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Genealogia da Psicanálise
HENRY, Michel. Généalogie de la psychanalyse: le commencement perdu. 2e éd ed. Paris: Pr. Univ. de France, 2003.
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Apresentação. Um herdeiro tardio
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1. “Videre videor”
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2. O declínio dos absolutos fenomenológicos
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3. A inserção do “ego cogito” na “história da metafísica ocidental”
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4. A subjetividade vazia e a vida perdida – a crítica kantiana da alma
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5. A vida reencontrada – o mundo como vontade
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6. A vida e suas propriedades – o recalque
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7. Vida e afetividade segundo Nietzsche
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8. Os deuses nascem e morrem juntos
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9. O símio do homem: o inconsciente
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Potencialidades
Um herdeiro tardio
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Quando uma forma de pensamento envelhece e se inclina para seu fim, cabe interrogar o longo processo de sua maturação e vinda à luz, e não seus sucessos ou fracassos atuais, para nele ler os sinais anunciadores de seu destino; a genealogia da psicanálise instrui sobre ela mais seguramente do que sua eficácia terapêutica contestada, cabendo à filosofia esclarecer o motivo desse declínio de um corpus teórico que se propôs originalmente como revolução total na compreensão do ser mais íntimo do homem — sua Psique — e como reviravolta da própria filosofia tradicional.
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Essa pretensão revolucionária constitui sua principal ilusão, pois as razões do lento refluxo da psicanálise não lhe são próprias, sendo antes o termo de uma longa história que é a da própria incapacidade da pensamento ocidental de se apoderar do que realmente importa; Freud é um herdeiro tardio, e o que urge afastar não é Freud, mas a herança mais pesada e antiga que ele recolheu sem sabê-lo das pressuposições que guiaram ou desnortearam a filosofia clássica, herança cujas implicações últimas devem ser postas em causa, sendo o objetivo trazer à luz o fundo impensado do qual ela procede.
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O conceito de inconsciente surge na modernidade ao mesmo tempo que o de consciência e como sua exata consequência, tendo sido Descartes quem introduziu a consciência com seu sentido atual, não mais moral, mas ontológico radical, designando o aparecer considerado em si mesmo, a manifestação originária em que tudo o que existe se torna fenômeno para nós.
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Descartes levou o conceito de consciência a uma profundidade cuja alcance nunca foi verdadeiramente percebido, nem mesmo pela fenomenologia contemporânea que pretendia lhe dar pleno desenvolvimento, nem por ele próprio, pois o cogito só se realiza com a epoché do mundo, com a suspensão não apenas de tudo o que existe mas da fenomenalidade do mundo enquanto tal — o Dimensional extático ao qual o pensamento se vincula desde a Grécia; o que Descartes buscou apaixonadamente não se obtém como abertura de um Aberto outorgado por uma Natureza originária, nem sob a forma da ideia de Platão, da percepção dita cartesiana ou da representação dos modernos, mas precisamente pela rejeição de todas elas, como o inteiramente outro do ek-stasis; penso, em Descartes, quer dizer tudo menos o pensamento — quer dizer a vida, o que a Segunda Meditação chamava de “alma”.
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As pretensões científicas de Descartes, embora legítimas em si, sobrepuseram-se ao projeto primitivo, desviando-o de seus objetivos verdadeiros e relegando-o ao esquecimento; o esforço de uma fenomenologia radical capaz de discernir, no próprio puro aparecer e sob a fenomenalidade do visível, uma dimensão mais profunda onde a vida se atinge a si mesma antes do surgimento do mundo, malogrou-se, perdendo-se o que esse desdobramento misterioso do conceito de consciência, ao designar simultaneamente o visível e o invisível, implicava; assim se produziu o desvio histórico pelo qual a via aberta rumo ao Começo foi abandonada, enquanto a “filosofia da consciência” seguia em direção oposta, rumo ao mundo e a seu saber, a uma teoria transcendental do conhecimento e da ciência, tornando possível o domínio das coisas e o universo da técnica; é em Kant, com sua ontologia da representação como relação entre sujeito e objeto, que essa filosofia da consciência se eleva sistematicamente, interditando definitivamente ao homem moderno o acesso ao que constitui seu ser mais íntimo.
