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Ciência e outros saberes
Capítulo “Ciência” resumido em alguns de seus tópicos essenciais do livro “Os desafios da racionalidade”. Trabalho desenvolvido por solicitação da UNESCO em 1977 e publicado pela Ed. Vozes
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Comparação com formas filosóficas de saber: sabedoria pelo conhecimento, teoria e hermenêutica
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A filosofia, ao menos em seu início e em expressões eminentes próximas de nós, é apresentada como método visando atingir a sabedoria pelo conhecimento
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Subjaz a ideia de um ponto de vista justo sobre existência e mundo, capaz de reconciliar o humano com o universo, embora não seja imediato
A vida imediata é descrita como imersa em preocupações contingentes, imagens falaciosas e ignorância do próprio sentido, caracterizando-se por errância-
A restituição do sentido autêntico exige desembaraçar-se das ilusões por crítica impiedosa das formas de erro e conquistar visão verdadeira do mundo e da vida
O erro é definido como apego a ponto de vista parcial e ao imediatamente acessível-
A verdade é definida como ponto de vista da totalidade
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Ver em verdade é situar as coisas relativamente ao todo e captar sua articulação com a estrutura universal englobante
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Ver-se em verdade é apreender-se como momento na manifestação da vida universal, cuja significação deriva de sua contribuição e da virtude recebida desse todo
As limitações e sofrimentos da existência são reinterpretados-
Ou como peripécias que recebem sentido por inscrição em destino que ultrapassa absolutamente
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Ou como efeitos da ilusão própria dos que permanecem presos à imediatez, à indigência e à incoerência
Reconhece-se a existência de sabedorias centradas na prática ascética-
Contudo, na perspectiva decisiva para a filosofia ocidental, a reconciliação com a vida é mediada por um saber que apreende a totalidade e sua harmonia inteligível
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A visão é descrita como transformação, conversão e metamorfose, superando visões parciais e apropriando-se da lei do todo
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A vida segundo a sabedoria é bem-aventurada, tendo como modelo o ato do pensamento que se possui perfeitamente a si mesmo e no qual o universo parece suspenso
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A sabedoria é definida como participação ao puro pensamento
A passagem da sabedoria ao saber contemplativo desloca a ênfase para a própria visão como valor em si-
A oposição entre vida inautêntica e vida autêntica permanece, mas a verdade é definida como integralidade da manifestação e movimento acabado de automostração do mundo
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A visão verdadeira acompanha o aparecer desde as origens até as terminações mais tênues, elevando-se acima de sensibilidade, imaginação e pensamento superficiais
O acordo com a verdade é descrito como vida de soberania-
A contemplação do que mantém coesas as formas particulares na unidade do jorrar permite ultrapassar particularidade e condicionamentos para coincidir com o originário
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O originário é incondicionado, remete apenas a si, celebra-se e irradia-se numa glória sem declínio
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A teoria é definida como esforço sublime do logos no homem que eleva vida contingente a vida soberana em acordo sem falha com o coração da manifestação
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O acordo com o verdadeiro não é abdicação, mas exigência constitutiva do humano como traço da vida do originário sob a forma do logos
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A teoria recolhe forças constituintes e atesta sua virtude, sendo reflexo e realização da vinda a si da realidade total
A ideia de teoria conduz a uma concepção hermenêutica do saber-
A teoria repete a realidade que se revela e refaz, na palavra, as etapas da manifestação, tornando-se ela mesma manifestação
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A palavra é simultaneamente componente do aparecer e lugar de produção do aparecer, momento terminal e condição originária
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O discurso não é relatório descritivo, mas prolongamento do que se mostra e revelação de virtualidades ainda envoltas
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O conceito é definido como forma dinâmica que apreende e faz ver, na aparência, o movimento que a transporta
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A teoria acabada é sistema, configuração conceitual saturada cujos elementos são interdependentes e cuja lei interna faz ver a lei do mundo e a verdade da existência
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A interpretação é recriação que visa revelar sentido impalpável que atravessa objetos e reconduz ao movimento universal da manifestação
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Tornar o sentido manifesto é reinserir aparências estáveis no devir da manifestação, exigindo que o discurso se converta em devir
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Persistência dessas inspirações no discurso científico e risco de esterilidade pela perda das raízes especulativas
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Reconhece-se que o discurso científico conserva algo das inspirações sapiencial, teórica e hermenêutica
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Sugere-se que delas provém sua virtude mais secreta e sua capacidade de integrar-se na ação
Sustenta-se a possibilidade de que uma ciência reduzida a puro fazer perca contato com raízes especulativas e se torne estérilSubsiste a ideia de um saber salvador que liberta de ilusões, falsas crenças e ingenuidades-
Mesmo sob determinismos, o conhecimento dos mecanismos fornece acesso a forma superior de existência, reaparecendo a ideia de liberdade como necessidade compreendida
Subsiste também algo da ideia de teoria-
A ciência não é saber da totalidade e avança por recortes por vezes artificiais da realidade
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Ainda assim, o saber científico não é coleção de dados fragmentários, mas se exprime em sistemas conceituais coerentes e fecundos
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Exige-se que tais sistemas ultrapassem o dado, antecipem, orientem a pesquisa e façam pressentir fenômenos a descobrir
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Por isso, a ciência possui aspecto hermenêutico: a teoria não é resumo de observações nem síntese empírica, mas discurso que reconstitui funcionamento de um setor da realidade e prolonga o visível em direção ao não-visível anunciado pelo fenômeno
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Originalidade da ciência: desligamento refletido do especulativo e centralidade da operação
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Apesar das continuidades, a ciência conquista originalidade ao desligar-se dos modos puramente especulativos ou interpretativos e ao elaborar procedimentos próprios de aquisição de conhecimentos
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O centro desses procedimentos é identificado como a ideia de operação
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