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Viver encarnado: pensamentos (1993)
RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.
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Uma primeira abordagem do que se entende por “pensamentos”.
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Esta questão é tão complexa quanto as anteriores, pois foi sub-repticiamente pré-determinada pelas diferentes correntes e doutrinas filosóficas.
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O caráter por excelência do pensamento é parecer imaterial e incorpóreo, mais ainda que as “paixões da alma”.
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Por isso, a filosofia sempre foi dualista ou em luta difícil com o dualismo.
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De modo geral e livre de pressupostos, pode-se dizer que há pensamento quando algo não vai de si, quando há perplexidade diante de uma questão lancinante.
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Isso ocorre desde o mais elementar no campo prático até o mais complexo no campo “especulativo”.
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O pensamento envolve a colocação em ordem da questão, a formulação de um problema a resolver.
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Para que haja pensamento, é preciso que surja o que não vai de si e que se encontre a questão.
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É impossível determinar o começo do pensamento, pois ele já está em ação no surgimento do que não vai de si e no encontro da questão.
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A formulação do problema está intimamente ligada à maneira como ocorrem o surgimento e a encontro.
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Também está ligada, paradoxalmente, à maneira como, neles, já se anuncia, mas sem se dar, a via da resolução.
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Toda pensamento se sustenta na coesão intrínseca de três momentos: o surgimento do que não vai de si, a posição da questão e sua formulação como problema.
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O que não vai de si pode surgir sem se colocar como problema, por exemplo, na estupefação, no espanto, na decepção ou na revolta.
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Para que a questão se torne problema, é necessária uma elaboração que busque, na situação, o que foi próprio para despertar os termos de um problema suscetível de resolução.
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Esta elaboração comecante só tem sucesso se a organização desses termos conduzir à resolução.
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A organização se precede a si mesma, mas só desemboca na resolução se conseguir, por assim dizer, colocar seus passos em seus próprios passos, se se acordar a si mesma.
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Um problema insolúvel é frequentemente um problema mal colocado, ou um problema cuja elaboração comecante se embaraça em si mesma porque não pode se acordar a si mesma.
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Neste caso, ocorre o retorno brutal aos humores e sentimentos ligados ao que não vai de si, onde se permanece preso por aquilo que não se compreende.
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A elaboração comecante consiste, portanto, em empreender compreender por onde e como não se compreende.
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A elaboração e a organização do problema só podem se efetivar em linguagem.
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Isto significa que elas se efetuam numa colocação em tempo, uma temporalização daquilo que não vai de si.
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A elaboração é uma análise que decompõe a situação em elementos reconhecíveis numa linguagem (que pode ser a das sensações, afecções, gestos).
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A análise pode ser “estéril” se não se acordar à síntese do problema, onde os elementos se colocam em ordem juntos.
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Esta ordem é sempre a ordem de etapas, sequências temporais distribuídas no que aparece como seu tempo e seu espaço.
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O tempo e o espaço da análise devem se acordar aos da síntese; é neste acordo que consiste a passagem ao linguagem daquilo que não vai de si em estado bruto.
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A resolução encontrada do problema é, nesse sentido, uma vez por todas, pois todo o processo constitui um todo, um tempo e um espaço do problema que pode se autonomizar.
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Há, portanto, um tempo (e um espaço) próprio do pensamento, como um αἰών (aion) do pensamento, que o faz levar sua vida própria à parte do corpo, ao menos do corpo obscuro e rebelde das afecções e paixões.
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O excesso do pensamento é suscetível a duas interpretações.
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Primeira interpretação do excesso (atitude dualista):
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O excesso se autonomiza a ponto de constituir seu tempo próprio, um tempo sem tempo, o tempo da iluminação do pensamento sem medida comum com o tempo do corpo ou da vida.
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O excesso do pensamento se toma a si mesmo por objeto, condensando-se como na paixão.
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A pensamento, embora gerada em seu tempo, é imortal, trans-temporal ou trans-histórica.
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Como dizia Husserl, o teorema de Pitágoras não é menos verdadeiro hoje que no dia de sua descoberta.
Pode-se assim dizer que as pensamentos, como problemas resolvidos, são divinas.-
A Teogonia de Hesíodo, ao narrar como Zeus resolveu o problema da soberania, pensa fundar a soberania uma vez por todas.
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Recusar este problema elaborado traz o risco da húbris (desmedida), pago com a desordem ou a monstruosidade, sinais da impiedade.
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Segunda interpretação do excesso:
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Nem toda pensamento se reduz a problemas a resolver ou resolvidos.
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Nesta redução, a pensamento se submeteria a uma circularidade, presupondo-se sempre a si mesma; como dizia Marx, a humanidade só se colocaria problemas que pode resolver.
Nesta interpretação, a pensamento se excede a ponto de nunca chegar ao fim de si mesma.A resolução de um problema é sempre relativa, dependente de sua elaboração e organização.O excesso pode ser tal que a pensamento vá até o impossível, onde essa relatividade se manifesta a céu aberto, quando há várias maneiras de elaborar, ordenar e resolver a mesma questão.-
Este é o caso das grandes questões metafísicas, que nunca são esgotadas por seus tratamentos ou resoluções, sob pena de dogmatismo.
Seria um etnocentrismo violento e ingênuo afirmar que este excesso da questão sobre o problema só existe em nossa cultura.-
O linguagem da filosofia mais especulativa possui ligações com nosso corpo.
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Como já observara K. Lorenz, este linguagem está cheio de termos ligados ao corpo (“ver claro”, “conjunto embaraçado”, “saber pegar um objeto”, “compreender”).
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Isto não é uma “metafórica”, mas indica que onde a pensamento parece mais longe do corpo, em seu excesso, ela porta profundamente sua marca.
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Pode-se quase falar de um “corpo do pensamento”, pois não há pensamento sem corpo; até em seu excesso, a pensamento é ainda pensamento encarnada em um corpo.
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A relação da pensamento com “seu” corpo é tão complexa quanto a nossa relação com nosso corpo, pois é a mesma relação, vista do ponto de vista do excesso do pensamento.
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Este “corpo do pensamento” também tem sua parte obscura e rebelde, visível na impossibilidade cultural de pensar certas questões ou problemas.
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Pensar é sempre também se orientar, por isso falamos de um espaço e de um tempo do pensamento.
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