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estudos:irigaray:1983:2

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IRIGARAY, Luce. L’oubli de l’air chez Martin Heidegger. Paris: Editions de Minuit, 1983.

1. Entre um e outro, entre um e uma, não há passagem, ao menos no presente, e o ser seria uma espera cuja abertura se fechou em círculo, e também em esquecimento, para que nela repouse o pensador, de modo que o todo representaria a comemoração do que já foi esperado, a guarda que permite ainda esperar o que nunca chegará, e a livre extensão, com tudo o que nela se mantém, equivaleria à elevação de uma ponte construída na espera, mas também no esquecimento, de uma passagem em direção a.

2. A ponte, incessante tradução, permanece, mas em sua extremidade não há ninguém, pois o há da ponte arrastou em sua construção o outro para quem pretendia ser passagem, restando ao alcance da mão apenas a ferramenta e coisas já fabricadas, enquanto o inteiramente outro, a inteiramente outra, já não está ali e o ser toma seu lugar, de modo que deixar ser equivale a abandonar ao outro a guarda da serenidade diante da ausência de relação entre um e uma, a renunciar à tarefa do em direção a para voltar sem fim à construção da ponte, e a outra deixa-se usar como ser-ponte em cuja extremidade nada é, sendo essa passagem apenas eterno retorno ao mesmo.

  • O outro já não é senão a assimilação projetada no livre do luto do outro.
  • Que nada se passe na ponte seria agora obra da outra, que opõe a toda tentativa de passagem a resistência de uma serenidade sem falha.
  • O pensador volta sempre a seu ponto de partida para partir de novo rumo à outra, que já não é senão a comemoração de uma espera sem termo.

3. A passagem de si a si, de si ao outro de si mesmo, faz-se através de uma extensão que parece transgredir todos os limites, horizontais ou verticais, e poderia dar-se já sem transcendência, numa vastidão em que o horizonte se reabsorve em seu além, pois a serenidade supõe que nada fique fora, estando o todo convocado, ou reconvocado, depois de colhido na natureza e abrigado numa morada em que as coisas duram sem se alterar.

4. O todo é colhido na natureza para ser recolhido num mundo de apropriação-desapropriação único e definitivo, onde toma lugar e se guarda em seu permanecer, nada podendo advir ali sem passar pela assimilação de um luto, nenhum vivente podendo chegar sem ser antes deitado diante, colhido e abrigado num lugar de nobre comemoração, dizendo-se a tudo simplesmente sim ou não e dispondo-se cada um em seu lugar no suspense entre ambos: sim, porque o homem não deve subtrair à sua espera nada do que se destina a ele, não, porque nada pode subsistir nem sobrevir fora desse espaço-tempo já determinado pelo e para o ser do homem.

5. Dizer que esse espaço-tempo já está determinado para a morte seria dizer demais, pois o sem-nome não pode designar-se assim e a operação de constituição do espaço-tempo deve permanecer sem denominação, ao menos no presente, não sendo justo afirmar que se mantém apenas pela e para a morte, já que ela ocorre no e graças ao suspense entre o sim e o não, o por-vir de um nascimento e o depois de uma morte.

6. Para entendê-lo, é preciso retornar ao que existe antes da espera, àquilo de que procede a espera aparentemente originária e que ela espera repetir sem fim, perguntando de que é feita a espera, que para o homem provém de sua ascendência, pois espera quem habita a origem de seu ser, quem se confiou de antemão àquilo a partir do qual se constitui a essência do pensamento, anterioridade tão distante que o pensamento não a alcança, esperando o retorno impensável de um começo.

7. A essência do pensamento tem um começo impensável por dar-se na anterioridade de todo passado e no por-vir de todo futuro, tão adiantada em relação a todo tempo nomeável.

8. O pensamento começaria na relação com a livre extensão, algo apenas pensável, pois, onde a livre extensão é o começo do ser, a provisão de essência que ela dá volta-se no fato de que ela não é sem o ser do homem, e o homem, lá onde tira sua proveniência, diz que sem o ser do homem ela não seria, num círculo fechado.

