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Ídolo e Ícone
MARION, Jean-Luc. Dieu sans l’être: hors-texte. Paris: Fayard, 1982.
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A distinção entre ídolo e ícone não se baseia em uma oposição entre “falsos” e “verdadeiros” deuses, nem entre arte “pagã” e “cristã”, mas sim em duas maneiras fundamentalmente diferentes de ser dos entes, ou seja, duas fenomenologias que regem o modo como o divino se torna visível.
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Ídolo e ícone não designam classes de entes, pois um mesmo objeto (estátua, nome) pode transitar de um status para outro; eles determinam, antes, duas maneiras de ser, dois modos de fazer-sinal (signum) para o divino através da visibilidade.
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A característica essencial desses signa é que, para serem ídolos ou ícones, eles devem remeter a algo além de sua própria visibilidade imanente, ou seja, devem funcionar como um signo que aponta para o divino, e essa função de remissão é o que constitui sua dignidade mais própria.
1 — PRIMEIRO VISÍVEL
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O ídolo (eidôlon) é definido pelo fato de que sua visibilidade se esgota em si mesma e para o olhar humano; ele se apresenta como o “primeiro visível” que captura e fixa o olhar, oferecendo-se como o ponto de repouso e de plenitude para a visão.
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O olhar humano é constitutivo do ídolo, pois é ele que, ao fixar-se em um ponto do visível, investe este ponto como o “primeiro visível” capaz de saciá-lo; o ídolo, portanto, não é primariamente um objeto fabricado, mas o resultado de uma decisão do olhar de se deter.
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A crítica comum à idolatria, que a reduz à fabricação de imagens, falha o essencial, pois o que faz um objeto ser um ídolo não é sua origem material, mas o fato de que ele se torna o ponto de fixação de um olhar que nele se esgota e se satisfaz.
2 — ESPELHO INVISÍVEL
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O ídolo funciona como um “espelho invisível”, pois, ao mesmo tempo que oferece um espetáculo deslumbrante que cega o olhar, ele reflete para o próprio olhar a medida e o limite de sua própria capacidade de visão, obscurecendo o que está além do seu alcance.
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Para que o ídolo possa fixar o olhar, o olhar deve primeiro fixar-se, depositando-se e cansando-se; o ídolo oferece, assim, um “templo” para o descanso do olhar, um lugar onde a visão se enterra e perde a capacidade de visar o que a ultrapassa.
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O espelho invisível do ídolo marca negativamente a falência da visão, ou seja, o próprio invisível, na medida em que o primeiro visível, ao se fixar, dissimula essa função especular e com ela a possibilidade de um além.
3 — RETORNO DO BRILHO
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O ídolo material (estátua, pintura) não é mais do que a consignação, na pedra ou na madeira, do “brilho” (éclat) do primeiro visível que fixou o olhar do artista; sua função é servir de relé material para que outros olhares possam reencontrar esse mesmo brilho e fixar-se nele.
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A experiência do ídolo não se limita a um contexto religioso ou antigo; ela permanece uma possibilidade para qualquer olhar que, ao se deparar com uma imagem, reconheça nela o brilho do primeiro visível que um dia fixou sua própria visão, como ilustrado na prosa de Robert Walser.
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A arte não produz o ídolo, mas apenas tenta consignar materialmente o brilho do divino que já se manifestou a um olhar; a eficácia do ídolo depende, portanto, da correspondência entre o brilho fixado na matéria e a disposição do olhar do espectador em se deixar fixar por ele.
4 — ÍDOLO CONCEITUAL
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O conceito pode funcionar como um ídolo intelectual quando a filosofia o utiliza para fixar o divino em uma definição que, na verdade, reflete apenas o limite do próprio pensamento, como no caso do “Deus moral” de Kant, que é uma figura da metafísica e não uma apreensão de Deus.
