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estudos:merleau-ponty:1945:1.5

1.5 Corpo sexuado

MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).

O CORPO COMO SER SEXUADO

1. Para evidenciar a função primordial pela qual o sujeito faz existir para si o espaço, o objeto ou o instrumento, e descrever o corpo como lugar dessa apropriação, não basta considerar a coisa percebida, pois a natureza se dá como existente em si, independente de ser percebida. É preciso examinar o setor da experiência que só tem sentido e realidade para nós, o meio afetivo: ver como um ser passa a existir pelo desejo ou pelo amor esclarece como os seres existem em geral.

2. A afetividade não é um mosaico de estados de prazer e dor ligados por associações e transferências, e o caso de Schneider mostra que a falha da sexualidade não se reduz à perda de representações nem ao enfraquecimento do prazer. Entre o automatismo e a representação há uma zona vital, um Eros ou Libido que anima um mundo original e dá significação sexual aos estímulos. A sexualidade é uma intencionalidade original que visa um corpo através de outro corpo, no mundo e não numa consciência, e que se apoia no “arco intencional” que se afrouxa no doente.

  • Schneider nunca busca o ato sexual, imagens e conversas não lhe despertam desejo, as reações são estritamente locais e o ciclo se apaga se interrompido.
  • Se a sexualidade fosse um aparelho reflexo autônomo, a lesão cerebral deveria liberar os automatismos; no normal, o corpo visível é sustentado por um esquema sexual individual, enquanto para Schneider os corpos femininos “são todos semelhantes”.
  • Há uma “compreensão” erótica distinta do entendimento: o desejo compreende cegamente, ligando um corpo a outro; para Schneider, também os rostos não são simpáticos nem antipáticos, e o mundo é afetivamente neutro.

3. A sexualidade não é um ciclo autônomo, mas está em relação de expressão recíproca com o ser que conhece e age. A psicanálise, mais que explicar o homem pela infraestrutura sexual, reintegra a sexualidade ao ser humano e faz da libido o poder geral de aderir a meios e adquirir estruturas de conduta, aquilo pelo qual um homem tem uma história. Isso, porém, não autoriza dissolver a sexualidade na existência nem o inverso: viver (leben) é uma operação primordial a partir da qual se vive (erleben) um mundo, e a existência pessoal retoma a existência anônima da visão, da audição e da sexualidade, sem que o corpo seja envoltório transparente do Espírito.

  • A frigidez, raramente anatômica, costuma traduzir a recusa do orgasmo, da condição sexuada ou do parceiro e do destino que ele representa; segundo Freud, todo ato humano “tem um sentido”.
  • Uma vida política eficaz pode acompanhar uma sexualidade arruinada, e Casanova pode ter perfeição técnica sem vigor particular do ser no mundo: a sexualidade é um signo, mas um signo privilegiado.

4. A afonia de uma jovem proibida de rever quem ama exprime a recusa da coexistência, já que a fala é a função corporal mais ligada à vida em comum. O sintoma não é paralisia nem silêncio voluntário: o corpo não traduz um estado interior, mas é habitado pela significação, como o retrato é quase presença do ausente. Pelo recurso à generalidade, pode-se ignorar algo sabendo-o, e sintoma e cura se elaboram abaixo da consciência tética, como o sono que “vem” pousar sobre a imitação que se lhe oferece.

  • A jovem não consegue “engolir” a proibição, e a dificuldade de deglutir simboliza a existência que já não assimila os acontecimentos.
  • O pitiatismo é uma doença do cogito, consciência ambivalente; a jovem “perde” a voz como se perde uma lembrança, e o homem que esquece numa gaveta o livro dado pela esposa o reencontra ao reconciliar-se com ela.
  • A hipocrisia metafísica, que se engana a si mesma por meio da generalidade, faz parte da condição humana; a afonia e o amuo, ao durar, tornam-se consistentes como coisas, e a decisão que os interromperia vem de mais baixo que a vontade.
  • Um contato da mão às vezes devolve a fala, e a tomada de consciência só age pela relação pessoal com o médico; a liberdade se apoia no ser em situação e é ela mesma uma situação.

5. O papel do corpo é transformar ideias em coisas, pois ele realiza a existência e segue seu duplo movimento de sístole e diástole. Pode fechar-se ao mundo e tornar-se “o esconderijo da vida”, mas por isso mesmo é também o que abre ao mundo e põe em situação. Mesmo isolado, nunca se torna inteiramente coisa: a existência corporal é o esboço de uma verdadeira presença ao mundo e firma o primeiro pacto com ele, exprimindo a existência como a fala exprime o pensamento, num sentido encarnado de que corpo e espírito são momentos abstratos.

  • A doente reencontra a voz não por esforço intelectual, mas por uma conversão em que todo o corpo se reúne, como se procura um nome esquecido “na ponta da língua”.
  • Absorvido nas sensações, o sujeito ainda é atravessado por intenções; a existência corporal, trabalhada por um nada ativo, faz continuamente a proposta de viver, e o corpo é “a forma oculta do ser si mesmo”.

6. A relação entre expressão e expresso não tem sentido único: corpo e existência pressupõem-se, sendo o corpo existência coagulada e a existência encarnação perpétua. Pudor, desejo e amor têm significação metafísica porque exprimem a dialética entre o eu e o outro, e a sexualidade está presente na vida como atmosfera, numa osmose com a existência que torna impossível separar o motivo sexual dos demais. A existência, como transcendência que retoma e transforma uma situação de fato, é indeterminada em si, e nela não há posse incondicionada nem atributo fortuito: ninguém está inteiramente salvo nem inteiramente perdido.

  • Ter um corpo é poder ser visto como objeto e buscar ser visto como sujeito; o desejo quer fascinar, e deseja-se não um corpo, mas um corpo animado por uma consciência.
  • A sexualidade não é transcendida nem representada por conteúdos inconscientes: no sonho, a excitação genital torna-se de imediato a imagem de um muro escalado, e a sexualidade irradia como um odor ou um som.
  • Um homem sem mãos ou sem sexo só é concebível se se tomam os órgãos como matéria e o homem como pura cogitatio; tudo no homem é necessidade e tudo é contingência, pois o homem é uma ideia histórica, e não uma espécie natural.
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