9. Segundo Heidegger, se o ser do homem está confiado à livre extensão, é porque lhe pertence tão essencialmente que sem ele a livre extensão não poderia desdobrar-se como o faz, de modo que o começo do ser do homem é quase utensiliarmente necessário à livre extensão, que dele precisa para seu desdobramento, razão pela qual o ser do homem lhe é apropriado, afirmação feita para além do pensável.

10. Não se coloca a questão, anterior ao começo e mais ainda à serenidade, de saber em que o ser do homem precisa da livre extensão para ser, buraco de ar, de sangue ou de vida pelo qual o ser se alimenta tacitamente, pois ele também deve assimilar algo para ter começado a ser, operação de assimilação esquecida e deixada à livre extensão, mas depois que o ser do homem já é.

11. A pergunta sobre o que é o homem antes que o ser do homem já seja parece ingênua demais para ser pensável, mas essa comemoração, mais ou menos nobre, talvez se lembre na livre extensão, na reserva de ar que nela se guarda, na assimilação que lhe é atribuída, na constituição das coisas e na oposição, operações deixadas no suspense entre efetuação e condições de possibilidade, entre o particípio presente e o infinitivo, repetindo-se indefinidamente a reconstituição do impossível definitivo infinitivo, suspense que deixa ainda fazer-se algo da relação entre morte e vida, o já acabado e o ainda por definir, o já dado a viver e o ainda por repetir, redizer e abrigar numa guarda que a faz durar mesmo na morte.

  • A participação não é simplesmente presente, pois já ocorreu, nem imutabilidade de uma constituição acabada, pois ainda ocorrerá.
  • O suspense entre o definitivo e o infinitivo é um indefinitivo.

12. Guardar é também guardar da destruição, portanto da morte, e guardar sem fazer morrer é sem dúvida a operação impossível do ser, a menos que ele seja em ar, que pode guardar-se indefinidamente definitivo se abrigado numa morada, mas então é tecnicamente cercado, separado de si como livre extensão e subtraído ao vaivém dentro e fora de si, tornando-se indisponível, de modo que o pensador, privado de sua livre assimilação, só teria de morrer.

13. O pensador, porém, não morre, ao menos não inteiramente, não logo, não tudo, continuando a assimilar e rejeitar do que viver, recurso pouco nobre de seu ser que ele não lembra em seu pensamento, permanecendo impensável como intervém na constituição e permanência de seu ser, o que aconteceria se faltasse e até quando durará, pois, quanto mais ele é, mais ela se desdobra, mas resta saber se haverá sempre de que começar a ser, se ele poderá alojar-se nela indefinidamente sem esvaziá-la, se isso é o que ele não quer querer, mas acontece, e se aí se atinge a relação esquecida com o ar.

  • É-lhe necessário, portanto é: assim se evita a pergunta sobre essa fonte.
  • Uma abertura cada vez mais aberta, que ele não quer ávida, mas à qual consente abrir-se como a uma assimilação.

14. Passou-se insensivelmente de um ar a outro, da matéria fluida à voz e à aparência, da possibilidade de respirar-viver à de chamar-nomear e à de aparecer-entrar em presença, passagem que Heidegger não lembra, esquecendo a diferença de ares.

15. No lugar desse esquecimento há certo vazio.

16. Ela dá primeiro o ar, e sem retorno, senão que a partir dela e nela se desdobra quem lhe toma ar, e esse ar, primeiro a matéria fluida veiculada pelo sangue que ela dá, pode entender-se também como a voz e o fenômeno, que dele provêm e são a possibilidade ainda material da denominação e do aparecer em presença.

17. Ela dá primeiro a possibilidade do começo a partir do qual se constituirá o todo do homem, dom recebido sem retorno, que ele não pode retribuir, pois seus múltiplos e incessantes reenvios a ela jamais ocorrerão no lugar do primeiro dom, permanecendo uma distância intransponível entre o lá de onde ele provém e seus apelos, e o primeiro dom fica sem resposta.

18. Esse recebido sem retorno ocorre num receptáculo, nela e também nele, que se comunicam num único sentido, ela dá, ele toma, sem vaivém no começo, salvo às vezes para o que não é bom, que ele devolve como inassimilável, rejeição sem distância que ameaça de morte um ou outro, mas o mais geral é que ele tome.

