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Acontecimento
MARION, Jean-Luc. De surcroît: études sur les phénomènes saturés. Paris: PUF, 2010.
Capítulo II: O evento ou o fenômeno que advém
I - O que se mostra e o que se dá
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Todo fenômeno aparece na medida em que se mostra a partir de si mesmo, mas Heidegger deixou indeterminado como pensar o “si mesmo” nesse processo, uma vez que, se um Eu transcendental o constitui como objeto, sua fenomenalidade torna-se derivada da intencionalidade e da intuição que lhe são conferidas.
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Para que um fenômeno se mostre legitimamente, é necessário reconhecer-lhe um “si mesmo” que tome a iniciativa de sua manifestação, o que implica que ele deve primeiro se dar para, então, poder se mostrar, ainda que a recíproca não seja exata, pois nem tudo o que se dá consegue se manifestar.
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Como a doação não pode ser vista diretamente, pois precede a visibilidade, a única via de acesso a ela é identificar, no espaço da manifestação, regiões onde os fenômenos se mostram por si mesmos, em vez de serem simplesmente mostrados como objetos, e onde o “si mesmo” do fenômeno atesta o impacto da doação originária.
A hipótese central é que os fenômenos do tipo evento guardam em si a marca de sua doação, distinguindo-se dos objetos por não resultarem de uma produção previsível e reproduzível, mas por surgirem de uma origem imprevisível, atestando, em seu próprio modo de fenomenalização, o “si mesmo” da doação.-
A objeção de que tais eventos são raros e impróprios para a análise da manifestação pode ser questionada, pois mesmo uma sala de aula comum, como a Salle des Actes, pode aparecer como um evento sob três aspectos: pelo passado, como um fato inesperado que já estava lá, surgindo de um passado desconhecido e incontornável; pelo presente, como uma ocasião única e irrepetível, onde o que advém é o evento impalpável da fala e da atenção; e pelo futuro, como algo impossível de descrever exaustivamente, pois sua hermenêutica se desdobraria em uma rede indefinida de consequências e interpretações.
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Essa análise do fenômeno banal mostra que o “se mostrar” pode abrir um acesso indireto ao “si mesmo” do “se dar”, pois o evento da sala nos afeta e nos modifica a partir de seu próprio “si mesmo”, colocando-nos em cena na cena aberta por sua doação.
II - O si mesmo do fenômeno
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A interpretação de um objeto como um evento levanta a objeção de que, se levada ao extremo, todo objeto poderia ser descrito como evento, mas a questão deve ser invertida para perguntar como o caráter essencialmente eventivo do fenômeno pode se atenuar a ponto de restar apenas um objeto.
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Segundo Kant, a categoria da quantidade impõe aos fenômenos uma grandeza extensiva, tornando-os previsíveis como a soma de suas partes, o que os reduz a objetos que podem ser intuídos antecipadamente e, portanto, dispensados da visão plena, sendo previstos em vez de vistos.
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O objeto é um fenômeno decaído porque nada de novo pode acontecer nele, aparecendo como a sombra do evento que lhe é negado, mas é possível reverter a análise e remontar do objeto à sua fenomenalidade originária, governada pela eventividade, como demonstrado na descrição da sala como um evento tríplice.
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Os fenômenos coletivos, como revoluções ou guerras, são qualificados como eventos por serem irrepetíveis, não terem uma causa única ou explicação exaustiva e serem imprevisíveis, mas essas três notas também caracterizam fenômenos privados, como a amizade entre Montaigne e La Boétie.
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A amizade, como evento, impõe um olhar que se submete ao ponto de vista do outro, realiza-se de um só golpe, sem anúncio, e seu sentido último permanece inacessível, sem causa ou razão além de si mesma, mostrando-se, portanto, como um evento puro que se dá sem reservas.
III - O tempo do si mesmo
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O caráter universal e intrínseco da eventividade de todo fenômeno leva à conclusão de que ele se temporaliza, mas essa conclusão não é a mesma de Kant, pois, para este, a temporalidade serve à síntese dos objetos, enquanto, na análise proposta, ela opera a chegada do incidente e permite compreender a fenomenalidade como evento, contra toda objetividade.
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Além disso, em Kant, o Eu transcendental, que opera a síntese, não se fenomenaliza como evento, mas a análise aqui busca estabelecer fenômenos que, ao se temporalizarem como eventos, provoquem o ego a se fenomenalizar segundo essa mesma eventividade.
