Möglichsein – possibilidade
Sobre a pertença intrínseca da possibilidade à essência Não apenas do animal, mas do ser vivo em geral, ver em particular o curso de 1929-30 Die Grundbegriffe der Metaphysik: Welt—Endlichkeit—Einsamkeit. Gesamtausgabe Bd. 29/30. (Frankfurt: Klostermann, 1983). Traduzido por William McNeill e Nicholas Walker como The Fundamental Concepts of Metaphysics: World, Finitude, Solitude (Bloomington: Indiana University Press, 1995). Aqui, trata-se mais uma vez da atualidade da possibilidade — esta última concebida como capacidade (Fähigsein) —, em que a possibilidade não deve ser concebida como mera possibilidade lógica e a atualidade da possibilidade não deve ser reduzida ao desenvolvimento ou à realização efetiva dessa capacidade:
Em última análise, a possibilidade e a potencialidade (Möglichsein und Können) pertencem precisamente à essência do animal em sua atualidade, em um sentido bastante específico — não apenas no sentido de que tudo o que é atual, na medida em que é, já deve ser possível como tal. Não é essa possibilidade, mas sim o ser capaz que pertence ao ser atual do animal, à essência da vida. Somente algo que é capaz e permanece capaz está vivo. (GA 29/30 343; Metafísica 235)
Correlativo a esse sentido de ser capaz como intrínseco à essência da vida em geral está a possibilidade da morte e de estar morto:
Algo que não é mais capaz, independentemente de uma capacidade ser usada ou não, não está mais vivo. Algo que não existe na forma de ser capaz também não pode estar morto. A pedra nunca está morta, porque seu ser não é um ser capaz (…) “Matéria morta” é um conceito sem sentido. Ser capaz não é a possibilidade do organismo como algo distinto de algo real, mas é um momento constitutivo da maneira como o animal como tal é — de seu ser.” (GA 29/30 344; Metafísica 236)
Mais uma vez, é significativo que Heidegger possa aqui, neste nível da análise, alternar, aparentemente sem problemas e sem dificuldades, entre o animal e a essência da vida em geral; e onde podemos falar da atualidade da possibilidade como determinante da vida em geral, também podemos falar da morte em geral, da morte como uma possibilidade da vida. No entanto, apenas aparentemente sem problemas: em outro nível de análise, Heidegger problematizará precisamente “se a morte e a morte são as mesmas no caso do homem e do animal”, portanto, se a vida e a vida são as mesmas, se (a atualidade da) possibilidade e a possibilidade são as mesmas (GA 29/30 388; Metafísica 267). E Heidegger prossegue aqui distinguindo entre “morrer” (Sterben) como uma possibilidade do ser humano e “chegar ao fim” ou “perecer” (Verenden) como a única possibilidade do animal em relação à sua morte. Em questão aqui, portanto, está, em última análise, o ser da possibilidade, a maneira pela qual a possibilidade “é” como uma relação do ser. A possibilidade, Heidegger tentará mostrar (já neste curso de 1929-30), pode ser dada como possibilidade, como sendo possibilidade, somente onde há logos, e somente aí a possibilidade da impossibilidade pode ser revelada, portanto, uma relação com a morte como ou em termos de possibilidade. O ser do logos em si coincide com o caráter projetivo do Dasein, com sua “irrupção” na possibilidade, uma irrupção que rompe a própria possibilidade, literalmente a desmonta, a disseca e só assim é capaz de reuni-la como tal. Aqui, podemos apenas observar de passagem que essa questão do ser da possibilidade em relação ao logos será analisada de forma mais incisiva por Heidegger no semestre de verão de 1931, no curso sobre o ser e a atualidade da “força” ou dynamis em relação à análise de Aristóteles em Metafísica Θ. Ver Aristóteles, Metafísica Θ 1-3: Von Wesen und Wirklichkeit der Kraft. Gesamtausgabe Bd. 33. (Frankfurt: Klostermann, 1990). Traduzido como Aristotle’s Metaphysics Θ 1-3: On the Essence and Actuality of Force, por Walter Brogan & Peter Warnek (Bloomington: Indiana University Press, 1995). Devemos observar, além disso, que Heidegger manterá a distinção entre “morrer” (como uma possibilidade do ser humano) e “perecer” (como a possibilidade do animal) ao longo de sua obra posterior, e fundamentará essa distinção no fenômeno do “como”, possibilitado pelo logos ou pela essência da linguagem. Por exemplo, no ensaio “Das Ding” (1950), onde ele escreve: “Os mortais são os seres humanos. Eles são chamados de mortais porque podem morrer (sterben können). Morrer significa: ser capaz da morte como morte (den Tod als Tod vermögen). Somente o humano morre. O animal perece”, em: Vorträge und Aufsätze (Pfullingen: Neske 1985), 171. Traduzido por Albert Hofstadter em Poetry, Language, Thought (Nova York: Harper & Row, 1971), 178. Ou no ensaio “Das Wesen der Sprache” (1957-58): “Os mortais são aqueles que podem experimentar a morte como morte. O animal não é capaz disso. No entanto, o animal também não pode falar. A relação essencial entre a morte e a linguagem brilha diante de nós, mas ainda não foi pensada.” Em unterwegs zur Sprache (Pfullingen: Neske, 1979), 215. Traduzido por Albert Hofstadter em On the Way to Language (Nova York: HarperCollins, 1982), 107. Para uma exploração de alguns dos desafios dessa delimitação entre o humano e o animal, ver especialmente Jacques Derrida, De l’esprit (Paris: Galilée, 1987), e David Farrell Krell, Daimon Life: Heidegger and Life-Philosophy (Bloomington: Indiana University Press, 1992).