19. Essa dívida de vida parece natural e destinada a permanecer não paga, impagável.

20. O não pago produz nele talvez certo esquecimento, certo vazio, certa confusão no apelo ou retorno ulteriores entre o pleno e o vazio, cuja distinção nítida, inexistente no começo, ele opera ao mesmo tempo que sua confusão no mesmo lugar, restando saber como não se enganar entre eles ou se é preciso suspender o sim e o não.

21. Oscila-se entre retomar e retornar, entre sim e não, sem decisão.

22. Retornar para retomar e retomar para retornar levanta a questão de saber se se trata ainda do mesmo lugar, do mesmo lá, ou se haverá agora uma distância entre um lá e outro, e onde, quem, é deixada lá.

23. Não se trata de jogos de palavras, pois ainda não se encontrou o lugar de onde começar a dizer algo, aqui e agora, mas de atravessar de novo todos os lugares onde a mulher foi exilada-encerrada para que ele constituísse seu lá, ler seu texto para retomar o que ele tomou sem retorno, reabrir tudo o que construiu tomando-a dentro, pondo-a fora, dizendo sim e não, nem sim nem não, deixando-a num suspense de espera e esquecimento em que não pode viver, mover-se nem respirar, e reencontrar a possibilidade de uma relação com o ar, necessária bem antes de começar a falar.

24. Retorna-se primeiro ao primeiro receptáculo, onde ele a tomou sem retorno e onde ela lhe deu tudo sem cálculo, recibo nem dívida, salvo talvez o prazer de dar-se sem medida, embora seja ele quem pensa de antemão que ela encontra nisso seu desdobramento, sem conhecer o dom sem economia, que permanece para ele um além impensável.

25. O lugar do primeiro dom será fechado e dobrado num começo impensável do ser, impensável por sua ausência de economia, pela falta de enquadramento de seu espaço-tempo, pela apreensão imperceptível a todos os sentidos e por seu advento anterior a todo dizer, e o ser do homem constituir-se-á a partir do esquecimento do dom daquilo em que é, a partir do vazio sobre o qual se constrói como uma ponte, como funciona toda proposição e o logos em geral.

26. Para fazer a ponte, o homem precisou de matéria, e para que houvesse vazio foi preciso que a matéria primeiro o ocupasse, sendo talvez esse vazio do homem o horror da natureza, pois para criá-lo ele precisou dela, usando a matéria do primeiro lugar para esvaziá-lo e superá-lo, e ele e ela serão fechados e dobrados, do mesmo modo e diferentemente, em torno de um vazio elaborado a partir do que ele lhe toma sem retorno.

27. Ele só poderia retornar por uma construção arbitrária, já que usa a troca primeira entre eles para elaborar sua separação, podendo ir e vir indefinidamente sobre a ponte sem que nada chegue senão o que trará ou trará de volta seu próprio projeto.

28. A ponte, construída sobre o vazio, ligou duas margens que não existiam antes dela, fazendo duas margens, e, passagem solidamente estabelecida, liga dois vazios que antes não existiam, fazendo o vazio, de modo que aquilo para onde vai e aquilo para onde retorna só podem ficar suspensos numa serena espera.

29. No lugar do primeiro receptáculo e do primeiro encontro há agora vazio, transposto de seu lado por um caminho-ponte que serve para virar o primeiro invólucro do vazio em outro, formando um invólucro duplo ou laço, talvez o signo do infinito, estando a ponte no cruzamento dos dois invólucros, onde o dentro passa ao fora, que volta ao dentro após uma volta, sem mais dentro nem fora, retomando-se o todo num duplo cerco sem falha, dentro do qual se vai e vem de uma margem a outra quase insensivelmente, sem perceber a mudança de lado, sem transposição possível desse duplo limite.

30. O fora do ser-aí e o dentro da alma passam indefinidamente um no outro pela travessia de uma ponte de linguagem, percorrida na ida e na volta sem mudar de sentido, e o que se recebe do mundo e o que nele se dá ou redá passam insensivelmente de um ao outro, permanecendo no mesmo projeto e trajeto, talvez caminho.