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Freud toma emprestado da tradição filosófica, e também do senso comum, seu conceito de consciência, ao ponto de a Bewusstheit freudiana designar explicitamente a consciência representativa; contudo, ao afirmar que o fundo da psique escapa a essa consciência, sem nunca se propor como o exterior de alguma exterioridade, a afirmação de um inconsciente reveste-se de alcance ontológico imenso, pois estabelece que a essência originária do ser se subtrai ao meio de visibilidade em que o pensamento, filosófico e científico, a busca desde a Grécia; numa filosofia da consciência ou da natureza que reduz a fenomenalidade à transcendência de um mundo, o inconsciente é o nome da vida.
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O caráter epigonal, filosoficamente falando, da obra de Freud torna-se evidente diante de Schopenhauer, que pôs termo brutal ao reinado da metafísica da representação ao declarar que esta nada exibe em si que possa pretender à condição de ser real ou existência verdadeira, sobredeterminando essa afirmação decisiva com outra igualmente essencial: que o ser que jamais advém como objeto de um sujeito, definindo a realidade nessa recusa de ser objeto, é a vida; a interpretação do ser como Vida constitui o evento crucial da cultura moderna, o momento em que ela retorna ao Começo.
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A invenção schopenhaueriana, redobrando a de Descartes, projeta ao primeiro plano as determinações fundamentais da existência — o corpo, a ação, a afetividade —, o solo sobre o qual o pensamento sempre se edifica, finalmente levado em consideração; surge assim em Schopenhauer uma temática nova sobre a corporeidade, o instinto, a sexualidade, o amor, a vergonha, a crueldade, e até os problemas particulares e decisivos que se jogam nesse nível — os “dramas”, como diria Politzer — como a escolha que os amantes fazem um do outro.
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A afirmação de que o inteiramente outro da representação, aquilo que nela jamais se mostra, define sozinho o ser verdadeiro, não escapa à especulação senão se esse outro se revelar em si mesmo, em seu próprio reino, naquilo que Schopenhauer chama Vontade; sem isso, o ser irrepresentável não passa do numeno kantiano, entidade especulativa que o idealismo alemão se esforça por reabsorver na representação, deixando-a escapar de novo; apenas uma fenomenologia verdadeiramente radical, capaz de captar a essência da vida como a do aparecer originário, é capaz de retê-la onde ela está — em nós, como aquilo mesmo que somos —, arrancando-a dos fantasmas e mitos de um além-mundo.
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Schopenhauer não possui os meios filosóficos para construir essa fenomenologia radical; estabelece, de modo genial, que o outro da representação nunca pode ser apreendido nela, e designa então uma corporeidade primitiva como o lugar de seu cumprimento e ao mesmo tempo como aquilo que nos identifica a ele; a teoria kantiana do sentido interno, contudo, ao reduzir esse último — a subjetividade absoluta — à ek-stase do tempo e assim a uma representação, impede-o de dar significação fenomenológica à imanência que define afinal a Vontade, que se vê recolocada sob o jugo do pensamento ocidental e submetida a seu destino: produzir-se na luz da ek-stase temporal ou afundar na noite, ou seja, no inconsciente; a vida é perdida no exato momento em que é nomeada, e Freud já está ali por inteiro.
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Com Nietzsche fulgura por um instante o pensamento radioso que devolve a vida ao aparecer como sua essência própria, sob a condição de um progresso decisivo: que o aparecer seja enfim reconhecido na dimensão não extática de seu advir inicial e eterno em si mesmo — o Eterno Retorno do Mesmo —, que é a vida, sem que nada seja renegado do esplendor do mundo e da aparência extática celebrada em Apolo, mas porque o Fenômeno é percebido sobre o fundo de sua possibilidade nascente, sobre a “tela”, diz Nietzsche, da Noite originária que o engendra — em Dioniso, portanto —, sendo este o próprio Ser, tomado não como um inconsciente que nada é, mas como seu próprio pathos, a eterna e irremissível prova que faz de si no jogo sem fim de seu sofrimento e sua alegria.