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A morte é um fenômeno que só se fenomenaliza ao passar, pois não é, a não ser que aconteça, mas a morte do outro, embora seja um evento puro, não implica diretamente o ego, e a própria morte, embora envolva totalmente o ego, coloca a aporia de que não se pode vê-la enquanto se está vivo.
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A ignorância sobre o que a morte dá, se um evento ou um nada de fenomenalidade, caracteriza a condição humana, e o evento da morte, o mais próximo, permanece inacessível, com sua doação pura sobre a fenomenalidade, sendo puro demais para se mostrar como evento perfeito.
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O tempo, por sua vez, advém como evento, e Husserl define o tempo a partir de uma “impressão originária” que surge como presente puro e, por advir, passa continuamente para a retenção, escapando à objetidade e sendo o único “não-modificável absoluto”, onde o movimento do “se dar” se realiza quase sem deixar ocasião para o “se mostrar”.
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O nascimento é o fenômeno que se mostra verdadeiramente como “se dar” de modo eventivo, pois, embora nunca seja visto diretamente, é continuamente visado e preenchido por intuições, mostrando a “não-originariedade originária da origem”, mas afetando o ego mais radicalmente que qualquer outro fenômeno, determinando-o e produzindo-o.
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O nascimento se fenomenaliza como evento puro, imprevisível e irrepetível, que excede toda causa e torna possível o impossível, demonstrando que a fenomenalidade deriva diretamente do “se dar”, e que um fenômeno pode se dar sem se mostrar, afetando o ego ao lhe dar a si mesmo antes mesmo de ele existir para se afetar.
IV - O ego na redução ao dado
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O fenômeno, em sua eventividade radical, reduz-se ao dado, que, por se dar de uma só vez, como um evento, deixa o ego sem palavras e o transforma em um “adonné”, um recebedor que se recebe a partir do que recebe, destituído da púrpura transcendental.
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O “si mesmo” do fenômeno, ao se dar, confisca a função e o papel do “si mesmo” para si, relegando o ego a um “eu” de segundo escalão, derivado, e a análise recusa qualquer pretensão transcendental do Eu, admitindo-o apenas como um adonné.
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A objeção à redução ao dado é que ela se torna uma contradição performativa, pois se priva do operador da doação, mas toda redução modifica essencialmente seu operador, como mostram Husserl, cujo Je se reduz à imanência pura, e Heidegger, cujo Dasein se reduz a si mesmo pela angústia.
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A terceira redução, ao dado, exige que o ego se desfaça de toda pretensão transcendental, e o adonné, ao perder o papel transcendental, não se resume à passividade ou ao empirismo, mas caracteriza-se pela recepção, que envolve tanto a receptividade passiva quanto a contenção ativa, um trabalho de se receber a cada evento.
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A função do adonné é mediar o hiato entre o dado, que se impõe, e a fenomenalidade, que só se realiza na medida em que a recepção consegue fenomenalizar o dado, privilégio do adonné, que é o único dado em que a visibilidade de todos os outros está em jogo.
V - A resistência ao revelado
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O adonné revela o dado fenomenalizando-o como evento, e o dado, como vivido (Erlebnis) husserliano, permanece invisível por princípio, afetando a consciência sem se mostrar, até que, ao ser recebido, projeta-se sobre o adonné como sobre uma tela, produzindo uma dupla visibilidade: a do dado, que se decompõe em esboços visíveis, e a do próprio adonné, que se fenomenaliza ao fenomenalizar o dado.
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A resistência do adonné ao impacto do dado é o índice da transmutação do “se dar” em “se mostrar”, e, diante de fenômenos saturados de intuições, nos quais faltam significações, cabe ao adonné, por sua resistência, transmutar o excesso de doação em uma manifestação desmedida.
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A arte, a literatura e o pensamento especulativo são exemplos do imenso esforço de resistência ao dado para fenomenalizá-lo, e o gênio consiste em uma grande resistência ao impacto do dado que se revela.
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O revelado é o modo universal de fenomenalização do dado, e a universalidade do fenômeno como evento abole a cesura metafísica entre o mundo dos objetos racionais e o mundo da Revelação, que deve ser lido como fenômeno de pleno direito, sujeito às mesmas operações fenomenológicas, como redução, eventividade e recepção.
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