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SEM-SI
MARQUES CABRAL, Alexandre. Niilismo e Hierofania: Uma abordagem a partir do confronto entre Nietzsche, Heidegger e a tradição cristã. Rio de Janeiro: Mauad X, 2014
Da supressão do em-si à lógica da relação
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O capítulo anterior relacionou morte de Deus, niilismo e linguagem, mostrando que a linguagem não é instrumento de representação do estado de fato dos objetos, mas lugar de produção do próprio real – de modo que o “em-si” dos entes sempre se conformou como “para-nós”, e a morte de Deus abre um novo horizonte hermenêutico de tematização do mundo baseado na “lógica da relação”.
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Um fragmento póstumo de Nietzsche da primavera de 1888 marca o lugar de articulação de seu pensamento após a radicalização ontológica da morte de Deus: “Parmênides disse: 'não se pensa o que não é' – nós estamos na outra extremidade e dizemos: 'o que pode ser pensado há de ser, necessariamente, uma ficção'”.
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Em A filosofia na idade trágica dos gregos, Nietzsche concebe Parmênides como “um profeta de verdade” cuja luz “queima”, por ter sido “o menos grego de todos, nos dois séculos de era trágica” – o primeiro que “produziu a teoria do ser” – ao elevar a tautologia A=A a princípio de legitimação do discurso filosófico.
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Parmênides partiu de um problema de Anaximandro – para quem o princípio (archê) dos entes é o indefinido (apeiron), fonte do devir e princípio dissolutivo dos arranjos estáveis dos entes, cuja necessidade é a voz da justiça do Uno-primordial – mas reposicionou a questão a partir de um viés lógico.
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Com a identificação entre pensar e ser – “Pois pensar e ser é o mesmo” –, Parmênides reduziu o mundo a um elemento absoluto, permanente, eterno, imutável, imbuído do imperativo da deusa: “Necessário é o dizer e pensar que (o) ente é; pois é ser, e nada não é”.
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A consequência foi identificar devir, não-ser e ilusão – os sentidos, que intuem o devir, tornaram-se empecilhos: “Não acreditais nesses olhos estúpidos (…) mas examinai tudo com a força do pensamento” –, o que, segundo Nietzsche, “destruiu o próprio intelecto e encorajou a cisão inteiramente errônea entre 'espírito' e 'corpo' que, sobretudo desde Platão, pesa como uma maldição sobre a filosofia”.
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Como a linguagem emerge das relações singulares entre homens e entes – e “as palavras não passam de símbolos para as relações das coisas entre si e conosco, nunca afloram algures a verdade absoluta” –, o conceito de ser parmenidiano, ao abstrair-se dessa relação, é destituído de sentido.
Em oposição a Parmênides, Heráclito é concebido por Nietzsche como pensador plenamente intuitivo que “negou a dualidade de mundos inteiramente diversos” e “negou, em geral, o ser” – tornando o devir o semantema primário dos entes e assinalando a copertença originária de ser e devir.-
A sentença de Heráclito – “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos” – diz o mundo segundo sua aparição para a intuição, e a agonística que determina o devir não extermina o jogo de oposições, mas engendra a harmonia: “Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia”.
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Nietzsche relaciona a agonística de Heráclito com a boa Éris de Hesíodo – que “desperta até o indolente para o trabalho” e estimula a emulação saudável entre mortais: “o oleiro ao oleiro cobiça, o carpinteiro ao carpinteiro, o mendigo ao mendigo inveja e o aedo ao aedo” – transpondo-a para a dinâmica de realização do mundo como espaço de desdobramento das singularidades.
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O pólemos heraclitiano – “O combate é de todas as coisas pai, de todas rei, e uns ele revelou deuses, outros, homens; de um fez escravos, de outros livres” – identifica-se, para Nietzsche, com a boa Éris, e o símbolo do fogo assinala que “o um é o múltiplo”: unidade que permeia a gênese do múltiplo através do jogo deveniente.
A ficção nietzschiana não se opõe à verdade, mas designa a textura ontológica da identidade não metafísica do ente: o que o ente é não corresponde a nenhuma essência a priori, mas é resultado de um processo produtivo destituído de instâncias metafísicas – e a verdade aparece como aquiescimento ao caráter fictício das identidades dos entes em geral.A morte de Deus, sob a perspectiva metafísica, subtrai a possibilidade de acessar instâncias ontológicas não devenientes que funcionavam como causa explicativa dos fenômenos – e o mundo que restou da supressão do “em-si” passa a estruturar-se através dos arranjos instáveis dos múltiplos elementos pertencentes ao âmbito fenomênico, tornando o conceito de relação essencial para compreender o modo de estruturação do mundo.A compreensão tradicional de relação – paradigmaticamente representada pelo aristotelismo-tomismo – pressupõe a ousia como princípio constitutivo previamente dado: “a relação é um acidente 'sui generis', um ser para (esse ad), que não se identifica com o seu fundamento”, nas palavras de Steenberghen – e, para o neotomista Raeymaeker, “cada ser particular possui em si mesmo existência: é um em si (…) toda relação supõe necessariamente a subsistência”.-
Para o tomismo, inserido na cosmovisão cristã da creatio ex nihilo, o mundo é uma rede relacional hierárquica projetada por Deus, onde as relações são condicionadas pela especificidade das substâncias em jogo – os relata condicionam a relação, e não o contrário.
Em Nietzsche, o conceito de relação aparece desconectado da ousia e de qualquer gênero supremo do ente – a relação passa de acidente a princípio essencial, e é a partir dela que as múltiplas conformações dos entes são engendradas: todo real é relacional, e nada do real situa-se aquém ou além desse jogo relacional.-
Se nada substancial sustenta esse jogo, ao mundo pertence o devir como caráter ontológico – todas as conformações entitativas estão abertas a reconfigurações, e a elas pertence certa agonística, pois somente o caráter conflitivo das relações explica as reconfigurações possíveis do mundo.
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Ficção ou ilusão indica, assim, o modo de ser do mundo que se determina por um jogo deveniente de múltiplas relações destituídas de suportes metafísicos – pois se o “em-si” sempre fora considerado verdadeiro, o mundo produzido por relações transitórias é, por oposição, ficção.
A “lógica da relação” constitui o novo horizonte hermenêutico emergente da assunção da morte de Deus e é de onde advêm os múltiplos conceitos nietzschianos de sua obra tardia: semelhante a Heráclito ao assumir pluralidade, devir, agonística e unidade, Nietzsche os radicaliza pela dissolução do “em-si” parmenidiano e pela assunção do caráter autocriativo do mundo.estudos/marques-cabral/2014/2014-15-17-em-si.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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