31. Uma proposição que se sustenta por si não tem duas faces, uma de baixo e outra de cima, não adere a um substrato que a fundamente nem se sobrevoa para estimar distância, perspectiva ou ponto de vista, mantendo-se por, em e para si mesma, permanecendo impensado de onde tira sua matéria.

32. A proposição não se sustentaria se aquém do primeiro invólucro não houvesse aquela que de antemão nutriu sua constituição, organização e encadeamento, e além do segundo aquela que, de fora, sustenta sua constituição-aparição-projeção, duas provisões de matéria esquecidas.

33. Resta saber se é o mesmo esquecimento dela, indefinidamente repetido, se ela é esquecida duas vezes e depois sem fim, ou se há um duplo esquecimento de ao menos duas, se todas as presentes e futuras são tomadas no esquecimento de uma única sempre repetida ou se são sempre ao menos duas, e, nesse caso, que relação ele mantém com elas e elas entre si, se são postas no mesmo bando, como ele passa de uma a outra sem meios de atravessar a primeira, se as reduz uma à outra ou se a outra permanece sempre fora.

34. Essas questões quebram cabeças e pontes, mas procuram sair dos invólucros, das proposições e dos lás masculinos, e ainda não se começou a falar das relações entre os homens, que no entanto recobrem todo o resto e cercam indefinidamente a relação com elas, a menos que só se fale disso.

35. No primeiro encontro, antes do começo de seu pensamento, ela dá-se sob a forma de fluidos que penetram nele ultrapassando todos os limites, o invólucro que lhe serve de ambiência, o de seu corpo-coisa, o de seus órgãos e mucosas, o de suas células, entrada que vai além de todas as categorizações inteligíveis ou sensíveis, recebida imediatamente sem percepção da diferença entre percebedor e percebido, penetração constitutiva que ocorre na noite, dom sem medida e sem demonstração, pois ela não se dá a ver, não aparece nem se deixa chamar ou nomear no lugar onde se dá.

36. A vida que ela dá existe antes de toda demonstração possível, dando-lhe sem demonstração esse Gestell que é seu corpo vivo, por meio da mediação fluida do sangue, ponte natural entre ela e ele que vai num único sentido, salvo às vezes para o que não é bom.

37. Ele ainda não vê o mundo, as coisas, ela ou a si mesmo, vivendo numa proximidade sem distância, mesmo mantido naturalmente num invólucro, num tocar sem parada de bordas, retirando através dela, sem falar ainda, tomando sem pedir e sem que ela proponha com palavras, retirando ali sem ver nem designar onde, de quem ou como.

38. Ele não pode deixar de tomar, a menos que não seja, não sendo ainda livre de tomar ou ir embora, de ir e vir, de partir e retornar, de afastar-se e voltar a tomar, pois para tomar está encerrado nela, num todo permeável e fechado, numa morada cheia de água que só se abre para dar-lhe passagem quando pode prescindir dela, começando a ser nos e graças aos fluidos.

39. Isso talvez se esqueça e se supere na consistência e solidez de suas proposições e raciocínios, na coerência de sua linguagem, na permanência de seu ser e de sua verdade, na das coisas passadas, presentes e futuras, nesses invólucros sem falha em que a interrogação recai sobre a história, o envolvimento que ele se constituiu e continua a desenrolar e enrolar.

40. Resta perguntar onde estão no presente os fluidos que o nutriram e o fizeram e a passagem entre eles e ele, se esse dom sem retorno e essa dívida impagável não se repetirão sem fim como coisa natural, isto é, em sua linguagem, impensada e deixada no esquecimento, e como esse esquecimento se lembra, sem ser pensado, no que ele chama o ser e sua essência.

