico da linguagem, pareça de profundidade e riqueza abissais
    • O encantamento é correlacionado ao que foi descrito como hipnose transcendental da apercepção, pela qual a apercepção de Deus, a distância de Deus, é tomada por um estado segundo e clarividente diante do que apercebe
  • O objeto da apercepção começa como contração e atração, e o mistério do ser divino permanece oculto no recobrimento pelo ente infinito
    • O simples poder nu, desprovido de ser, reveste-se ao atrair o ser infinito e se envolve nesse ser, de modo que se vê o ser infinito e não o poder nu
    • Esse poder permanece oculto nas profundezas e constitui o mistério próprio do ser divino, que, privado de ser em si, se cobre exteriormente do ente infinito e, não sendo nada para si, é um outro, a saber, o ente infinito
    • Por isso, Deus não se confunde com o ente, ainda que este seja puro e infinito, ato puro e infinito, e esse ato é também votado a não cumprir-se absolutamente
    • Nessa situação de equilíbrio, o ato puro é também compreendido como Potenz do ser divino no interior do equilíbrio da apercepção
  • A estrutura sujeito-objeto é mobilizada para estabilizar a substrução idealista e preparar um terceiro momento
    • Schelling busca explicitar as relações entre as duas Potenzen do ser divino por meio da estrutura sujeito-objeto
    • Trata-se de passar do sujeito puro e do objeto puro a uma estrutura sujeito-objeto, com desenvolvimentos abstratos, mantidos no âmbito do conceito
  • O terceiro momento exige que o poder-ser se possua a si mesmo para não permanecer transpossibilidade nem colapsar no ato do ente puro
    • O poder-ser, para não permanecer como transpossibilidade transpassível nem passar imediatamente ao ato do ente puro entendido como Macht de emprise, deve possuir-se a si mesmo
    • Essa posse de si é descrita como ser perpetuamente ato sem cessar de ser Potenz, isto é, fonte do ser, e como permanecer mestre de si no ser
    • Simetricamente, quando é potência, deve não menos ser ato, como um permanecer-junto-de-si que não pode perder-se
  • O equilíbrio depende de ato e potência não serem da mesma coisa, e consiste na retenção da potência pelo ato
    • O equilíbrio da apercepção a distância do que ela apercebe exige que não haja passagem unívoca da potência ao ato
    • A condição é que o ato retenha a potência em seu ser de potência, transpassível e transpossível, mantendo a massa fenomenológica inchoativa da linguagem a distância
    • A realização imediata desse campo conduziria à psicose transcendentale, de modo que a distância é o mecanismo de reflexão e domínio da apercepção em si
    • Essa reflexão é dita espírito por Schelling, e corresponde ao conceito do ser divino, isto é, à apercepção de língua
    • O monoteísmo, como instituição simbólica, é descrito como pensar essa passagem por mediação de um nome, conceito ou apercepção como condensado simbólico do campo fenomenológico da linguagem, permanecendo ainda o registro do conceito do ser divino
  • O esquema simbólico A, -A, +A e ±A formaliza a situação da potência e do conceito estabilizado
    • O Étant même é nomeado A
    • A potência pura, na qual o ente não está em ato, é nomeada -A
    • O ente puro ou infinito é nomeado +A
    • A apercepção estabilizada, o conceito de Deus, é nomeada ±A
    • O -A em ±A significa que Deus é potência imediata do ser apenas na introversão, no ocultamento e no mistério, constituindo o mistério originário e imprépensável da divindade, já posto como subordinado e latente antes de toda pensée, sem que haja qualquer ato
  • O mistério originário é interpretado como condensação simbólica do campo inchoativo da linguagem fenomenológica
    • O mistério originário, imemorial e imprépensável, é compreendido como o que está posto na condensação simbólica realizada em Deus do campo inchoativo da linguagem fenomenológica
    • A instituição simbólica do monoteísmo é caracterizada como tomar essa condensação como originária, apontando para desdobramentos posteriores quanto a uma apreensão menos etnocêntrica da mitologia
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