estudos:montavont:viver
O “viver” em sua dimensão passiva e ativa
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A análise do viver introduz a necessidade de pensar conjuntamente passividade e atividade como dimensões cooriginárias da vida da consciência.
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O viver não se deixa reduzir nem à pura espontaneidade do eu nem à simples receptividade do dado.
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Ele designa o modo de ser da consciência enquanto processo efetivo que se desenrola antes de toda tematização.
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A vida é, desde o início, atravessada por uma duplicidade estrutural que impede sua compreensão unilateral.
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A dimensão passiva do viver manifesta-se na afecção originária da consciência.
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A consciência é primeiramente afetada antes de agir.
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Algo se impõe a ela sem ser resultado de uma iniciativa egoica explícita.
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Essa passividade não é ausência de intencionalidade, mas modo originário de sua efetivação.
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A afecção inaugura um rapport à soi pré-reflexivo.
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A consciência se sente a si mesma ao ser afetada.
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Esse sentir não é um ato de conhecimento.
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Ele constitui a auto-presença mínima que torna possível toda atividade ulterior.
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A passividade do viver não deve ser interpretada em sentido naturalista.
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Ela não corresponde a um impacto exterior vindo de um mundo já constituído.
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Ela pertence à própria imanência da vida consciente.
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O que é recebido é já vivido como significativo, ainda que não objetivado.
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A dimensão ativa do viver emerge no prolongamento da passividade.
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A consciência não se limita a sofrer as afecções.
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Ela as retoma, as desenvolve e as orienta.
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A atividade aparece como resposta imanente ao que a afeta.
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A espontaneidade do eu não inaugura a vida, mas se grava sobre ela.
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O eu age a partir de um fundo já-aí de vividos.
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A atividade supõe sempre um solo passivo prévio.
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O viver ativo é, assim, derivado sem ser secundário.
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A unidade do viver reside na inseparabilidade entre sofrer e agir.
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Toda atividade conserva um momento de receptividade.
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Toda passividade implica uma mínima auto-implicação da consciência.
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A oposição clássica entre atividade e passividade é, nesse nível, inadequada.
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O viver passivo constitui o fundo operatório da consciência.
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Ele sustenta silenciosamente os atos explícitos.
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Ele não se oferece como objeto de tematização imediata.
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A reflexão só pode alcançá-lo de modo indireto e retrospectivo.
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O viver ativo corresponde à explicitação parcial desse fundo.
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Nos atos do eu, a vida se torna mais visível.
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A intencionalidade explícita é uma forma intensificada do viver.
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Contudo, ela não esgota a vida que a sustenta.
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A temporalidade interna articula passividade e atividade.
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A retenção conserva o que foi vivido passivamente.
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A protensão orienta a atividade futura.
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O presente vivo é o lugar de sua copertença.
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O viver é, assim, essencialmente processual.
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Ele não se fixa em estados.
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Ele se define como movimento contínuo.
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Esse movimento é simultaneamente sofrido e produzido.
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A análise do viver revela uma concepção não dualista da vida da consciência.
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A consciência não alterna entre passividade e atividade.
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Ela vive sempre sob o modo de sua imbricação.
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A vida consciente é unidade dinâmica de recepção e espontaneidade.
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A fenomenologia é levada, desse modo, a repensar o estatuto do sujeito.
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O sujeito não é puro agente.
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Ele não é tampouco puro paciente.
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Ele é vida que se vive e se desdobra no meio-termo entre o afeto e a iniciativa.
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