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estudos:herrmann:1985-3

Ser (1985:III)

HERRMANN, Friedrich-Wilhelm von. Subjekt und Dasein: Interpretationen zu “Sein und Zeit”. Frankfurt am Main: V. Klostermann, 1985.

As análises da disposição (Befindlichkeit) e da compreensão (Verstehen) possuem uma importância central dentro da analítica existencial-ontológica do Da-sein humano, e sua posição de destaque não vale apenas para a liberação existencial-ontológica do ser do Da-sein, mas também para a elaboração da questão fundamental da filosofia fundamental (Fundamentalontologie) pelo sentido do ser em geral (Sinn von Sein-überhaupt), sendo necessário esclarecer o que significa a analítica existencial-ontológica do Da-sein, o que significa a questão fundamental da filosofia fundamental pelo sentido do ser em geral e em que relação essas duas questões se encontram, pois a questão mais abrangente é a questão fundamental da filosofia fundamental pelo sentido do ser em geral, que constitui o problema fundamental de “Ser e Tempo”.

A pergunta pelo sentido do ser em geral visa algo como uma universalidade em contraposição ao particular, podendo-se distinguir entre o ser em geral e o ser em particular, e uma vez que o ser é ser de ente, é plausível entender sob o ser em particular as múltiplas espécies de ser (Seinsarten) do ente diferenciado por essas espécies, distinguindo Heidegger as espécies de ser do ser-à-mão (Zuhandensein), do ser-simplesmente-dado (Vorhandensein), da vida e da natureza viva, do ser ideal e da existência ou do Da-sein, de modo que há ente como ente à mão, como simplesmente dado, como natureza viva, como ente ideal e como Da-sein.

