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Vaidade

MARION, Jean-Luc. Dieu sans l’être: hors-texte. Paris: Fayard, 1982.

  • A investigação parte da constatação de que a cruzada do Ser, cujo nome é ágape, ultrapassa todo conhecimento e permanece inacessível ao ser humano, tanto do ponto de vista da filosofia, que o reduz a um ente regido pela abertura do Ser, quanto da teologia, que o situa a uma distância infinita de Deus como criador, tornando impossível o acesso a esta cruzada.
    • A finitude do ser humano, determinada ontologicamente como ente e como criatura, o confina ao aberto do Ser, onde toda a sua existência se desenrola, enquanto a perspectiva divina do ágape, radicalmente outra, poderia cruzar o Ser, mas permanece impensável e inacessível a partir da condição humana.
    • Embora uma topografia invertida em relação à de Heidegger possa reinscrever a diferença ontológica no campo da criação, a análise do Dasein permanece insuperável, e o acesso à iconicidade do ágape, que nos visaria com seu olhar infinito, continua vedado, pois qualquer tentativa de concebê-lo esbarra na impossibilidade de ultrapassar o próprio Ser como “écran” intransponível.
  • Tenta-se, então, acessar a cruzada do Ser a partir da própria situação de finitude, buscando uma atitude ou um entre-dois que não se caracterize nem pela idolatria, que fixa o olhar em ídolos, nem pela iconicidade do ágape, que nos visaria de forma inalcançável.
    • Esta atitude consistiria em recusar a afirmação idolátrica do “écran” do Ser, desorientando a diferença ontológica sem, contudo, pretender atingir o ícone, uma vez que a iniciativa deste pertence exclusivamente ao ágape que nos visa.
    • Busca-se um olhar que não se fixe em nenhum visível, que não seja por ele idolatrado, e que também não se pretenda visado pelo invisível, um olhar que não veja nada e que nada ame, situado entre a idolatria e o ágape.
  • A figura literária de Monsieur Teste, de P. Valéry, é apresentada como a materialização imaginativa dessa atitude-limite, um olhar que transcende todo visível sem se fixar em nenhuma ídolo, caracterizado por uma “terrível pobreza” e uma lucidez que o coloca “fora deste mundo, entre o ser e o não-ser”.
    • O olhar de Teste não se detém em nenhum objeto, ultrapassando-o imediatamente, e não é detido por nada, pois reduz a nada tudo o que se oferece à sua vista, praticando uma “detestação” que despoja o mundo de toda dignidade idolátrica.
    • Esta atitude de destruição das ídolos, no entanto, coloca a questão de como esse olhar pode se sustentar sem que o ódio das ídolos se volte contra si mesmo, levando Teste a se odiar e a se destruir, e sem que nenhum rosto venha a sustentá-lo, mergulhando-o em um suspenso insustentável.
  • A atitude de suspensão entre a idolatria e a iconicidade, na qual Teste se encontra, é identificada com o tédio (ennui), que é definido como um modo de olhar que desqualifica as ídolos, não por aniquilação, mas por um desinteresse radical que as destitui de dignidade.
    • O olhar do tédio não aniquila nem destrói, mas se desvia, abolindo o visível ao não lhe dar atenção, destituindo-o de sua pretensão de se erigir como primeira visibilidade.
    • O tédio não se confunde com o niilismo, pois não funda nem afirma uma nova instância (como a vontade de potência); pelo contrário, ele renuncia à própria intenção de qualquer idolatria, abandonando-se a si mesmo por pura indiferença.
    • O tédio também não se confunde com a angústia heideggeriana, pois, enquanto a angústia escuta a reivindicação do Ser que se anuncia no Nada, o tédio é surdo a essa reivindicação, suspendendo a diferença ontológica e não se interessando nem mesmo pelo “maravilhoso” fato de que o ente é.
  • O tédio, ao suspender a reivindicação do Ser e a diferença ontológica, desloca o homem para além de seu status de Dasein, estabelecendo uma “determinação fundamental” que é o inverso da angústia e que constitui a base para o conceito de vaidade, que atinge a totalidade do que é.
