Filosofia
(MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001)
1. Ao comentar a conferência Que é a Filosofia?, lembra-se o abalo sísmico que foi para os gregos, e apenas para eles, o advento da filosofia, correspondendo ao espanto (τὸ θαυμάζειν) que Platão descrevia no Teeteto como origem única da filosofia, entendendo Heidegger o πάθος grego não como sentimento, mas como Stimmung, “tonalidade” ou “disposição”, sendo o espanto a tonalidade originária pela qual o ser do ente se abriu aos filósofos gregos, e filosofar, permanecer nessa tonalidade em correspondência (Entsprechung) com a abertura do ser.
2. Ainda que toda verdadeira filosofia guarde memória desse abalo inaugural, permanece dentro da mesma tonalidade a despeito das rupturas que instaura, não consistindo o revolvimento trazido por Heidegger, desde 1927, em passar de um Stimmung a outro ou alcançar uma espécie de atonalidade metafísica, o que se ilustra pela analogia com a música ocidental, fundada no sistema harmônico tonal regido pelo acorde perfeito e pela hierarquia entre tônica, subdominante e dominante.
3. Esse sistema foi abalado por Schönberg na esteira do cromatismo wagneriano, suspendendo a atonalidade livre todas as funções tonais em favor do uso igualitário dos doze semitons, podendo-se dizer por analogia que a atonalidade desconstruiu o universo tonal tal como os pensadores pós-modernos desconstruíram a metafísica ao recusar a primazia da tônica que é o “ser” e a tonalidade geral do “logocentrismo”.
4. Contudo, a dissolução das leis tonais não impediu Schönberg de instituir novas regras na atonalidade, constituindo música “de doze sons” que permanece dependente do ciclo de quintas sobre o qual repousa a tonalidade, evoluindo o próprio compositor para um “dodecafonismo tonal”, de modo que a atonalidade se situa na continuidade da tonalidade, tal como uma eventual superação da tonalidade metafísica reconstituiria, sobre os destroços do ser, novos centros tonais.
5. Toda a música ocidental, cuja culminação foi a forma sonata, permaneceu fiel a uma concepção da temporalidade linear que impõe ordem ao caos, sendo difícil desprender-se totalmente dela, como atestam até as músicas pós-modernas da equitemporalidade, obrigadas a organizar o material sonoro, a exemplo das obras silenciosas de John Cage, rigorosamente divididas em intervalos de tempo apesar da ausência de som.
6. Não é esse, contudo, o projeto de Heidegger, que jamais buscou quebrar o centro tonal da metafísica nem derrubar o ser, propondo o passo atrás do “outro pensamento” fazer exatamente o contrário do passo adiante da metafísica: em vez de superar a tonalidade rumo à atonalidade, busca retornar à Grundstimmung, à tonalidade fundamental do Ser, movimento em espiral que sempre conduz a esse único centro, segundo observação de George Steiner.
7. Não se trata de superar a tonalidade do espanto diante do ser do ente, mas de retornar àquilo que tonaliza o Ser, aquém mesmo do espanto, a essa Grundstimmung primitiva cujos ecos talvez só Heidegger tenha sabido perceber, buscando a disposição fundamental do outro pensamento não uma atonalidade do ser, mas uma correspondência entre o apelo inicial do Ser e nossa disponibilidade de escutá-lo, distinta irredutivelmente da tonalidade do espanto filosófico.
8. A topologia do ser, que não se confunde com a topografia do niilismo enquanto superação trans lineam rumo a uma atonalidade última, consiste numa marcha de retorno a esse sítio (Ort) onde tonalidade e atonalidade estariam mutuamente inscritas, encontrando o tetramorfismo da metafísica, ao qual Heidegger permaneceu fiel desde sua leitura de Aristóteles através de Brentano, seu lugar numa quadruplicidade mais inicial que comanda secretamente o τετραχῶς, sendo a tonalidade fundamental do outro pensamento, forro da tonalidade do espanto, a disposição da serenidade (Gelassenheit).
