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estudos:herrmann:2019-2

GA65 e SZ (2019:2)

HERRMANN, Friedrich-Wilhelm von. Transzendenz und Ereignis: Heideggers “Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis)” ein Kommentar. Würzburg: Königshausen & Neumann, 2019.

Segundo capítulo

Ser e tempo em retrospectiva a partir de Contribuições à filosofia (Do acontecimento apropriador)

1. A transcendência designa a via de visão e de questionamento da primeira elaboração da questão do ser, sistematicamente desenvolvida em Ser e tempo, enquanto o acontecimento apropriador (Ereignis) designa sua segunda via, inicialmente configurada em Contribuições à filosofia (Do acontecimento apropriador) (GA65), sem que a passagem entre ambas elimine a importância do primeiro caminho.

  • Ser e tempo permanece a obra fundamental na qual a primeira via da questão do ser foi elaborada sistematicamente.
  • Contribuições à filosofia apresenta a primeira configuração sistematicamente pensada da segunda via.
  • A retrospectiva realizada a partir do “Olhar preliminar” (Vorblick) situa Ser e tempo em relação interna com o caminho histórico do Ser desenvolvido nas Contribuições, impedindo que a segunda via seja interpretada como simples abandono da primeira.

2. A pergunta pelo sentido do ser formulada em Ser e tempo permanece a única pergunta condutora das Contribuições, porque interrogar o sentido significa buscar o domínio de projeção (Entwurfsbereich) no qual o ser se abre, isto é, a verdade do Ser (Seyn) como abertura temporalmente constituída.

  • O “sentido” não significa uma definição conceitual ou uma significação verbal, mas o horizonte a partir do qual o ser-aí (Dasein), enquanto compreende o ser, pode compreender o ser dos entes.
  • Compreender possui o sentido ontológico de projetar, abrir e desvelar, não o sentido cotidiano de planejar alguma coisa.
  • O domínio de projeção é o âmbito horizontal mantido aberto pelo projeto compreensivo e no qual o ser pode ser encontrado.
  • A abertura (Erschlossenheit) do ser possui constituição temporal, mas sua temporalidade não corresponde à sucessão ordinária dos “agoras”; deriva da temporalidade originária da qual a concepção vulgar do tempo é um modo derivado.
  • O ser aberto numa abertura temporal recebe caráter temporal ou temporal-ontológico, de modo que o título Ser e tempo indica a busca do sentido do ser em geral a partir do tempo originário.

3. A abertura como âmbito mais próprio no qual o ser se mantém aberto já recebe em Ser e tempo e nos Problemas fundamentais da fenomenologia a determinação de verdade do ser, compreendendo-se “verdade” a partir de aletheia como desvelamento, desocultamento e abertura, e não primariamente como concordância de uma proposição com um objeto.

4. A pergunta pelo sentido do ser, pelo domínio de sua projeção e pela verdade do Ser (Seyn) constitui a mesma pergunta fundamental em Ser e tempo e nas Contribuições, demonstrando a copertença entre as duas vias de elaboração apesar da transformação de sua perspectiva condutora.

5. O tempo originário de Ser e tempo funciona como indicação e ressonância antecipadora daquilo que nas Contribuições será pensado como verdade da essenciação (Wesung) do Ser na unicidade da apropriação (Er-eignung), de modo que a constituição temporal-ekstática da abertura constitui uma figura preparatória da verdade do Ser como acontecimento apropriador.

  • A temporalidade originária caracteriza a abertura ou verdade do ser na primeira via transcendental-horizontal.
  • Nessa temporalidade já ressoa aquilo que a segunda via explicitará como essenciação apropriadora do Ser.
  • A via das Contribuições não pode ser percorrida independentemente da preparação realizada por Ser e tempo, pois a formulação acontecimental da verdade do Ser emerge da transformação de sua figura temporal-ekstática.

6. Ser e tempo não pertence à metafísica nem já realiza plenamente o pensamento historial do Ser (seynsgeschichtliches Denken), mas ocupa a passagem da pergunta diretriz (Leitfrage) pelo ente em seu ser para a pergunta fundamental (Grundfrage) pela verdade do próprio Ser, razão pela qual sua analítica existencial não pode ser reduzida à ontologia tradicional ou a uma doutrina das categorias.

  • A via transcendental-horizontal de Ser e tempo já abandona a orientação metafísica centrada exclusivamente no ente enquanto ente.
  • A explicitação do ser-aí realizada pela analítica existencial constitui um caminho de acesso à abertura ou verdade do ser.
  • A ontologia e a doutrina categorial tradicionais não oferecem o solo adequado para interpretar essa passagem, pois reconduziriam a analítica do ser-aí às determinações metafísicas que ela procura superar.
  • O caráter transitório de Ser e tempo permite distingui-lo simultaneamente da metafísica precedente e da elaboração acontecimental posterior.