  • Entre as espécies de ser enumeradas, destaca-se a espécie de ser do Da-sein, na qual somos nós mesmos, cada um para si, mas também para o outro, a quem ele ocorre como Da-sein, e vice-versa, mas não porque o ente na espécie de ser do Da-sein somos nós mesmos e nos consideramos o ente mais elevado dentro do ente finito é que a espécie de ser do Da-sein se destaca da coordenação das espécies de ser; entre as demais espécies de ser e a do Da-sein existe uma ruptura (Riß), de modo que não se pode nomear a espécie de ser do Da-sein no mesmo fôlego que as outras, e essa ruptura significa tanto uma diferença quanto uma pertença mútua.
  • A diferença diz que a espécie de ser do Da-sein não se distingue das outras apenas como estas se distinguem entre si, mas de uma maneira mais decidida e radical, pois o ente à mão, simplesmente dado, vivo e ideal concordam em ser ente não próprio do Da-sein, enquanto o ente próprio do Da-sein caracteriza-se por não apenas ser, mas por compreender em seu ser tanto o próprio ser quanto as outras espécies de ser, e o traço fundamental do ser do ente que cada um de nós é está, em conexão com a compreensão do próprio ser, na compreensão das múltiplas espécies de ser.
  • Com isso responde-se à questão de como as espécies de ser nomeadas, apesar de sua profunda diferença em relação à espécie de ser do Da-sein, pertencem a esta, pois o Da-sein não é à mão como o objeto de uso com que lida, nem é simplesmente dado como uma coisa que é determinada no acesso cognoscente intuitivo e conceitual quanto a suas propriedades essenciais e acidentais, mas o modo como ele é é caracterizado por sua compreensão do próprio ser em conexão com a compreensão de todas as demais espécies de ser, nas quais o ente lhe ocorre.
  • O ser do Da-sein humano, que em si mesmo é um auto-compreender-se e compreender o ser de ente não próprio do Da-sein, Heidegger chama de existência (Existenz), e somente porque existimos na abertura compreensiva para nosso ser em meio ao ente numeroso e multiforme também como compreensão das espécies de ser desse ente é que compreendemos o ente como ente; compreender o ente como o que e como ele é significa compreendê-lo a partir de sua espécie de ser.
  • A compreensão do próprio ser e a compreensão das espécies de ser do ente não próprio do Da-sein não são ainda uma compreensão explícita, refletida, interpretada categorialmente e apreendida conceitualmente, pois antes de toda reflexão sobre o ser e as estruturas de ser já nos mantemos sempre em uma múltipla compreensão do ser (Seinsverständnis), que Heidegger designa como pré-ontológica (vorontologisch), isto é, pré-filosófica, podendo ser tematizada e interpretada categorialmente na reflexão filosofante, direção na qual se moveu a ontologia tradicional desde Platão, embora estivesse predominantemente orientada pelo ente como simplesmente dado, coisa e objeto.
  • Para Heidegger, porém, o problema do ser da ontologia não se esgota na interpretação categorial da espécie de ser do ente, e diante da multiplicidade das espécies de ser e suas categorias, ele coloca a questão pelo simples oculto do ser (verborgenen Einfachen des Seins), que precede a multiplicidade das espécies de ser e seus significados categoriais e que possibilita a variedade das espécies de ser ao fazê-las brotar de si, e esse simples do ser deve distinguir-se da multiplicidade das espécies de ser e suas estruturas categoriais, tendo Heidegger designado essa diferença como diferença ontológica (ontologische Differenz), e o simples do ser buscado em “Ser e Tempo” é o que ele chama de “ser em geral” (Sein-überhaupt).
  • A universalidade do ser visada não deve ser procurada na direção da universalidade genérica e específica, pois a universalidade do ser não forma o gênero supremo do ente, como já formulou Aristóteles, e também é insuficiente dizer que a universalidade do ser é o que compreendemos como “ser” em todas as espécies particulares de ser, pois o ser em geral seria apenas o caráter comum do ser a todas as espécies particulares de ser, na medida em que compreendemos o ser de modo análogo em todas as estruturas de ser interpretadas categorialmente como o traço universal do ser que se modifica em conteúdo segundo as diferentes espécies de ser e suas categorias; Heidegger, ao contrário, busca o sentido do ser, o ser em geral em sua diferença para as espécies de ser e suas categorias, em um âmbito que se situa para além da universalidade do ser apenas indicada e que é mantido velado por esse caráter universal do ser que perpassa todas as espécies de ser e suas categorias.
  • Heidegger compreende seu pensamento, que coloca sob o nome de “Ser e Tempo”, como uma fundamentação radicalizadora de toda a ontologia e metafísica transmitidas, e sua crítica à tradição diz que esta sempre tomou o problema do ser apenas como problema da espécie de ser do ente e da interpretação categorial do ser do ente, nunca tendo perguntado para além de uma apreensão conceitual do caráter universal comum a todas as categorias do ser, ou seja, a ontologia e a metafísica transmitidas nunca viram, expuseram e desenvolveram o problema do ser como problema do simples do ser em sua diferença para a multiplicidade do ser do ente interpretado categorialmente.
  • Antes que o ser do ente multiforme e das múltiplas regiões de ser possa ser interpretado categorialmente, deve-se colocar e responder a questão mais originária, a questão que pergunta de onde, de qual essência simples do ser, compreendemos a multiplicidade do ser categorial do ente, e o problema ontológico da interpretação categorial do ser do ente só se tornará transparente a si mesmo quando previamente for liberado o fundamento sobre o qual a interpretação categorial do ser se assenta e que ela pressupõe sem questionar.
  • A questão antecedente à interpretação categorial do ser por seu fundamento possibilitador, ou seja, pelo simples do ser oculto na multiplicidade do ser categorialmente interpretado, é o problema da fundamentação de toda ontologia, a filosofia fundamental (Fundamentalontologie).