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Sobre o fundo dessa fenomenologia radical desenha-se uma ontologia que descobre a afetividade como a revelação do Ser em si mesmo, como a matéria de que é feito, sua substância e sua carne; essa ontologia permite decifrar as figuras deslumbrantes da vida que são os fortes, os nobres, os animais, todos aqueles que confiaram ao dizer de um sofrimento primitivo seu destino, e torna inteligível o deslocamento essencial — entrevisto por Schopenhauer mas não levado por ele à clareza do conceito — segundo o qual todas as faculdades representativas, o olho, a memória, o pensamento, encontram doravante seu princípio num poder que já não é o da consciência intencional, mas o da vida.
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Uma leitura filosófica de Freud torna-se então possível, pois o que reclama a psicanálise, tanto em suas análises essenciais quanto em sua terapia, é constantemente a subordinação do pensamento representativo — percepções, imagens, lembranças, produções oníricas e simbólicas, estéticas e religiosas — a um poder de outra ordem, ou seja, a rejeição ao menos implícita de uma metafísica da representação; essa instância subjacente, operante e recalcante, é a vida, e mais precisamente a vida em sua essência fenomenológica própria, o afeto consubstancial a essa fenomenalidade e que dela não pode ser separado, e que jamais é inconsciente, de modo que, como se estabelecerá sem ironia, situado no coração do inconsciente, o afeto determina este último como fenomenológico em sua essência e em seu fundo.
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Não basta, contudo, para se livrar dessa redução paradoxal do inconsciente ao lugar de emergência da fenomenalidade, observar que, mesmo determinando sempre o destino da representação, o afeto não constitui por isso o naturante último do sistema, já que o representante psíquico da pulsão nunca deixou de existir no freudismo; e na medida em que essa pulsão apenas representa no psiquismo os determinantes energéticos que o Projeto de 1895 fixou teoricamente, não se é inevitavelmente reconduzido a estes últimos, a processos naturais, de modo que dificuldades inextricáveis surgem nesse retorno inconfessado a uma metafísica da representação, e a Psique, cuja especificidade se pretendia defender, revela-se apenas equivalente, sucedâneo de uma essência biológica ou até físico-química — o esquema explicativo científico recupera seus direitos, dando adeus mais uma vez à fenomenologia; a vida que vivemos não passaria de efeito daquilo que ignoramos, e ao conhecimento, à ciência, caberia nos livrar, progressivamente, dessa ilusão que somos: eterno pensamento do Ocidente.
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Esse além-mundo colocado atrás da vida para explicá-la se assemelha singularmente a ela: a “excitação” investida no duplo sistema neurônico do Projeto nada mais é que o nome da afecção, ou seja, da fenomenalidade — a excitação “exógena” é a afecção transcendental do “tecido vivo” pelo mundo, a excitação “endógena”, sua auto-excitação, é a auto-afecção que constitui a essência originária da subjetividade absoluta enquanto é a Vida; reportada ao fundo somático da pulsão, a afetividade é assim reportada apenas a si mesma, explicada por si mesma, e é por isso que o princípio de inércia se transforma invencivelmente no de constância — se o sistema não pode se livrar totalmente de suas quantidades de energia, é porque, como auto-afecção e auto-impressão, e não sendo nada além do que não cessa de se auto-impressionar, a vida não pode se livrar de si mesma.
