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5 Condenação do gozo

VAN REETH, Adèle; NANCY, Jean-Luc. La Jouissance. Québec: Librairie Plon, 2014.

  • A transição histórica e a crise do mundo antigo: o advento do cristianismo
    • Adèle Van Reeth formula a questão da culpa moral: partindo da constatação sadiana de que o gozo pode brotar do sofrimento infligido ou suportado, indaga em nome de que princípio a religião e a sociedade instituíram a interdição do fruir, convertendo o ato corporal em transgressão originária e dívida fundante.
    • Jean-Luc Nancy situa o cristianismo como cesura histórica decisiva, recorrendo às teses do historiador Paul Veyne em Quando Nosso Mundo se Tornou Cristão: a conversão imperial sob Constantino não resultou de cálculo pragmático de forças partidárias, emanando do aconselhamento de pensadores que identificaram na mensagem evangélica um alento pacificador para a angústia generalizada dos povos mediterrâneos.
    • Esse clima de aflição, recordado por Freud a partir de fontes alemãs em Moisés e o Monoteísmo, assinalava o crepúsculo das ordens teocráticas e dos cultos agrários, cedendo passo à busca helenística pelo cuidado de si nos estoicos, epicuristas e cínicos diante de um cosmos desprovido de garantias rituais.
    • Paralelamente à emergência técnica da metalurgia do ferro, da náutica, da escrita alfabética, da política e da filosofia, emergiu a acumulação de riquezas pré-capitalistas descrita por Karl Marx, instaurando a crise republicana em Roma; enquanto o Império divinizava politicamente um governante temporal, a doutrina cristã respondia à fratura humanizando a própria Divindade e convertendo a existência terrestre em mero trânsito passageiro em direção ao Espírito.
  • A cisão entre carne e salvação: a rivalidade ontológica dos prazeres
    • Na dramaturgia da Paixão do Cristo encontra-se a matriz de uma fruição dolorista que irrigou a iconografia artística ocidental: a kenosis e a morte ignominiosa do Filho constituem o mistério central pelo qual o Absoluto experimenta a mortalidade para divinizar a fragilidade humana.
    • Essa partilha instaura uma fratura no âmago do sujeito: o itinerário redentor passa necessariamente pela provação do padecimento físico, fazendo recair sobre a carne sensível o signo permanente da suspeição e da culpa.
    • O pecado adquire um estatuto ontológico mais amplo do que a mera infração formal a um mandamento dogmático, traduzindo-se em rivalidade direta de intensidade entre as esferas terrena e celeste: a promessa da beatitude e da exultação eterna compete com a voracidade do gozo somático aqui e agora.
    • A proscrição teológica não debilita a pulsão corporal; ao converter a atração carnal em matéria proibida, empresta-lhe uma atração e uma densidade transgressiva ainda mais superlativas.
  • As vertentes da libido: dominação política e sexualidade desprovida de culpa
    • Van Reeth evoca a contraposição entre a libido sentiendi (o impulso sensível carnal) e a libido dominandi (o desejo de domínio e poder político), categorias analisadas por Agostinho de Hipona.
    • Nancy examina a libido dominandi para além de sua desqualificação moral moderna, afirmando que a aspiração ao comando e ao manejo do poder constitui a mola indispensável da ação política, cuja manifestação contemporânea surge desprovida de disfarces em lideranças populistas.
    • Na experiência erótica, a potência não se confunde com a dominação despótica nem com o privilégio exclusivo do falo masculino, caracterizando-se como um jogo rítmico de contenção e emissão de energia somática, onde quem goza encontra-se dominado pelo próprio excesso da sensação.
    • Em contrapartida à condenação eclesiástica da carne, Nancy menciona as observações de Claude Lévi-Strauss em Tristes Trópicos a respeito das práticas eróticas dos indígenas Nambiquara: o casal que se retira discretamente ao cair da noite para os arbustos vivencia uma volúpia acompanhada de riso afetuoso, atestando a possibilidade histórica de um gozo exterior à engrenagem da culpabilidade.
  • A comunhão dos corpos e a anatomia do excesso nas tradições extrabíblicas
    • Discute-se a noção teológica de comunhão, mobilizada pela tradição literária para celebrar a fusão dos amantes e problematizada no diálogo entre Georges Bataille e Maurice Blanchot a respeito dos limites da comunidade.
    • A teologia cristã define a comunhão não como apagamento aniquilador da pessoa, mas como ingresso no corpo místico do Salvador, constituindo uma multiplicidade articulada semelhante ao grande monstro coletivo do Leviatã de Thomas Hobbes.
    • Ao examinar culturas não cristãs — como a poesia amorosa egípcia, mesopotâmica e chinesa —, Nancy constata que o ato sexual mantém invariavelmente uma reserva sagrada, conquanto esteja liberto do pavor dogmático ocidental; ilustra a afirmação evocando o romance clássico chinês no qual o personagem submete seu membro a um enxerto canino na tentativa mecânica de obter vigor e duração ininterruptos.
    • Nas gravuras japonesas da tradição shunga, a representação gráfica do intercurso adota o desmedido anatômico deliberado, exibindo genitálias agigantadas sob a contemplação de observadores ocultos por trás de biombos, afirmando o acontecimento visual sem recorrer ao interdito castrador.