Como a filosofia fundamental (Fundamentalontologie) pode ser exposta e seu perguntar pode ser posto em movimento de um modo adequado à coisa buscada é respondido pelo problema primeiro mencionado, a liberação existencial-ontológica das estruturas de ser do Da-sein, pois o Da-sein é uma dentre várias espécies de ser que se distingue de todas as demais por estar referida a elas de um modo eminente, e essa referência é a compreensão, a compreensão do ser (Seinsverstehen), cuja essência da espécie de ser do Da-sein reside no estar-aberto compreensivo para o próprio ser e, fundado nisso, na compreensão das espécies de ser do ente não próprio do Da-sein; se a compreensão do ser não se esgota na compreensão das espécies de ser do ente interpretáveis categorialmente, mas o problema do ser deve ser recuado a uma dimensão ainda mais profunda, a dimensão do simples do ser, que precede a multiplicidade do ser compreendido categorialmente, então esse simples do ser buscado é o horizonte mais extremo e originário, a partir do qual compreendemos, de modo não expresso, tanto pré-ontológica quanto ontologicamente, o ser do ente interpretável categorialmente.

  • O ser como espécie de ser e como ser em geral só se tornam apreensíveis através da compreensão do ser, e o ser está em uma referência essencial (Wesensbezug) à compreensão do ser do Da-sein, de modo que se impõe a questão sobre qual função a compreensão do ser humano tem para o ser, para o simples do ser em geral e para o ser categorial do ente, e para responder a essa questão é necessária uma investigação filosófica da compreensão do ser como o traço fundamental ôntico do Da-sein.
  • Como o ser do Da-sein é a existência, a investigação exigida é a analítica existencial-ontológica do Da-sein, que pergunta pelas estruturas constitutivas da existência que constituem a compreensão do ser como a compreensão do próprio ser, do ser categorial do ente não próprio do Da-sein e, antes de tudo, do simples do ser como o horizonte mais originário a partir do qual se determina a compreensão do ser categorial.
  • A introdução dada ao complexo problemático da filosofia de “Ser e Tempo” deve tornar claro que a tão citada e ainda hoje frequentemente malcompreendida análise existencial-ontológica do Da-sein não é uma filosofia da existência (Existenzphilosophie) ao estilo de Sartre ou Jaspers, pois no centro do pensamento de Heidegger não está o homem, nem o sujeito, nem a existência humana, mas o ser universal, e somente a partir da problemática radicalizada do ser é que se determina a análise da existência, de modo que a análise existencial do Da-sein não é um fim em si mesma, mas está a serviço da temática mais abrangente do ser.
  • As análises da disposição (Befindlichkeit) e da compreensão (Verstehen) têm uma importância especialmente acentuada não apenas para a liberação existencial-ontológica do ser do Da-sein, mas também para a elaboração da questão fundamental da filosofia fundamental (Fundamentalontologie) pelo sentido do ser em geral.
  • A questão existencial-ontológica pelo ser do Da-sein é colocada por Heidegger de tal modo que com o primeiro passo analítico não apenas o ser do Da-sein e as espécies de ser do ente não próprio do Da-sein são tomados em vista, mas também já o ser em geral, o simples do ser buscado, ainda que ele não seja tematizado como tal, e essa tese interpretativa se opõe a uma grande parte da literatura secundária sobre Heidegger, que argumenta que “Ser e Tempo” contém apenas a análise existencial-ontológica do Da-sein, e que apenas o terceiro capítulo não publicado teria respondido à questão fundamental da filosofia fundamental pelo sentido do ser.
  • O ser em geral, que Heidegger queria trazer à evidência como o tempo originário (ursprüngliche Zeit), deveria e poderia ser tematizado apenas no terceiro capítulo não publicado, mas isso não exclui que ele já esteja sempre co-tematicamente (mitthematisch) nos dois capítulos anteriores da análise existencial, e somente na medida em que ele já está aqui co-tematicamente é que pode ser tematizado propriamente no terceiro capítulo.