41. Pergunta-se onde ocorre então a repetição do primeiro encontro com ela e se haverá outro possível.

42. Convém talvez deter-se num certo pórtico que retém Heidegger, o do pressentir, pelo qual algo essencial chega de antemão sob o modo do pressentimento, dando-se à atenção para que se guarde, não ainda saber, mas o que recobre e esconde tudo o que se pode saber, pórtico que abre à pré-compreensão e à guarda de tudo o que é posto diante, à sua salvaguarda num legein que assegura sua reunião, e que lembra a abertura da clareira do ser, talvez também a passagem de um laço a outro, ou antes, mais cedo, de uma faixa a outra, abertura anterior ao salto no tudo-dizer, ao qual uma voz ainda muda incita soprando que é antes que isso seja.

43. Esse pórtico seria transposto a cada passo sem jamais ser transposto, reenviando sempre o passo seguinte ao anterior, o futuro ao passado, suspendendo nesse vaivém o que se põe ou não se põe no presente, e marcaria a abertura des-limitante da entrada nesse lá em que ele nunca entra realmente, permanecendo sempre no limiar, diante do que será ou já foi posto e reunido diante.

44. O pórtico des-limitaria a passagem entre dois lugares, embora o posto diante pareça único, e essa des-limitação abriria indefinidamente a um encontro que nunca ocorrerá, que se dirá sem ter lugar, que só terá lugar no dizer, sempre pressentido em seu advento, pré-compreendido, mas para ser guardado e reunido no dizer.

45. O pórtico onde e por onde passa o salto no tudo-dizer consistiria tanto no que já foi construído na relação de dom mudo entre ela e ele quanto no que se pressente de seu possível retorno no que acontece, mantendo-se entre.

46. O pórtico re-presentaria, ou antes permitiria a re-presentação de tudo através da construção daquilo com que ela o constituiu e continua a constituí-lo como vivente, abertura através desse corpo sólido que ele agora é e continua a receber dela sem demonstração, figurando o lugar da relação passada e futura entre ela e ele, o dom de seu corpo sob forma fluida tornado o que agora se mantém nele e por ele, elevado e erguido solidamente.

47. Na assimilação dela, graças à qual ele se mantém de pé, abre-se um arco pelo qual ele vai e vem sem cessar, suspenso entre a lembrança e a espera, esperando que volte aquilo de que se lembra e não se lembra.

48. Ela não poderia voltar, já que ele a assimilou a si, e resta saber o que ele espera, se assimilá-la ainda e sem fim ou lembrar o que se perdeu nessa assimilação, se espera por projetar sempre fazê-la sua e apropriar-se dela, ou se espera, além de toda espera, que venha a ele o que resiste à assimilação, embora rejeite o que resiste, de modo que fora dele só subsiste o que não pôde fazer seu e reenviou como tal, perguntando-se se há ainda algo diante do qual a assimilação-apropriação não dê a medida, também do faro, do sim ou do não, do abrir-se à ida na espera do encontro e do dobrar-se no retorno a si de uma assimilação que se mantém no retraimento.

  • Ele assimilou-a a si, e ela não pode voltar como tal.

49. Pergunta-se se há, aqui ou ali, possibilidade para alguma, ou outra, que não esteja já num lugar pressentido como o de sua apropriação, que não seja já dele, que não seja já, sempre já, ele, mesmo sob a forma que recebe de sua rejeição.

50. Essa questão é irrecebível por ele, que não a pensará como impensável ainda por ele, e a paciência com que agora afirma algo, a suspensão prudente de suas decisões, sua eventual recusa de tomar posição em nome próprio para deixar ser o que sempre já teria ocorrido, a maneira como renuncia a toda vontade própria e contorna ou desvia todo juízo não impedem que no começo, e de antemão, tenha havido a afirmação-decisão de que só há uma língua, a sua, e de que fora de seu noein, legein, einai, eon nada é, esquecendo que assim constituía o nada, o depositava e dispunha em sua língua, e que ninguém pode saber até que fundo sem fundo o nada pode arrastar.

51. Esse nada é, ou tudo é, exigiu um salto além de algo, pressentindo talvez, questão das mais antigas, que, se outra língua existisse, ele poderia ser atraído, tomado, assimilado, apropriado-desapropriado, salvaguardado numa verdade durável, excluído e rejeitado sem apelo, pois a outra língua, como a sua enquanto não há outra, arriscaria construir-se a partir de um dom anterior a toda palavra, de que o outro não se lembraria, e onde aquele que lhe teria dado a possibilidade de ser só teria lugar no não-lugar de um abismo.

