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estudos:merleau-ponty:1964b:fe-perceptiva

Fé perceptiva e obscuridade

MERLEAU-PONTY, Maurice. Le visible et l'invisible: suivi de notes de travail. Texte établi par Claude Lefort. Paris: Gallimard, 1964. (Bibliothèque des Idées).

A fé perceptiva e sua obscuridade

1. Vemos as próprias coisas, o mundo é aquilo que vemos: fórmulas assim exprimem uma fé comum ao homem natural e ao filósofo desde que abre os olhos e remetem a uma camada profunda de “opiniões” mudas implicadas na vida. Essa fé, porém, tem de estranho que, quando se tenta articulá-la em tese ou enunciado, perguntando o que somos, o que é ver e o que é coisa ou mundo, entra-se num labirinto de dificuldades e contradições.

2. O que Santo Agostinho dizia do tempo, perfeitamente familiar a cada um e inexplicável aos outros, deve ser dito do mundo. O filósofo vê-se obrigado a rever e redefinir as noções mais bem fundadas e a empreender uma reforma do entendimento, ao fim da qual a evidência do mundo se apoia nos pensamentos aparentemente mais sofisticados, em que o homem natural já não se reconhece, reavivando a velha queixa de que a filosofia inverte os papéis do claro e do obscuro; pretender falar em nome da evidência ingênua não o desculpa, pois assim ele despoja a humanidade ainda mais completamente, convidando-a a pensar-se como enigma.

3. É verdade ao mesmo tempo que o mundo é o que vemos e que é preciso aprender a vê-lo, igualando essa visão pelo saber, como se nada soubéssemos dela. A filosofia, porém, não é um léxico, não busca um substituto verbal do mundo nem se instala na ordem do dito, mas quer conduzir à expressão as próprias coisas, do fundo de seu silêncio. Se o filósofo interroga e finge ignorar o mundo e a visão que operam nele, é para fazê-los falar, porque crê neles; a interrogação não é começo de negação, mas a única maneira de ajustar-se aos paradoxos da visão de fato e aos enigmas figurados que são a coisa e o mundo.

4. Por mais certo que seja que vejo minha mesa, que minha visão termina nela e que, pensando na ponte da Concórdia, estou lá, e não em meus pensamentos, essa convicção é combatida pelo fato de tratar-se de uma visão minha. O velho argumento do sonho e das ilusões usa a própria fé no mundo que parece abalar, pois só se conhece o falso por contraste com experiências do verdadeiro, e iguala percepção e sonho apenas diante de um Ser em si. Rejeitado esse fantasma, as diferenças descritivas entre o sonho, feito de lacunas, e a percepção, que abre uma série concordante de explorações, ganham valor ontológico; mas resta compreender como os farrapos do sonho podem valer para o sonhador como o tecido do mundo verdadeiro e, se podemos perder nossas referências sem saber, nada prova que alguma vez as tenhamos.

  • Por isso a filosofia reflexiva busca acima da percepção a garantia de sua função ontológica, caminho que será examinado a seu tempo.
  • O pirronismo partilha as ilusões do homem ingênuo, é a ingenuidade que se dilacera na noite: entre o Ser em si e a “vida interior”, não entrevê o problema do mundo, cujo sentido de ser deve ser buscado sem pressupor o ser em si nem o ser para a consciência.

5. Tenho na percepção a própria coisa, mas ela está no fim de meu olhar e de minha exploração: só vejo a mesa se está no raio de ação de meus olhos e de meu corpo, cercada pela massa escura da testa e pelo contorno das faces, como se a visão do mundo se fizesse de um ponto do mundo. Os movimentos dos olhos e o piscar fazem vibrar o mundo sem abalar sua solidez, e isso não é uma “componente subjetiva” sobreposta às coisas: como as imagens monoculares, que são pré-coisas e fantasmas resorvidos pela visão binocular por uma metamorfose, e não por síntese, as aparências são destituídas pela verdadeira percepção. O corpo é que me faz ficar na aparência e ir às próprias coisas, e o poder de acesso ao mundo e o de refugiar-me nos fantasmas não andam um sem o outro: a proximidade absoluta do mundo torna-se, ao ser examinada, distância irremediável.

