User Tools

Site Tools


estudos:poggeler:pensamento:9

9 Libertação

PÖGGELER, Otto. Der Denkweg Martin Heideggers. Pfullingen: Neske, 1963. (Com sucessivas edições revistas e ampliadas: 2. Aufl. 1983; 3. Aufl. 1990; 4. Aufl. Stuttgart: Klett-Cotta, 1994).

Libertação para o próprio

  • A libertação para o próprio exige encontrar, no interior do mundo técnico, a verdade esquecida que sustenta até mesmo aquilo que hoje se apresenta como realidade efetiva; a proximidade desse fundamento não se alcança pela fuga romântica ao passado, mas por um olhar atento ao que é.
  • A devastação da Terra e a mobilização técnica tornam visível uma situação que Nietzsche antecipara, mas cuja saída não pode ser decidida apenas pelos conceitos da vontade de poder ou da mobilização total.
  • A ciência e a técnica atravessam a vida contemporânea, desde as comunicações e a produção automatizada até a energia atômica e os campos de extermínio; interrogá-las requer perguntar pelo modo de desocultamento que nelas vigora.
  • A possibilidade de um habitar próprio depende de que o pensamento reconheça, no perigo do mundo técnico, a abertura para uma experiência do mundo como quadratura (Geviert) de terra e céu, divinos e mortais.

Olhar para o que é

  • A coisa não se deixa compreender plenamente como suporte de propriedades, conjunto de sensações, combinação de matéria e forma ou objeto mensurável, pois essas determinações deixam escapar o modo como ela reúne um mundo.
  • A jarra é jarra ao acolher, reter e oferecer o que nela se verte: no dom da água ou do vinho reúnem-se a terra que nutre, o céu que dá chuva e sol, os mortais que bebem e os divinos aos quais se oferece a libação.
  • A supressão técnica das distâncias não produz, por si, proximidade com as coisas; a circulação e a disponibilidade generalizadas podem, ao contrário, reduzir sua presença a algo uniforme e indiferente.
  • A técnica moderna provoca a natureza a fornecer energia e recursos disponíveis, integrando também paisagens, atividades humanas e formas de apreciação a uma solicitação contínua; por isso, sua essência não se esgota nas máquinas nem decorre simplesmente da aplicação da física.
  • O ente solicitado aparece como reserva disponível (Bestand), pronto para novas operações, enquanto o enquadramento (Gestell) designa a reunião das exigências que impelem o homem a desocultar o real dessa maneira.
  • O perigo decisivo do enquadramento reside em fazer da disponibilidade o único modo reconhecido de desocultamento, encobrindo tanto a essência da verdade quanto a possibilidade de deixar as coisas aparecerem em sua própria proximidade.
  • O reconhecimento desse perigo pode abrir uma relação livre com os aparelhos técnicos e uma disposição para o mistério: o desocultamento inclui um resguardo que não pode ser produzido, calculado ou posto à disposição.

Mundo como quadratura

  • Terra e céu, divinos e mortais pertencem uns aos outros na quadratura (Geviert): a terra sustenta e abriga, o céu oferece seus cursos e variações, os divinos dão sinais da divindade e os mortais se distinguem por poderem assumir a morte como morte.
  • A quadratura não reúne quatro objetos previamente isolados; cada um de seus termos encontra o que lhe é próprio na relação com os demais, no jogo pelo qual o mundo acontece.
  • O mundo designa a articulação do desocultamento em que o ente pode mostrar-se, ao passo que a própria abertura se mantém inseparável de ocultação, retraimento e resguardo.
  • O tempo originário não se reduz a uma série de instantes presentes: o sido, o presente e o porvir pertencem conjuntamente ao acontecer que abre cada instante, sem que uma dessas dimensões sirva de medida definitiva para as outras.
  • O espaço de jogo temporal em que proximidade e distância adquirem sentido excede o espaço mensurável; a precisão do cálculo conserva seu alcance próprio, mas não esgota a experiência do habitar e da relação com o divino.
  • A terra resguarda ao ocultar-se, enquanto o céu abre o que se mostra; sua pertença recíproca integra o acontecer do mundo, que necessita dos mortais sem ser uma construção fundada pela vontade humana.
  • A unidade da quadratura constitui uma relação móvel, em que cada termo deixa transparecer os outros; o mundo não repousa sobre um fundamento exterior nem conduz a uma síntese final que suprima o ocultamento.
  • As coisas reúnem e fazem demorar a quadratura, tornando possível que a pertença a um lugar seja experienciada como solo natal sem se transformar em posse garantida ou fundamento permanente.
  • A natureza não se esgota no objeto das ciências nem no estoque da técnica: seu brotar e seu recolher-se exigem que seja pensada também a partir da terra, cuja alteridade sustenta a própria existência humana.
  • A vida possui um modo de ser próprio que não pode ser obtido pela simples retirada das determinações do ser humano; a proximidade corporal com o animal torna mais agudo o enigma da diferença entre o vivente e a existência aberta à questão do ser.
  • O homem pertence à quadratura como mortal porque pode assumir sua finitude e tornar-se lugar da verdade do ser; a morte, compreendida em sua essência, não equivale nem ao mero cessar biológico nem à passagem assegurada para outra vida.
  • A questão do divino surge na exigência histórica pela qual verdade e mundo podem reunir-se em uma interpelação vinculante, sem que essa exigência autorize a fixação de Deus como causa suprema ou valor máximo.
  • A crítica ao Deus da ontoteologia procura deixar livre a possibilidade do Deus divino: o ser não é colocado acima dos deuses, nem os deuses acima do ser, pois sua relação se deixa pensar apenas a partir do acontecer apropriador (Ereignis).
  • O último deus nomeia a possibilidade extrema de uma manifestação divina em passagem fugaz, sem oferecer ao homem garantia de sua chegada; nos escritos posteriores, a referência mais reservada aos divinos conserva essa abertura na figura dos mensageiros da divindade.
  • O pensamento permanece entregue à interrogação sobre a proximidade e a retirada do divino, de modo que sua libertação para o próprio passa pelo reconhecimento dos desvios da história ocidental e pela disposição de habitar a abertura de mundo.
estudos/poggeler/pensamento/9.txt · Last modified: by 127.0.0.1