52. Para quem não habita ali há muito e eternamente, essa ausência de todo sítio só atrai sob o modo do pavor, e no entanto é necessária se só há uma língua, o que permanece impensado e impensável por ele.

53. Ele se agarra à sua língua como ao que tem de mais sólido, sólido o bastante para agora poder pô-la em questão, pois o essencial é que haja uma só, a única, que ele já se apropriou e se reapropria sem fim.

54. Lembrar que seu corpo vivo saiu do abismo assimilando-se e apropriando-se de uma outra que se deu primeiro em silêncio e sob forma não sólida seria, dirá ele, o contrário, pois é por ser sua língua o que é que não podia ser de outro modo, e dificilmente se faz entender a partir de tal arrazoamento, pois ele se mantém agora mais em sua língua que em seu corpo vivo e quer que ela lhe assegure um fundamento sólido, que, posto por ele, não lhe faltará brutalmente, ao contrário do que provém de outra, cuja ausência o reenvia ao abismo, e não é ela, a ausente, quem grita primeiro, mas ele, grito que é apelo a ela antes de seu salto no tudo-dizer, bem antes de nomeá-la para tomá-la, guardá-la e reapropriar-se dela na palavra, para que venha tomar, esconder e guardar nela, preenchendo-o, o abismo, mas sempre ele a assimila, pois, se ele gritou, terá sido ela a chamar, e ela vem porque sempre já o chamou, ao menos em sua língua, modo de descarregar-se de seus abismos, pois, se ela o chamou primeiro, ele pode ser agora sem destruição possível, faltando-lhe menos que ele lhe falta, e ela lhe dará ainda e sempre de que viver.

55. O modo como ele predica arbitrariamente as coisas não esgotou seus recursos silogísticos, e parece até que, quanto mais desce ou sobe no sensível, mais meios emprega para mantê-las solidamente, e elas deixam-se tomar, ainda sem língua, chegando a esperar que ele parta de onde diria verdadeiramente o que são, o que sempre fez, ou que lhes fale, como se pudesse falar a coisas senão ainda em sua língua, isto é, sem falar.

56. Caberia antes a elas começar a falar, e é o que farão, começando a falar e até a falar-se através dele, o que sempre ocorreu, pois sempre se chamaram, nomearam, disseram e apresentaram através dele.

57. Não poderia ser de outro modo, já que fora de sua língua nada há.

58. Uma única língua é a lei mais peremptória e preemptória que existe, o que ele não quer saber.

59. É sem querer nem vontade que ele se volta agora para elas, acolhendo-as enquanto se destinam a ele, permanecendo sereno e em repouso no cruzamento dos dois laços, voltado sobretudo para o segundo, sob um pórtico e sobre uma ponte que passam indefinidamente um no outro segundo um salto, talvez do olhar, ocorrido mas esquecido, talvez esquecida a colagem presente das duas faixas.

60. Ele progride permanecendo, fica no mesmo sem excluir certo movimento, o que poderia definir sua operação de assimilação.

61. Para ela é preciso agora voltar-se para o lá diante da livre extensão, a região.

62. A região não é sem magia, como ele disse, sendo sua magia a potência própria de seu desdobramento e seu poder de oposição.

63. A livre extensão dá-se e estende-se continuamente sem fim, e, se a constituição do ente do ser ocorre na assimilação, a do ser do ente ocorre na participação, cuja possibilidade exige primeiro a constituição de um lugar de não-assimilação presente, a região, pois a livre extensão assimila primeiro e apenas a serenidade da suspensão da assimilação, podendo assim fazer durar o que conduz na extensão do repouso sem nada consumir, reunindo em si, como se nada se produzisse, todas as coisas, pondo-as em relação umas com as outras e todas com todas.

64. A região deixa aparecer e encontrar-se as coisas, mas sempre sob o modo de um face a face que exclui interpenetração e mistura, indo elas umas ao encontro das outras, mas mantendo-se diante de, em vis-à-vis, aproximando-se apenas na manutenção da distância e entrando no presente da presença, onde permanecerão em sua propriedade inalterável, postas, dispostas e recolhidas na região da palavra.