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Por isso o esquema entrópico cede afinal diante da inesgotável vinda em si da vida; a descarga dos afetos, assim como a pressão insuperável da libido não empregada, nada mais designam senão a subjetividade da vida quando a prova que ela faz de si mesma se leva ao extremo, até se tornar insuportável; e a angústia, da qual Freud deu descrições admiráveis — a moeda corrente de todos os afetos — não é senão, por sua vez, a angústia da vida de não poder escapar de si; em fim de contas, em suas construções transcendentes tanto quanto em seus melhores textos fenomenológicos, o freudismo esconde nele mesmo o que mais faltou à nossa época, sendo aí, sem dúvida, apesar de suas incertezas teóricas, de suas contradições e até de seus absurdos, a razão de seu estranho sucesso.
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A psicanálise não pertence ao corpo das ciências humanas ao qual hoje se a associa, e do qual será aqui cuidadosamente dissociada: é antes sua antítese; quando a objetividade não cessa de estender seu reino de morte sobre um universo devastado, quando a vida não tem outro refúgio senão o inconsciente freudiano, e quando, sob cada um dos atributos pseudocientíficos de que este se reveste, age e se esconde uma determinação viva da vida, cabe dizer: a psicanálise é a alma de um mundo sem alma, é o espírito de um mundo sem espírito.
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A vida, porém, só suporta por um instante a máscara que menos lhe convém, pois nenhuma situação repugna mais à sua essência do que a de um além-mundo, já que ela não aceita por muito tempo ter sua lei fora de si, sendo ela mesma sua própria lei, que padece constantemente como aquilo mesmo que é, o pathos do Ser e seu sofrimento — que é a vida; por isso o momento de derrubar essa máscara virá em breve, e talvez já tenha chegado.
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Importa por fim precisar que tipo de história está sendo aqui contada, pois o freudismo é frequentemente apresentado como uma história empírica do indivíduo, em que o que lhe acontece e virá a acontecer resulta amplamente do que lhe ocorreu, de sua infância, de sua relação com o Pai, com a Mãe, do traumatismo de seu nascimento etc.; a ingenuidade de toda explicação desse gênero, como aliás da história em geral, está em apenas reportar ao passado um problema que ali se encontra intacto, sem que se tenha avançado um único passo — “explicar” o amor de um adulto pelo que ele tinha por sua mãe é explicar o amor pelo amor, e o Pai só torna a ideia de Deus inteligível para quem não compreendeu que nessas duas figuras se representa uma mesma estrutura ontológica, precisamente a essência da vida enquanto não cessa de se provar a si mesma e assim de fazer a prova de si como daquilo de que jamais é o fundamento; a situação de desamparo do nascimento não explica a angústia de um ser originariamente constituído em si mesmo como afetivo e suscetível de ser determinado afetivamente.
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Com a mesma ingenuidade se tomaria a genealogia da psicanálise aqui exposta por uma espécie de história das doutrinas ou das diversas concepções filosóficas ou científicas que a precederam e das quais ela seria como o resultado previsível; quando Freud vem a Paris, uma psicologia do inconsciente, apresentada como condição incontornável do fenômeno central da memória, já circula em todos os manuais de filosofia da época, e o conceito do inconsciente que será conjuntamente o de Bergson e o de Freud fora ensinado nas escolas antes que eles o “descobrissem” genialmente em seus livros; mas, ainda que se evidenciem essas sutis sequências ideológicas com a satisfação legítima que a erudição confere, nada se terá avançado, pois não se terá compreendido a razão da afirmação crucial de um inconsciente constituindo o ser mais íntimo e profundo do homem — de um inconsciente psíquico; que essa afirmação surja entre os contemporâneos de Descartes como objeção inevitável à definição eidética da Psique como fenomenalidade pura, em Leibniz, Schopenhauer, Hartmann, Bergson ou Freud, ou no manual de filosofia de Rabier, diz respeito apenas à história, a esse feixe de questões às quais ela é capaz de responder enquanto “história das ideias”.
