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cibernética (PR:134-140)

Data: 2021-11-07 00:15

La puissance du rationnel

La technique dans le langage

JANICAUD, Dominique. La puissance du rationnel. Paris: Gallimard, 1985, p. 134-140

Devido à universalização técnica e ao mito da transparência difundido mundialmente, o ciclo ainda não está completo: falta considerar o caráter propriamente linguístico da técnica.

Ellul, embora reconheça a “fraternidade informal” que se estabelece entre os técnicos, diagnostica um aumento dos mal-entendidos, uma dissociação das formas sociais e dos quadros morais, a redução do corpo social a uma coleção de indivíduos 1); e o próprio McLuhan 2) finalmente se alarmam ao ver a mídia levar a uma “perda de identidade” do homem dentro do grupo e prevêem que os Estados Unidos “se tornarão rapidamente um terceiro mundo”. É preciso acrescentar a esses fatores de incompreensão: a vitalidade dos fanatismos religiosos ou sectários, o ardor dos nacionalismos.

Se a tecnologia estabelece e desenvolve um certo tipo de comunicação, instaura e reforça o domínio de seus grandes e pequenos sacerdotes: especialistas, empresários, técnicos de relações públicas, seu movimento de universalização não é unívoco. O que ela universaliza são, sobretudo, se não exclusivamente, seus próprios processos e procedimentos. As destruições psico-etno-culturais que ela opera para garantir seu domínio liberam libidos, paixões e violências nomadizadas. Para realizar a grande utopia saint-simoniana de uma comunicação universal por meio da técnica, seria necessário levar ainda mais adiante a tecnicização, para que o sistema técnico se fechasse sobre o todo social e se confundisse com ele? Ainda não chegamos a esse ponto. Mesmo que fosse o caso, a sociedade seria totalmente diferente de uma República das Letras ou de uma comunidade habitada pelo espírito de Pentecostes; é provável que ela fosse ainda mais compartimentada, com a especialização excessiva sendo compensada, no nível macrosocial, por um hipercondicionamento: em suma, um aumento extremo das distorções de comunicação já apontadas por Marcuse em sua crítica da unidimensionalidade.

As línguas naturais, tesouros vitais, ainda não foram destruídas; elas estão, ao contrário, sendo cobertas e cada vez mais sufocadas por uma linguagem informatizada que transforma suas reservas e redes em bancos e potenciais de dados. A eficácia obtida deve-se, evidentemente, à racionalização dos programas, à automatização das operações; mas, no que diz respeito aos problemas propriamente linguísticos, é preciso perceber que a informática economiza enormemente as dificuldades fonéticas, uma vez que a sua «língua» só é «falada» pela máquina. Sendo o suporte material — por exemplo — uma fita magnética, estamos diante de uma linguagem que não tem mais a corporeidade que pesava sobre a “palavra falada”, de uma opacidade frágil, infinitamente diversa e sugestiva — mas também, do ponto de vista operacional, pesada, retardadora e imprevisível.

É preciso ir mais ao cerne do problema para compreender por que a universalização da técnica cria as aparências de uma comunicação verdadeira e integralmente linguística, ao mesmo tempo em que destrói suas raízes vivas. O que é uma linguagem? A questão vibra na ambiguidade do termo francês: entre o polo da língua e o do código. Que a técnica também não seja, em sentido estrito, uma linguagem (supondo que a definamos como um “sistema de signos voltado para a comunicação”), isso é admissível no nível das definições, mas não exclui de forma alguma múltiplas interligações entre técnica e linguagem. Antes de examinar estas últimas, vamos marcar — por uma questão de clareza — a diferença entre signo linguístico e objeto técnico.

Mesmo que se defina a linguagem como um “sistema de signos”, o objeto técnico não pode se dotar das qualidades flexíveis do significante linguístico. Este, de fato, devido ao seu caráter “arbitrário”, se presta a múltiplas combinações semânticas, quase à vontade: veja-se o fonema in em pain, brin, pin, etc. O objeto técnico, ao contrário, como Simondon demonstrou em análises impecáveis 3) por um lado, não mantém uma relação “arbitrária” com o material, mas também e sobretudo tende para a “concretização”, ou seja, para uma autorreferência funcional na qual as partes são cada vez mais interdependentes. É eloquente, a esse respeito, a comparação entre os primeiros motores a explosão, ruidosos e pouco eficientes (em que cada elemento funcionava praticamente por conta própria, de forma desordenada), e os motores atuais, quase perfeitamente “integrados”.