    • O olhar do tédio, que vê tudo e nada, torna indiferente a diferença entre o ente e o não-ente, arrancando o espetáculo do Ser, e este arrancamento é nomeado vaidade, que se manifesta na sentença do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.
    • A vaidade do Eclesiastes atinge a totalidade (“tudo”), tanto no espaço quanto no tempo, e se apresenta como um superlativo que qualifica a totalidade de maneira absoluta, não se tratando de uma privação ou negação, mas de um desinteresse radical.
    • A perspectiva a partir da qual o mundo aparece como vaidade é a da criação, que o vê não como subsistência em si, mas como suspenso em um além de si mesmo, um “outro sol” que o ilumina e o desqualifica, tornando-o indiferente.
  • O texto do Eclesiastes mostra que a vaidade não incide sobre o que se perdeu, mas sobre o que se possui plenamente, atingindo a presença das coisas em sua própria manifestação, e o termo hebraico “hebel” designa essa característica de ser como uma fumaça ou sopro que se dissipa sob um outro sopro, sem aniquilação.
    • A vaidade não consiste na destruição ou no aniquilamento, mas na possibilidade de que tudo o que é presente possa se dissipar como uma bruma, sob a ação de um espírito que sopra de fora do mundo, não destruindo, mas dispersando.
    • O ser humano e suas obras, sob esse sopro, perdem seu peso e sua glória, tornando-se caducos, não porque desaparecem, mas porque sua permanência se satura da possibilidade de sua própria abolição.
  • A vaidade coloca tudo em suspenso, como se não fosse, e o “como se” (hōs) do apóstolo Paulo expressa essa indiferença entre ser e não ser, pois o que é, sob o olhar da vaidade, é como se não fosse, porque a “figura deste mundo” passa e é vista sob a luz de um outro sol.
    • A “figura do mundo” torna-se caduca porque é comparada com o criador, e essa comparação a faz parecer como nada, não por destruição, mas por uma subversão da luz pela luz, onde a primeira fonte luminosa é anulada, não apagada.
    • O olhar do tédio, que é o olhar da vaidade, vê o mundo a partir de sua exterioridade, como visto por Deus, na distância entre o mundo e Deus, o que implica que o mundo, quando se fecha a essa distância, cai na idolatria e na vaidade.
    • A vaidade é um fenômeno que só pode ser percebido a partir de um ponto de vista externo ao mundo, e aqueles que a percebem, como Qohélet, já estão em uma situação de suspensão que os coloca na distância, entre o Ser e a caridade, o que é designado como melancolia.
  • A figura da Melancolia na gravura de Dürer exemplifica esse olhar que vê os entes em sua fuga para um ponto de fuga ausente, situado fora do quadro, e é essa fuga que os torna vãos, enquanto a melancolia é apresentada como uma atitude que desvia o olhar de tudo o que é visível.
    • O olhar da melancolia, como o de Teste, não se fixa em nenhum ente, mas transpassa o horizonte visível em direção a um ponto de fuga que não é um ente, e essa fuga para o exterior do quadro é o que confere aos entes sua característica de vaidade.
    • A vaidade é contrária ao ágape, e o texto de Paulo mostra que aqueles que não glorificam a Deus caem na vaidade, e que a vaidade surge quando a caridade não preside o logos, confirmando que a vaidade e a idolatria têm um mesmo contrário: Deus como ágape.
  • Uma análise da experiência amorosa mostra que a vaidade cresce em proporção direta ao amor, pois quando o objeto amado está ausente, o mundo inteiro se torna vão, e mesmo quando o amor está presente e recíproco, o resto do mundo também é atingido pela vaidade, pois a beleza e o valor do mundo só são conferidos pela graça da associação com o amor.
    • Na ausência do ser amado, o mundo, embora permaneça presente, torna-se vão, pois o amor não mais o polariza, e a indiferença à diferença ontológica (entre ser e não ser) reaparece, mostrando que o que é, sem amor, é como se não fosse.
    • Na presença plena do amor recíproco, o mundo também é atingido pela vaidade, pois sua beleza e valor só existem em função do amor que o condescende em revestir-se dele; a vaidade não distingue entre entes associados ou não ao amor, mas sim entre o próprio amor e o mundo, que, enquanto ente, é vão.
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