  • O homem “natural” sustenta as duas pontas da corrente, crendo que a percepção entra nas coisas e se faz aquém do corpo; no uso da vida as convicções coexistem, mas reduzidas a teses se destroem.

6. O corpo, encenador da percepção, já rompeu a ilusão de coincidência com as coisas: não é ele que percebe, mas não percebo sem sua permissão, e a reflexão da mão que toca a outra aborta no último momento, embora o corpo seja construído em torno da percepção que desponta através dele. Os outros homens, que vejo verem e que me veem ver, ampliam o paradoxo: não posso deixar de pôr sua percepção atrás de seu corpo, e a coisa percebida por eles se desdobra entre a que percebem, Deus sabe onde, e a que vejo, a “coisa verdadeira”, enquanto eles fazem o mesmo comigo. Vista de fora, a percepção desliza sobre as coisas sem tocá-las, e cada um teria um mundo privado, que não é o mundo único, o mundo comum (κοινὸς κόσμος).

7. Resta saber sobre o que se abre a percepção e como descrever a vivência de outrem, que não é nada para mim, pois creio em outrem e ela contém uma visão dele sobre mim. O rosto conhecido, o sorriso e a voz podem reduzir-se a espetáculo, mas, quando o insólito surge no diálogo ou uma resposta responde bem demais ao que eu pensava, a evidência explode de que ali também a vida é vivida: outro mundo privado transparece através do meu, e por um momento vivo nele. A atenção me persuade de que esse outro é feito de minha substância, mas meu mundo privado deixou de ser só meu e tornou-se instrumento de que outro toca, dimensão de uma vida generalizada.

8. Só se alcança a vida de outrem em seus fins, em seus polos exteriores: é no mundo que nos comunicamos, pela grama diante de mim, pela música, pela própria coisa, que é sempre a coisa que vejo. A intervenção de outrem acrescenta ao paradoxo da percepção o enigma da propagação de minha vida mais secreta nele, e os mundos privados comunicam-se como variantes de um mundo comum, assim como a sinergia dos olhos os suspende a uma coisa única. Essa certeza, porém, irresistível, permanece obscura: pode ser vivida, mas não pensada nem erigida em tese.

9. Essa certeza injustificável de um mundo sensível comum é em nós a base da verdade: a criança percebe antes de pensar, e a filosofia não pode ignorar a gênese de seu próprio sentido, pois o mundo sensível, visível e relativamente contínuo, é “mais velho” que o universo do pensamento, invisível e lacunar. A experiência do verdadeiro, como a da coisa e de outrem, passa por uma experiência emocional e quase carnal, e um verdadeiro diálogo faz aceder a pensamentos de que não se era capaz; é por empréstimo à estrutura de mundo que se constrói o universo da verdade, e invocar um lugar inteligível (τόπος νοητός) comum aos espíritos não é mera analogia, pois é o mesmo mundo, lugar da compossibilidade e estilo invariável das coisas, que contém corpos e espíritos. Contudo, essa certeza, forte na prática, é fraca como tese: no visível, os fatos restabelecem a concordância, mas no invisível os homens parecem habitar cada um sua ilhota, e nada é mais improvável que tratar como um mundo sem fissuras o universo da verdade.

  • Falamos e compreendemos a fala muito antes de aprender com Descartes que nossa realidade é o pensamento, e manejamos a língua muito antes de conhecer os princípios da linguística.
  • As opiniões instituídas, como a Madeleine ou o Palácio de Justiça, são monumentos da paisagem histórica mais que pensamentos; e cada homem começou como um frágil amontoado de geleia viva.
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