  • O modelo paulino da contenção e a virada espiritualista platônica
    • Em nítido contraste com as culturas antigas, o cristianismo primitivo restringiu severamente o comércio sexual à exclusiva finalidade procriativa, mantendo a tolerância excepcional formulada pelo apóstolo Paulo — segundo a qual era preferível casar-se a queimar em concupiscência —, modelo que desconsiderava o apelo feminino e culminou, nos séculos posteriores, em artifícios puritanos de ocultação mecânica do pudor corporal.
    • Revisitando a Grécia clássica, Nancy identifica que os diálogos platônicos não formulavam um veto moral ao prazer físico; no Fedro, o amante é descrito na agitação concreta de suas plumas antes da emissão do sêmen, cena de crueza que não se subordina à condenação do mal.
    • O Banquete platônico já assinala uma transição em direção ao mal-estar cultural helênico: diante do colapso da religião cósmica da pólis, Platão desloca o foco da afecção dérmica para a contemplação das essências imateriais, forjando a categoria de uma fruição de ordem puramente espiritual.
    • Essa operação conceitual grega prepara o terreno filosófico para o monoteísmo cristão — como já apontara Blaise Pascal —, cindindo a experiência humana entre o gozo vil dos membros e a pureza desincorporada da alma.
  • A dialética da interdição, a estética do abalo e a sobriedade socrática
    • Nancy argumenta que a sanção moral requer a postulação de uma ameaça iminente: erige-se o perigo da danação e da morte eterna para legitimar a classificação do prazer carnal como pecado mortal.
    • A interdição eclesiástica acabou por revelar o próprio núcleo convulsivo do gozo, isolando o espasmo, a contração física e o estremecimento desmedido como pontos de máxima ruptura e perigo existencial.
    • No modelo filosófico grego, o abalo não culmina na degradação: o Banquete encerra-se com o exemplo notável de Sócrates, que ingere a mesma quantidade desmedida de vinho que os demais comensais sem tombar na embriaguez torpe, preservando a lucidez desperta enquanto os outros jazem adormecidos sobre o chão.
    • O contraste evidencia que a civilização grega pensava a exultação festiva e o trânsito da alegria sem reduzi-los à degradação pessoal, ao passo que a posteridade cristã e moderna passou a conceber o gozo como rebaixamento moral e decadência da integridade individual.
  • O nascimento do sujeito culpado e a invenção da interioridade agostiniana
    • A mutação paradigmática operada pelo cristianismo reside na subjetivação compulsória do acontecimento: enquanto o amante platônico experimenta o transe sem enunciar a si mesmo em uma declaração proprietária, o crente é forçado a assumir a primeira pessoa do verbo, transformando o acontecimento em um eu gozo carregado de responsabilidade moral.
    • O libertino de Sade demonstra ser, por vias inversas, um autêntico fruto da teologia cristã: o blasfemo só profere seus vitupérios porque tem consciência aguda da autoridade divina e do interdito normativo que profana no momento do ato.
    • Santo Agostinho marca o surgimento histórico do sujeito confessional moderno nas Confissões: ao articular a exclamação ontológica de que Deus é mais interior à sua própria intimidade do que ele mesmo e mais elevado do que o cume do seu próprio ser, inaugura a experiência abissal da subjetividade que se descobre habitada pelo Outro.
    • Nancy assinala a fina ironia da escrita agostiniana: ao confessar o pecado de vaidade inerente ao domínio da retórica e ao condenar o erro juvenil de haver amado o próprio ato de amar em lugar de reservar sua afeição exclusivamente ao Criador, Agostinho emprega os recursos estilísticos mais sublimes da eloquência para fruir espiritualmente do seu próprio triunfo sobre a perdição da carne.
  • A topologia do íntimo, o Jésuve orgíaco e a socialização do afeto
    • A fórmula agostiniana da interioridade revela uma continuidade dialética secreta: o ponto mais íntimo do corpo e da subjetividade, ao ser levado à sua máxima exacerbação, coincide necessariamente com o plano exterior e desapropriado do mundo.
    • Essa ascensão culminante evoca a imagem geológica forjada por Georges Bataille do Jésuve — a fusão conceitual de Jesus com a erupção vulcânica do Monte Vesúvio —, atestando a presença residual do delírio dionisíaco no próprio cume da mística cristã, onde o termo orgia ressoa como étimo do espasmo corporal orgástico.
    • O substantivo formal jouissance empalidece perante a virulência do ato verbal no qual o sujeito se dissolve na exclamação; da mesma forma que a criança vibra ao pronunciar o pronome pessoal pela primeira vez, o indivíduo que vivencia a intensidade extrema da afecção perde seus contornos identitários no fluxo da jubilação.
    • A reflexão encerra-se contrapondo dois regimes civilizatórios da afecção sensível: as sociedades tradicionais, que acolhem coletivamente a dor e o êxtase mediante símbolos rituais partilhados, e a conformação individualista ocidental, que confina o padecimento e a volúpia nos recessos solitários do sujeito privado, expondo o vivente à perplexidade desarmada perante a violência do que lhe sobrevém na carne.
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