É claro que o problema se complica em nossa sociedade de consumo, devido ao fato de que — como mostrou Baudrillard — todo um conjunto de conotações não técnicas (o sistema de práticas publicitárias, em particular) reflete-se na coerência propriamente funcional dos objetos técnicos: “A conotação do objeto… prejudica e altera sensivelmente as estruturas técnicas.” 4) Assim, as tensões vividas nas práticas de consumo prejudicam a estabilidade do “sistema tecnológico”, sem que essa perda de estabilidade que compromete o “sistema dos objetos” possa ser estritamente assimilada ao movimento que a palavra imprime ao tesouro da língua.

Admitida essa diferença, voltemos às interligações entre técnica e linguagem, mas desta vez a um nível mais essencial do que o de nossas constatações iniciais. Múltiplos fios se entrelaçam entre a técnica e a linguagem, sob pelo menos três pontos de vista. Em primeiro lugar, a técnica moderna pressupõe a elaboração e a aplicação constantes das linguagens matemática e informática (é importante não confundir. A intervenção da linguagem informática é evidentemente um relé muito recente da tecnicização, enquanto a linguagem matemática forjou, ao longo de três séculos, os novos instrumentos conceituais da modernidade. O padre Dubarlet, no entanto, assinala uma mudança considerável: “ Enquanto antes se podia dizer que, afinal, o objeto matemático não passava de um certo tipo de tema intelectual proposto à racionalidade entre outros, agora parece claro que a linguagem matemática é para o homem um instrumento finalmente inevitável para toda a racionalidade a que ele pode aspirar” 5). Além disso, todo procedimento técnico — especialmente atualmente — envolve menos a palavra do que a troca de sinais de entendimento, de informações, que supõem, por si só, um projeto mínimo comum: não há técnica sem um início de consenso — mesmo que este seja superficial e frágil como o cimento rachado da “distensão”; Simondon observa que a máquina é um “gesto humano depositado” 6): poderíamos dizer, de maneira mais geral, que a atividade técnica é uma forma fragmentada e materializada da linguagem. Por fim, uma vez que a técnica se constituiu nessa imensa rede dinâmica que conhecemos, onde cada progresso se apoia no capital do trabalho e da inventividade das gerações anteriores, a linguagem viva (desta vez sem excluir a fala, prática da língua) não cessa de denotar as camadas de objetos técnicos, os procedimentos, as experiências constituídas: a técnica torna-se o objeto da linguagem cotidiana, ao mesmo tempo em que é, em grande parte, seu tema motor no nível da transformação de projetos, atitudes mentais e vocabulário.

Apesar dessas incontestáveis e vivas interligações entre técnica e linguagem, pesquisas recentes concordam em observar o quanto a tecnicização, em seus efeitos massivos, dessimboliza a atividade humana. Baudrillard: “O sistema objetos/publicidade constitui… menos uma linguagem, da qual não possui a sintaxe viva, do que um sistema de significados: ele tem a pobreza e a eficácia de um código 7)”. Ellul: “O sistema técnico é um universo real que se constitui em sistema simbólico… A simbolização está integrada no sistema técnico.” 8) Essa integração é perceptível em todos os níveis da experiência atual, mas talvez da maneira mais marcante e comovente na perda dos investimentos simbólicos ligados aos “gestos” tradicionais do trabalho 9). Se é verdade que o sistema técnico se auto-simboliza, ele o faz levando seu próprio poder a um grau superior de complexidade, ou seja, de abstração, para o usuário comum. O que a tecnicização ameaça, então, é evidentemente a relação com a linguagem como tal, mas também — solidariedade significativa — a riqueza de uma vida corporal e de seus gestos.

O que acabamos de constatar em relação aos efeitos, podemos novamente estabelecer em um plano mais elevado, remontando do consumo à produção, do consumo de objetos à produção de código. Norbert Wiener nos ajudará nisso. A cibernética, no sentido estrito, é a “ciência do comando e da transmissão de mensagens entre homens e máquinas” 10): se nos limitarmos a isso, poderemos classificá-la tranquilamente entre as outras disciplinas científico-técnicas de ponta (sem, aliás, haver unanimidade sobre esse ponto na comunidade científica). No entanto, uma reflexão sobre a etimologia do termo cibernética, mas sobretudo sobre a função do “comando” na sociedade atual, bem como sobre a visão do mundo proposta por Wiener, deve levar a considerar a cibernética de uma forma muito mais fundamental: exatamente no sentido em que Heidegger saúda nela a metafísica da era atômica 11). De fato, quando Wiener define a informação para expor sua concepção cibernética do mundo, ele vai muito além dos avanços técnicos de Shannon no campo das telecomunicações: é o organismo vivo em relação ao seu meio e, finalmente, toda a sociedade humana que são os campos de aplicação desse novo método de inteligibilidade que se pronuncia sobre a essência da linguagem e se apropria dela: “Informação é um nome para designar o conteúdo do que é trocado com o mundo exterior à medida que nos adaptamos a ele e aplicamos os resultados de nossa adaptação… Viver eficazmente é viver com informação adequada. Assim, a comunicação e a regulação dizem respeito ao essencial da vida interior do homem, mesmo que digam respeito à sua vida em sociedade. » 12)