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Do simples ponto de vista da história, aliás, a formulação repetida, em circunstâncias diferentes, do inconsciente psíquico deveria dar o que pensar, pois não se poderia tratar aí, afinal de contas, de uma descoberta ocasional ou de uma invenção pontual; se a designação do inconsciente se refere ao que há de mais profundo em nós e assim ao próprio ser, não é antes a vida mesma que o produz e não cessa de produzi-lo, em seu retraimento invencível do mundo, na medida em que ela se furta à fenomenalidade do êxtase em que todo pensamento se move, e que o desnorteia a ponto de levá-lo a declarar que tudo o que não se mostra a ele, tudo o que jamais vem a nós na ob-stância de um objeto ou de um “em face”, nada mais é do que Inconsciente — o privado em si mesmo do poder de manifestação.
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Genealogia não é arqueologia, pois os desvios históricos pelos quais o inconsciente veio ao nosso mundo e a ele chega todos os dias não podem ser objeto de simples constatação, nem mesmo de uma descrição das estruturas epistêmicas ou dos horizontes ideológicos que dirigem o pensamento moderno: eles procedem, em última instância, do querer da vida de permanecer em si; é a vida que deixa livre o campo ao aparecer do mundo enquanto o funda secretamente, é ela, portanto, que se diz ao pensamento — o qual não pode em momento algum tomá-la na vista de seu próprio ver — como o inconsciente; a construção fantástica deste último segundo a imagética científica de uma época, por exemplo a de 1895, com seus desenvolvimentos transcendentes, raciocínios especulativos, encaixamentos infinitos de hipóteses, personagens mais ou menos pitorescos que engendram e seus jogos por vezes burlescos, nada disso é tão absurdo quanto parece; a mitologia freudiana tem a seriedade de todas as mitologias, na medida em que todas se elevam desse mesmo Fundo essencial e secreto que somos, que é a vida — e é por isso que nela se crê sem grande esforço, porque nos reconhecemos nela tão facilmente.
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Precisamente por ter posto em causa, mais que qualquer outra, e mais deliberadamente, os direitos da objetividade, fazendo estourar as categorias científicas sob o peso das determinações fenomenológicas originárias, o pensamento freudiano pode ser dito também uma espécie de ontologia, na medida em que, longe de ser mero resultado do trabalho da análise, seu discurso sobre o inconsciente depende na realidade das estruturas fundamentais do ser e as expõe a seu modo; por isso esse discurso não repete apenas, sem sabê-lo, o da filosofia clássica — a inconsciência da consciência pura, da “consciência transcendental”, a reviravolta dessa filosofia da consciência numa filosofia da natureza etc. —, reproduzindo assim as grandes carências do pensamento ocidental, mas vai mais longe, até o impensado desse pensamento, até esse lugar onde através de nós, no invisível de nossa noite, fulge a inesgotável e invencível vinda em si da vida.
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A essas concepções da vida, contudo, embora todas procedam dela, a própria vida permanece indiferente, pois reduzir o ser ao pensamento que dele se pode ter, ou até a esse pensamento mais essencial que a ele se junta em sua co-pertença e convivência originária, é puro idealismo; compreender a psicanálise em sua proveniência histórica a partir do ser não é de modo algum incluí-la neste último como um de seus momentos, uma de suas “figuras” ou de suas “épocas” — se nossa relação primitiva com o ser não é uma ek-stasis, o que é afinal o que a psicanálise quer dizer, e se ela não reside no pensamento nem em seus diferentes modos, então não se pode mais confiar inteiramente nele, cujo desvio aliás pouco importa, e o destino do indivíduo já não é inteiramente o do mundo; seja ela pura e simplesmente negada como na ciência contemporânea que pretende tudo conter em sua visada objetivista, seja tentada dela um conceito adequado nesta fenomenologia radical cuja edificação aqui se prossegue, seja sua representação deixada ao folclore das mitologias, a vida não deixa por isso de perseguir sua obra em nós, não cessando de se dar a nós mesmos no pathos de seu sofrer e de sua embriaguez — ela é a essência eternamente viva da vida.
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