7. A superação desenvolvida da pergunta diretriz deve preparar a passagem para o outro início, tornando-o visível e pressentível, e Ser e tempo cumpre essa preparação ao situar-se já na pergunta fundamental sem ainda desenvolvê-la originariamente a partir de si mesma.

  • O primeiro início compreende inicialmente a experiência pré-metafísica de aletheia, physis e logos entre Anaximandro, Heráclito e Parmênides.
  • A passagem do pensamento grego mais antigo para Platão e Aristóteles constitui um afastamento (Fort-gang) da experiência pré-metafísica e inaugura a elaboração metafísica da questão do ente.
  • A história do primeiro início desenvolve-se como história da metafísica e da pergunta diretriz até sua consumação.
  • O outro início não repete nem elimina o primeiro, mas pergunta de maneira originária pela verdade do Ser que permaneceu impensada em sua história.
  • A história da essenciação do Ser reúne o início pré-metafísico, o afastamento que conduz à metafísica e o começo não metafísico do outro início.

8. O outro início distingue-se do primeiro por ser conduzido pela pergunta fundamental acerca da verdade ou desvelamento do Ser, e Ser e tempo pertence à sua preparação porque torna inicialmente visível e pressentível essa possibilidade mediante a passagem para além da pergunta metafísica pelo ente.

9. A meditação ontológico-fundamental de Ser e tempo constitui a passagem do fim do primeiro início para o outro início e, ao fundamentar a ontologia com vistas à sua superação, funciona como impulso preparatório para o salto mediante o qual o outro início pode propriamente começar.

  • A ontologia fundamental (Fundamentalontologie) designa a elaboração da pergunta pelo sentido do ser em geral.
  • A superação da ontologia não significa sua simples rejeição, mas o desenvolvimento de seu fundamento até que se torne possível ultrapassar a orientação metafísica.
  • A passagem parte do encerramento do primeiro início e prepara uma relação originária com a verdade do Ser.

10. A pergunta ontológico-fundamental realiza-se na perspectiva da transcendência e do horizonte, constituindo a passagem do término metafísico do primeiro início, especialmente representado pela posição fundamental de Nietzsche, para o outro início.

11. A ontologia fundamental constitui apenas o impulso para o salto e não o salto consumado, pois Ser e tempo ainda pensa a verdade do ser transcendental e horizontalmente, enquanto o pensamento historial do Ser salta para a pertença ao Ser em sua essenciação plena como acontecimento apropriador.

  • O salto não significa uma descontinuidade arbitrária do pensamento ou uma mudança súbita de opinião filosófica.
  • Aquilo que salta é o pensamento historial do Ser, ao ingressar na pertença à essenciação do Ser como acontecimento apropriador.
  • Ser e tempo prepara esse salto mediante a determinação transcendental-horizontal da verdade do ser, mas ainda não explicita seu caráter acontecimental.
  • A articulação denominada “O salto” nas Contribuições realiza a possibilidade preparada pela primeira via.

12. Ser e tempo é a passagem para o salto mediante o questionamento da pergunta fundamental, não podendo ser interpretado como filosofia da existência sem que permaneçam incompreendidos tanto sua função transitória quanto seu direcionamento para a verdade do Ser.

13. O impulso inicial para o outro início (Ansprung) tentado em Ser e tempo ainda não constitui o próprio salto, mas pertence a ele como movimento preparatório que reúne o impulso de aproximação e o salto futuro numa única orientação.

14. Ser e tempo não apresenta um ideal nem um programa filosófico a ser executado, mas o início em preparação da própria essenciação do Ser, isto é, a preparação daquele acontecer que nas Contribuições será pensado como acontecimento apropriador (Ereignis).

15. A passagem da perspectiva transcendental-horizontal para o pensamento historial do Ser não implica o abandono da analítica existencial do ser-aí, porque as análises ontológico-existenciais conservam sua importância para o pensamento do acontecimento apropriador mesmo quando se transforma a perspectiva na qual foram inicialmente realizadas.

  • A via de Ser e tempo desenvolve a pergunta pelo sentido do ser mediante a explicitação analítica do ser-aí.
  • A analítica do ser-aí e a perspectiva transcendental-horizontal não são simplesmente idênticas, embora a primeira tenha sido inicialmente conduzida pela segunda.
  • O abandono da perspectiva transcendental-horizontal não torna dispensáveis as descobertas essenciais da analítica existencial.
  • A aproximação do pensamento do acontecimento apropriador exige conservar e transformar as determinações alcançadas no percurso de Ser e tempo.

16. A analítica do ser-aí constitui a primeira indicação do ser-aí como fundação da verdade do Ser, pois atravessa a pergunta pelo ser humano para compreendê-lo não antropologicamente, mas como aquele que projeta o ser e mantém aberta sua verdade.