Heidegger ecoa isso, num espírito evidentemente muito diferente do de Wiener, mas para fazer uma constatação igualmente radical sobre a mutação da linguagem na sua relação com o mundo: «… a concepção que faz da linguagem humana um instrumento de informação impõe-se cada vez mais. Pois é a definição da linguagem como meio de informação que, por si só, forneceu a razão suficiente sobre a qual se baseia a construção das máquinas pensantes e das grandes máquinas calculadoras. Mas, ao mesmo tempo que a informação informa, ou seja, fornece informações, ela também informa, ou seja, dispõe e dirige” 13). O domínio da esfera científico-técnica não se manifesta principalmente nem fundamentalmente por uma “erosão” da linguagem “humanista” tradicional: é a própria essência da linguagem que está sendo transformada. Se houve uma tomada de poder pela concepção científico-técnica — quem negaria esse fato? —, foi bem no âmago do Logos que ela ocorreu, e não em sua periferia.

Tudo bem, dir-se-á; mas tudo isso não demonstra, no próprio nível da produção (filosófica) da linguagem como informação, que a técnica se tornou, se não uma linguagem em sua massa factual (era justo, a esse respeito, rejeitar a assimilação entre técnica e linguagem), pelo menos o campo onde ocorre a nova produção da linguagem? Quando Wiener analisa as trocas entre uma central elétrica e o mundo exterior, ele o faz em termos de informação, ou seja, de linguagem: a abertura e o fechamento de interruptores, geradores, etc., “podem ser considerados como uma linguagem própria, com seu próprio sistema de probabilidade de comportamento ligado à sua própria história” 14).

O auge da tecnicização: menos um investimento da linguagem pela técnica do que um investimento da técnica na linguagem. Pensar a técnica como “linguagem-mundo” dominante não é — repetimos — assimilar técnica e linguagem termo a termo, é antes reconhecer uma nova conjunção histórica na qual a instrumentalização da linguagem é o agente decisivo da tecnicização.

É evidente a inversão realizada pela “tomada de poder” cibernética: enquanto até agora, na história da humanidade, a simbolização sempre precedeu e até mesmo ultrapassou a codificação, esta tende a se tornar uma regra de equilíbrio e a prevalecer sobre os recursos simbólicos da linguagem. Uma língua, relação viva, misteriosa, múltipla e imprevisível para o mundo, é o que a linguagem-código técnico-científica não pode substituir: a linguagem secundária do código está enraizada em significados mais sutis e frágeis; mas o perigoso paradoxo do nosso mundo consiste em basear a linguagem em seu fantasma, sacrificando a delicada riqueza da simbolização à ordem segura, mas unilateral, da Organização.

1)
ver Ellul, La Technique…, op. cit., p. 115 e Le Système technicien, op. cit., p. 208: “Na realidade, a universalidade do sistema técnico provoca a ruptura do mundo humano por muito tempo, e não sua unificação.”
2)
“M. McLuhan denuncia a ação dos meios de comunicação”, Le Monde, 16 de dezembro de 1978.
3)
ver Simondon, Du mode d’existence des objets techniques, op. cit., pp. 19-23 e passim.
4)
J. Baudrillard, Le Système des objets, Paris, Gallimard, 1968, p. 16.
5)
Dominique Dubarlet e André Doz, Logique et dialectique, Paris, Larousse, 1972, p. 59).
6)
Simondon, Du mode d’existence des objets techniques, op. cit., p. 138.
7)
Baudrillard, O Sistema dos Objetos, op. cit., p. 270. Nós destacamos.
8)
Ellul, O Sistema Técnico, op. cit., p. 195.
9)
Ver Baudrillard, O Sistema dos Objetos, op. cit., p. 76
10)
Norbert Wiener, Cybernétique et société, trad. francesa, Paris, U.G.E., 1971, p. 9.
11)
Ver, entre outros, Heidegger, Der Satz vom Grund, op. cit., pp. 200-203; entrevista concedida à revista Spiegel, n.º 23, 1976, p. 212
12)
Wiener, Cibernética e sociedade, trad. citada, pp. 46-47.
13)
Heidegger, Der Satz vom Grund, op. cit., p. 203; trad. francesa, Le Principe de raison, Paris, Gallimard, 1962, p. 260.
14)
Wiener, Cibernética e sociedade, trad. citada, pp. 218-219.
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