9. Sabe-se, desde o curso sobre A Germânia e O Reno, que a Grundstimmung do pensamento é a harmonia das quatro potências da origem, nomeadas em 1935, na língua do poeta, Nascimento, Raio de luz, Urgência e Elevação, e depois, em 1949, em palavra mais sóbria, Terra, Céu, Divinos e Mortais, sendo esse retorno ao advento da tonalidade fundamental mais enigmático que a atonalidade de uma desconstrução que permanece na linhagem da ordem tonal que recalca.
10. Coloca-se a questão de onde se situaria o pensador que busca localizar o horizonte metafísico ao experimentar a Grundstimmung da Stimmung filosófica, questão respondida simplesmente pelo caminho de campo que, através do mesmo campo delimitado pelo horizonte metafísico, coloca de imediato o viajante em presença do mundo, não sendo exclusiva a proximidade das coisas do afastamento dos entes.
11. Parece vão buscar em qual autor já estabelecido na paisagem metafísica Heidegger teria bebido sua inspiração do mundo como Quadripartido, tendo Heidegger mesmo recusado, em carta a um estudante, a questão de onde o pensamento do ser recebia sua direção, sendo o Ser a direção que toma o caminho do pensador através do campo ao meditar a lição brentaniana de Aristóteles sobre as quatro significações do ser, já anunciada no §22 de Sein und Zeit pelas Himmelsgegenden, as “regiões celestes” ou pontos cardeais que se abrem segundo os quatro momentos do nascer, meio-dia, ocaso e meia-noite.
12. Beda Allemann e Otto Pöggeler viram em Hölderlin a inspiração maior de Heidegger, e Paul de Man não hesitou em dizer que Heidegger citava o poeta como um crente cita a Escritura, não sendo difícil encontrar o esboço dos Quatro na obra poética de Hölderlin, notadamente na “comunidade divina” evocada por Diotima em A Juventude de Hyperion, aproximando as potências elementares da terra bem-amada, da deusa solar, do éter e do espírito da água, além dos trechos de Hyperion e de L'Unique sobre a coexistência dos Divinos e dos viventes ao longo do tempo.
13. Por mais decisiva que tenha sido, a incitação de Hölderlin a pensar em direção ao Geviert não foi suficiente, pois ninguém além de Heidegger teria a ideia de detectar nos poemas hölderlinianos a reunião de quatro potências jamais reunidas numa figura quadripartida nomeada; podem-se ainda evocar, com Jean Beaufret, Walter Otto e sua oposição entre o mundo hesiódico de Terra e Céu e o mundo homérico do Olimpo, e Hans Jantzen sobre o espaço interior da igreja gótica, cuja cruzeiro do transepto (Vierung) Heidegger comparou expressamente à “unidade do Quadripartido”.
14. A analogia mais perturbadora é a do Geviert heideggeriano de A Coisa com a koinonia platônica do Górgias, onde Sócrates evoca a comunidade (κοινωνία) que liga Céu e Terra, Deuses e Homens, dando a esse universo o nome de cosmos, tendo Heidegger, contudo, recusado reconhecer nessa figura platônica a proveniência de seu próprio Geviert, declarando a Jean Beaufret que os Quatro estavam ali enumerados, mas o Quadripartido estava ausente — o que oculta que Platão nomeia essa comunidade “igualdade geométrica”, justiça cósmica situada no centro do mundo, ao cruzamento das quatro rotas da terra e do céu.
15. Heidegger recusa reconhecer a filiação platônica de sua Fundamentalfrage porque Platão, ao fixar o ponto de parada do thaumazein na alma do filósofo, teria traçado o horizonte da metafísica com o compasso do homem, antes que Aristóteles quadriculasse o terreno com o tetramorfismo da causa; para ambos, contudo, há apenas um mundo, mas dois olhares distintos — o que vê o mundo a partir de uma luz que invade a clareira da floresta, e o que abre o mundo a partir de uma clareira que convoca o céu a nela depositar sua luz.