  • O ser humano é retirado do horizonte da antropologia ao ser compreendido a partir de sua relação constitutiva com a abertura do ser.
  • O projeto do ser não representa uma produção subjetiva, mas o modo de abertura no qual o ser pode tornar-se compreensível.
  • A função preparatória da analítica do ser-aí somente se esclarece mediante a reconstrução dos passos sistemáticos de Ser e tempo.

17. A palavra ser-aí (Da-sein) recebe em Ser e tempo sua primeira determinação essencial e resiste à tradução para os esquemas da tradição ocidental porque sua significação não é estabelecida por uma definição isolada, mas conquistada ao longo da analítica ontológico-existencial e preservada como essencial para o pensamento historial do Ser.

  • A intraduzibilidade do termo indica sua resistência às perspectivas consolidadas da metafísica e às maneiras tradicionais de pensar e dizer.
  • A significação integral de ser-aí somente se constitui mediante as análises concretas de sua estrutura existencial.
  • A separação entre o termo e o caminho analítico que lhe confere sentido esvaziaria justamente a determinação que permanece válida nas Contribuições.
  • O pensamento do acontecimento apropriador conserva o ser-aí não como conceito herdado sem transformação, mas como aquisição essencial da análise fenomenológica.

18. A analítica do ser-aí deve ser conservada no interior do pensamento do acontecimento apropriador mediante a distinção entre suas descobertas ontológico-existenciais e a perspectiva transcendental-horizontal que inicialmente as orienta, permitindo libertar essas descobertas de sua primeira via de exposição e reinscrevê-las no campo transformado do acontecimento apropriador.

  • A identificação integral entre a analítica e a perspectiva transcendental-horizontal levaria à conclusão equivocada de que ambas foram abandonadas conjuntamente.
  • As intuições essenciais acerca da constituição do ser-aí não dependem de maneira inseparável da estrutura transcendental-horizontal.
  • A transformação exigida não suprime as análises, mas desloca sua compreensão para a relação acontecimental entre ser-aí e Ser.
  • O pensamento historial do Ser torna-se compreensível ao se preservar a analítica hermenêutica e transformar a perspectiva que a conduzia.

19. O ser-aí não pode ser demonstrado ou descrito como algo simplesmente dado (Vorhandenes), mas somente conquistado hermeneuticamente no projeto lançado (geworfener Entwurf), mediante um acompanhamento fenomenológico que participa explicitamente da realização da vida fática sem convertê-la em objeto de reflexão.

  • A fenomenologia formal deixa ver aquilo que se mostra tal como se mostra a partir de si mesmo; aplicada ao ser-aí, transforma-se metodicamente em hermenêutica no sentido de interpretação.
  • A interpretação hermenêutica não assume a estrutura reflexiva pela qual vivências seriam colocadas diante de um observador e examinadas como objetos.
  • A fenomenologia hermenêutica das primeiras preleções de Friburgo distingue-se da fenomenologia reflexiva de Husserl por acompanhar expressamente a realização da vida fática, compreendida como ser-aí e não como consciência.
  • O acompanhamento (Mitgehen) impede que as vivências sejam postas a desfilar diante de um olhar reflexivo e mantém o pensamento junto ao movimento próprio da existência.
  • O projeto lançado não é apenas uma estrutura fundamental do ser-aí investigado, mas determina também o próprio pensamento fenomenológico que o interpreta.
  • A interpretação abre projetivamente aquilo que se mostra no acompanhamento hermenêutico, realizando-se como projeto lançado que explicita outro projeto lançado.
  • O ser-aí existe pré-científica e pré-filosoficamente como projeto lançado, e a existência que fenomenologicamente interpreta também pensa segundo essa mesma estrutura.
  • A hermenêutica do ser-aí conserva sua validade no caminho historial do Ser porque somente ela permite conquistar o ser-aí a partir de seu próprio modo de existir.

20. A indicação de que o ser-aí somente pode ser conquistado hermeneuticamente exige conservar a hermenêutica do ser-aí como condição indispensável para a apropriação do pensamento do acontecimento apropriador.

21. O ingresso no pensamento do acontecimento apropriador requer a mediação de Ser e tempo, pois as Contribuições preservam a hermenêutica do ser-aí e pressupõem o domínio da perspectiva transcendental-horizontal para que se compreenda sua transformação imanente na perspectiva do acontecimento apropriador.

  • A primeira configuração do pensamento do acontecimento apropriador mantém expressamente as conquistas essenciais de Ser e tempo.
  • A hermenêutica do ser-aí permanece indispensável ao pensamento historial do Ser.
  • A perspectiva acontecimental não surge mediante um salto despreparado, mas da transformação interna da transcendência e do horizonte.
  • O ser-aí hermeneuticamente conquistado é conservado na nova perspectiva, embora sua relação com a verdade do Ser passe a ser pensada a partir do acontecimento apropriador.
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