  • O simples buscado do ser em geral em sua diferença para as espécies de ser do ente interpretáveis categorialmente está co-tematicamente presente no início da analítica do Da-sein na medida em que o Da-sein é tomado em vista como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), e no fenômeno do ser-no-mundo Heidegger vê a constituição fundamental ontológica do Da-sein, cuja analítica é a liberação fenomenológico-ontológica das estruturas e momentos estruturais que constituem a constituição de ser total do ser-no-mundo.
  • Dessa constituição fundamental, Heidegger destaca inicialmente três momentos fundamentais: o mundo (Welt), o si mesmo do Da-sein que existe como ser-no-mundo, e o ser-em (In-Sein), e nessa ordem as análises singulares estão dispostas, de modo que, após uma orientação preliminar sobre o que o ser-no-mundo significa no âmbito da análise existencial-ontológica e quais as pré-opiniões que se instalam ao ouvir essa expressão devem ser mantidas à distância, segue-se a análise existencial-ontológica do fenômeno do mundo.
  • O mundo não significa a totalidade das coisas e processos materiais, e o mundo não é absolutamente compreensível a partir do ente intramundano, mas este só é compreensível a partir do mundo, ou seja, o Da-sein compreende o ente intramundano no que ele é apenas na medida em que já compreende previamente o mundo a partir do qual o intramundano lhe ocorre; ao ser do Da-sein pertence essencialmente essa compreensão de mundo, e somente com base em sua compreensão de mundo ele pode, nas maneiras de seu múltiplo trato que lida, mas também nos caminhos do conhecer, dirigir-se ao ente.
  • Heidegger determina o mundo, em diferença do intramundano, como a totalidade formal de estruturas de referência (formale Ganzheit von Bezugsstrukturen) que subjaz a cada ambiente concreto como a totalidade de ocorrência concreta; o Da-sein só chega compreensivamente ao ente com base na compreensão prévia da totalidade de referência do mundo, a partir da qual o ente se lhe mostra primariamente como útil à mão (zuhandenes Zeug) e secundariamente como coisa simplesmente dada (vorhandenes Ding).
  • A constituição fundamental ontológica do ser-no-mundo é ao mesmo tempo visada como a superação ontológica da relação sujeito-objeto (Subjekt-Objekt-Beziehung) como a base de partida aparentemente evidente para um perguntar pela relação do homem com o mundo; mais originário do que o conhecer do objeto pelo sujeito é a compreensão do mundo que reside no ser do Da-sein, dentro da qual o Da-sein se compreende a si mesmo como um ente que se ocupa (besorgendes Seiendes) e a partir da qual o ente com que ele se ocupa ocupadamente se lhe mostra como intramundano.
  • Após a análise do mundo, que é uma análise tanto do mundo quanto da compreensão existencial de mundo, segue-se a análise do ser-em (In-Sein), que tematiza o fenômeno que já estava em vista nas análises anteriores sem ter sido tratado propriamente, e que sempre vinha à fala quando se falava da compreensão do próprio ser e do mundo em diferença do intramundano, e na análise do mundo foi determinado o estar familiarizado compreensivo com o mundo como abertura compreensiva (verstehende Aufgeschlossenheit) do mundo para o Da-sein.
  • A resposta sobre como o mundo está aberto (aufgeschlossen) no ser do Da-sein e o que essa abertura (Aufgeschlossenheit) significa como fenômeno ontológico é dada pelo quinto capítulo do primeiro capítulo, especialmente pela análise da disposição (Befindlichkeit) e da compreensão (Verstehen), pois disposição e compreensão são os dois existenciais fundamentais (Grundexistenzialien) no ser do Da-sein nos quais o mundo está aberto, e disposição e compreensão estão em uma relação privilegiada com o fenômeno da abertura (Erschlossenheit), sendo que aqui a abertura se torna temática pela primeira vez por meio da análise ontológica dos existenciais da disposição e da compreensão.
  • O fenômeno ontológico da abertura, que é idêntico ao Da do Da-sein, é o simples do ser em geral já antecipado com o início da analítica do Da-sein, e a tarefa de uma interpretação profunda das análises da disposição e da compreensão consiste em tornar visível que não apenas dois existenciais fundamentais do Da-sein são destacados, nos quais Heidegger supera a abordagem moderna do sujeito, mas que com esses dois existenciais fundamentais já se mostra o sentido buscado do ser em geral na diferença ontológica para o ser do ente interpretável categorialmente.
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