16. À orla da metafísica, Platão converte a guarda da clareira em olhar da Ideia e reduz o mundo a um horizonte percorrido pela luz; ao declínio da metafísica, Heidegger volta as costas ao horizonte para retornar à penumbra, esperando que a altura do mundo se disponha por si mesma ao olhar da clareira, mudança súbita de acentuação — um olhar-relâmpago (Einblick) — que faz passar da luz clara à clareira, ou da metafísica ao outro pensamento.
17. As fórmulas heideggerianas que articulam o quiasma dos dois olhares — presença pertencendo à clareira do retraimento, clareira do retraimento trazendo consigo a presença — deixam reconhecer a quadridimensionalidade de Ser e Tempo, já pressentida na reviravolta inacabada de Sein und Zeit em Zeit und Sein, retomada no curso sobre O Ister e na conferência Tempo e Ser, assegurando a pertença mútua no Zeit-Spiel-Raum das potências do “espaço” — Terra e Céu — e do “tempo” — Deuses e Homens.
18. O que Heidegger reprova a Platão por não ter percebido é o centro, der Mitte, origem quinta ou primeira a partir da qual os Quatro se cruzam em estrela, retirando-se a unidade reunidora no cerne da junção da partilha dos Quatro e ainda assim dando o impulso ao destino, tal como já se viu no diagrama das potências da origem em O Reno.
19. Encontra-se ilustração final nas enumerações em cinco pontos que, em diversos textos, enunciam os traços determinantes do Ser pensados a partir do centro da cruz, já presentes em A Origem da Obra de Arte ao evocar as cinco maneiras pelas quais a verdade, ou o Ser, se instituía no ente.
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uma maneira essencial: a verdade se pondo em obra (a arte)
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uma outra maneira: o gesto que funda uma cidade (a política)
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ainda uma outra maneira: a proximidade do mais ente de todos os entes (a religião)
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ainda uma outra maneira: o sacrifício essencial (o sagrado)
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ainda uma outra maneira: o questionamento do pensamento (a dignidade do Ser)
20. Heidegger leva mais adiante a analogia com o Geviert e seu ponto de emanação ao apresentar, na Introdução à Metafísica de 1935, os quatro traços da decadência espiritual da terra — o obscurecimento do mundo (Céu), a fuga dos deuses (Divinos), a destruição da terra (Terra), a gregarização dos homens (Mortais) —, correspondendo tais traços às quatro regiões do Geviert e ao classamento posterior de A Sentença de Anaximandro, de 1946, onde se apresenta uma verdadeira genealogia do ente percorrendo um ciclo completo de cinco modos: “o grego, o cristão, o moderno, o planetário e o hesperial, pensamo-los a partir de um traço fundamental do Ser.”
21. Se o Ser, em cada época, se retira para deixar dominar um traço maior do ente — em retenção que o grego chama ἐποχή —, há cinco épocas do Ser, da aurora grega ao poente hespérico, correspondendo esses cinco espaços, traço por traço, às quatro dimensões do Geviert e ao seu destino comum.
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o modo grego: Céu (abertura do mundo)
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o modo cristão: Deus (retraimento dos Divinos)
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o modo moderno: Terra (obscurecimento da terra)
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o modo planetário: Mortais (gregarização do homem)
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o modo hesperial: Destino
22. Se estamos, em nossa época tardia, “às vésperas de uma Noite para uma nova Manhã”, os crepúsculos matutino e vespertino podem cruzar-se num novo partilhar da Noite e do Dia, retirando-se o Ser para preparar a “futurição do homem” e fazer advir as fases sucessivas do Jogo do mundo, guiando ainda as vozes do destino os caminhos do viajante rumo à sua última morada quando ele se acorda à Grundstimmung silenciosa, na Noite do mundo.
23. Hermann Heidegger leu cinco excertos dos poemas de Hölderlin diante do túmulo aberto de seu pai — Pão e Vinho, Aos Alemães, Conciliador, a quem ninguém jamais creu…, Os Titãs, Pão e Vinho novamente —, deixando ressoar as vozes do destino que cruzam até o fim o diálogo póstumo entre poeta e pensador: “Rumo às estrelas leva o olhar”; “Pensar é limitar-se a uma única ideia que um dia permanecerá como uma estrela no céu do mundo.”