65. Pergunta-se em que pode ser a livre extensão, esse lá que se desdobra indefinidamente e reúne todas as coisas, pondo-as em relação como se nada se produzisse.

66. A livre extensão é primeiro em ar, pois sem o ar, sempre mais que o necessário ao consumo dos viventes e mais que o que agora os envolve e em que tudo lhes aparece, sem um recurso ilimitado e sempre excedente de ar, a livre extensão não teria lugar.

67. O excesso, que segundo Heidegger determina a entrada na filosofia da presença, é no caso do ar tão imediatamente evidente e tão pouco aparente que ele não pensou nele, não havendo pensamento do ar senão nos pré-socráticos que ele esquece, pois as coisas mais imediatamente evidentes, ou presentes, não preocupam o filósofo, distraído, abstrato, extasiado em seu lá, que cai no poço que não vê sob os pés, fazendo rir as criadas.

68. O ar livre seria o substrato material da região e o meio através do qual e no qual tudo pode aparecer, exceto ele próprio.

69. Pergunta-se por que esse ar livre está encerrado numa região vasta e capaz de desdobrar-se sem cessar, mas sempre limitada no presente, sendo o excesso o que o filósofo deve reconduzir à medida, determinada para o ar por uma relação, reavaliável a cada momento do presente, entre o excesso de ausência e o excesso de presença.

70. O ar livre é primeiro para o homem o advento de uma ausência grande demais, vinda do entorno em que ele entra, pois entra no fora e perde a morada do corpo vivo onde se mantinha antes, onde ela se dava a ele sem diferença entre fora e dentro, entre ela e ele, nutrindo-o por dentro sem demonstração, deixando passar nele sua potência sem que ele fizesse nada senão tornar-se esse Gestell, um corpo vivo.

71. Ao sair dessa morada, ele chega a um fora sem limites, sem bordas que o retenham, sem invólucro externo-interno que lhe dê o todo, sem ambiência, e, livre no ar livre, encontra-se primeiro na maior derelição, penetrado até o mais íntimo por esse fora sem limites, o que é para ele pavor, sendo o mesmo aquilo em que entra e aquilo que entra nele, imperceptivelmente presentes senão como excesso.

72. O outro fora apresenta-se primeiro como abismo, ausência sem fim que passa do fora ao dentro e do dentro ao fora.

73. Esse abismo é de ar livre, que faz gritar de aflição, pois a liberdade faz primeiro gritar, havendo ali ausência demais.

74. Esse grito é também um primeiro apelo, de ar, e no começo ele redá a si mesmo a vida por um grito de apelo de ar.

75. Segundo Heidegger, o grito é algo essencialmente diverso de um mero ruído e não é necessariamente um apelo, embora possa sê-lo, como o grito de aflição, pois o apelo vem verdadeiramente do lugar para onde se dirige, contém um impulso original rumo a algo e por isso pode desejar, enquanto o simples grito se perde e se atola em si mesmo, sem poder pedir à dor ou à alegria que o deixem permanecer, ao passo que o apelo chega lá, mesmo sem ser ouvido, contendo possibilidade de permanência, sendo preciso distinguir ruído, grito e apelo.

76. O primeiro apelo é um apelo de ar e confunde-se com um grito, no qual ele não pensa, pois não há ainda para ele linguagem, desvelamento nem entrada na presença no sentido em que a entende, já que ainda não vê nem fala e só ouve sons, embora estejam dadas as condições de possibilidade do que diz, a entrada no fora da ausência e o apelo-rejeição de ar, em que doravante permanecerá.

77. O ar permanece o que redá a vida, mas primeiro sob a forma de uma ausência, pois nada nele é senão o que ele é, sem aparecer, proveniência, mediação e meio de vida que se dão sem aparecer como tais e são sentidos na primeira vez como dor, pois o ar livre representa a possibilidade da vida, mas também o sinal da perda daquela que dava o todo sem distância, espera nem pena, sendo a vida ao ar, no começo, a imensidão ilimitada de um luto em que o todo está perdido.