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A idolatria conceitual da metafísica culmina na noção de Deus como causa sui, onde o conceito de “Deus” funciona como um espelho que reflete a própria capacidade do pensamento, e não a realidade divina, de modo que tanto o teísmo quanto o ateísmo permanecem prisioneiros dessa mesma estrutura.
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A crítica de Feuerbach, segundo a qual o homem é o modelo original de seu ídolo, aplica-se plenamente ao conceito metafísico de Deus, pois este é sempre a medida da visão humana, e é precisamente por isso que o ídolo, seja estético ou conceitual, está condenado ao seu próprio crepúsculo.
5 — A ÍCONE DO INVISÍVEL
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O ícone, ao contrário do ídolo, não resulta de um olhar humano que se fixa, mas provoca o olhar, convocando-o a ultrapassar o visível; ele é o lugar onde o invisível se torna visível enquanto tal, sem nunca se reduzir a uma imagem fixa.
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A definição paulina do Cristo como “icône do Deus invisível” é normativa para toda a compreensão do ícone, pois ele manifesta o invisível mantendo-o invisível, ou seja, fazendo com que o visível remeta incessantemente a uma profundidade que ele não pode conter.
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O ícone não mostra propriamente nada, mas faz o olhar remontar de visível em visível até o infinito, convocando-o a se superar incessantemente, sem jamais se fixar em um ponto de repouso, pois a visibilidade do ícone existe apenas em função do invisível.
6 — O ROSTO QUE NOS OLHA
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No ícone, o olhar humano não visa um objeto, mas é visado pelo olhar da própria pessoa representada, que, em sua hipóstase, o contempla e o chama a entrar na profundidade infinita do visível, que é o próprio invisível.
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Enquanto o ídolo oferece um espelho invisível onde o olhar humano se reflete e se fixa, o ícone é um “rosto” (visage) que nos olha, um rosto que se abre para o invisível e nos convoca a uma visão que não se esgota, mas se aprofunda infinitamente.
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O visível no ícone não se opõe ao invisível, mas é a sua manifestação; a visibilidade do rosto cresce com a invisibilidade da intenção que ele contém, de modo que o olhar humano, ao invés de fixar o divino, se perde no olhar invisível que o contempla.
7 — ESPELHO VISÍVEL DO INVISÍVEL
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No ícone, a profundidade infinita do visível é atravessada pela intenção do invisível; a visibilidade do rosto cresce com a invisibilidade do olhar que ele contém, estabelecendo uma relação onde a distinção e a união entre visível e invisível se intensificam mutuamente.
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A contemplação do ícone não é uma experiência estética (aisthesis), pois sua medida não está no olhar humano, mas na profundidade infinita que se revela; é uma experiência apocalíptica, onde o invisível se dá a ver por pura graça, sem que o homem possa controlar ou limitar essa doação.
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A visão do ícone transforma o espectador, que se torna um “espelho visível” da glória do Senhor, de modo que a relação não é mais a de um sujeito que vê um objeto, mas a de uma pessoa que é vista e transfigurada pela visão do invisível que a contempla.
8 — A ÍCONE EM CONCEITO
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O ícone pode ter um correlato conceitual, mas este deve ser um conceito que, como a ideia de infinito em Descartes, reconheça sua própria incompreensibilidade e se abra para receber a profundidade infinita, funcionando como uma hermenêutica que lê a intenção do invisível no visível.
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O conceito icônico é aquele que reforça tanto a distinção entre visível e invisível quanto sua união, aumentando uma à medida que aprofunda a outra, e qualquer pretensão a um saber absoluto sobre o divino é, portanto, uma forma de idolatria.
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A superioridade do ícone sobre o ídolo reside no fato de que, enquanto o ídolo está sempre sujeito ao crepúsculo, pois depende de um olhar humano que pode se cansar, o ícone, por vir de uma profundidade infinita, é indestrutível e pode esperar pacientemente que o homem o receba.
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