78. O ar, esse lá que se dá sem limites e sem demonstração, sempre desdobrado e desdobrando, em que tudo virá em presença e relação, supre primeiro uma ausência, substituindo-a como algo que tem algumas de suas propriedades e se deixa igualmente, ou mais, esquecer, podendo ser o suporte do luto por não se perceber.

79. O ar é primeiro o ente da livre extensão, cuja medida será a do ainda por vir do luto daquela que não voltará, luto que, na espera e no esquecimento, não transparece como tal graças ao ar, antes sinal de vida, sendo ambos, e ele não pensa nisso, sem saber como não se enganar.

80. O que o ajudará no presente a esquecê-lo é a luz, pois o sol faz o esquecimento sobre aquela que estava antes na noite, sobre o ar e sobre o luto, despertando para o esquecimento e fazendo entrar no sono do esquecimento, no sonho de uma vida sem esquecimento.

81. Onde está agora o sol, cada coisa advém distinta, separada, em seu lugar, em sua presença, numa relação com as outras em que a proximidade se torna justaposição, permitindo a luz a aproximação das coisas à distância e sua vinda, a ele e entre si, num afastamento mais ou menos distante.

82. O próprio sol mantém-se sempre à distância, não se dá sem cessar, vai e vem permanecendo o mesmo, sempre onde está, e torna-se no presente a fonte.

83. O que se dá por toda parte e sempre, sem medida, não se pensa como fonte, pois para haver fonte é preciso primeiro luto, e a fonte esconde um luto, a ausência de um começo em que o todo estaria por toda parte e sempre, e com a fonte o homem entra na economia e na reserva, começa o vaivém da ausência à presença e fascina-se com o surgimento da presença para recobrir a ausência, talvez a ausente.

84. A origem é o todo proveniente de uma fonte, vindo no lugar e ocultando a perda de um todo outro ou de uma toda outra, aurora que faz entrar no esquecimento do que se dava sem medida e sem aparecer, a noite, e esse nascer do sol marca a passagem a outra apropriação, assistindo a ausência daquela que se tornou o homem pela assimilação dela a ele que o fez vivo, operação que nunca ocorre à luz do dia, permanecendo na sombra, pois, quando o sol transpõe o horizonte, ela já sempre se tornou ele, sem demonstração alguma.

85. O sol faz entrar no esquecimento do luto, na alegria do luto, na mania do luto, que abre ao pensamento do Ocidente, ao ser.

86. Ele não pensa nisso, mesmo quando diz que talvez tenha chegado o momento de fazer disso seu luto, em A palavra de Anaximandro.

87. Se o luto consiste em reapropriar-se da ausência, da ausente, a seu bel-prazer, ele só pode ser sereno e não pode renunciar a ele sem perda, pois, cortado de seu enraizamento natural, o homem extasiou-se num lá de onde assimila e reassimila o todo segundo seu ponto de vista e sua obra, bastando perseverança, resistência, paciência, ida e volta sem fim entre a espera do por-vir e a comemoração do passado, que devem a cada momento do presente ser postas em relação no e graças ao mesmo, o que exige certa duplicidade e um salto entre os dois onde ele está e entre os quais vai e vem sem cessar.

88. É sem dúvida o que se opera em seus textos, em que ele tece entre elas o esquecimento de uma e de outra, pondo-as em relação sem cessar através dele.

89. Ele não pensa que o que tece assim, como uma ponte ou caminho que se perde no mesmo, se passa entre ele e ele, que ela sempre já se tornou ele nele, que sempre já a assimilou em seu corpo e em sua língua, tecendo entre espera e lembranças, para que ela não volte, uma espécie de luto alegre.

90. Que ele a designe ou não, a chame ou não, a nomeie ou não, por exemplo physis, ou de outro modo, nada muda, e talvez assim a faça entrar mais ainda na ausência e no esquecimento, atraindo-a ainda mais para si e assimilando-a ainda mais a si, ao passo que, se a tivesse deixado ao menos uma vez, talvez pudesse lembrar-se de sua ausência.

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