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3 Vida

HENRY, Michel. Eu Sou a Verdade. Por uma filosofia do cristianismo. Tr. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2015

3 Esta Verdade que se chama Vida

  • A elaboração do conceito cristão de Verdade fez que ela encontrasse sua essência na Vida, sendo esta já de início fenomenológica, significando que a Vida é Verdade sua manifestação e revelação, não sua simples mostração indeterminada mas o modo como essa manifestação se manifesta a si mesma antes de manifestar qualquer outra coisa
  • É quando se põe essa questão central da fenomenologia que se descobre a extraordinária originalidade do cristianismo: ao conceito grego de fenômeno como verdade do mundo, verdade do “lá fora”, opõe-se maciçamente sua concepção da Verdade como Vida, designando esta uma revelação de si, autorrevelação absoluta
  • Por sua essência fenomenológica, a Vida de que fala o cristianismo difere inteiramente do objeto da biologia — neurônios, correntes elétricas, cadeias de ácidos, partículas —, elementos em si “cegos” que devem sua fenomenalidade a um poder de manifestação estranho a eles, a verdade do mundo
  • Suscita-se a questão da relação entre a abordagem cristã e a científica, observando-se que Cristo ignorava as descobertas da biologia moderna e que seu discurso sobre a vida — “Eu sou… a Vida” (João 14:6) — não significa ser composto de moléculas
  • Rejeita-se a explicação de que na época de Cristo faltava saber científico, pois o saber sensível imediato que fundamenta uma sociedade e sua ética nada tem a ver com o ensinamento de Cristo, que constantemente vai a contrapelo da percepção ordinária, falando de riqueza que não passa e moradas não construídas por mãos humanas
  • Sob a luz da Vida, os viventes vacilam como inebriados, seu comportamento se inverte: quem quer ser primeiro senta-se por último, quem entesoura é despojado, quem nada sabe sabe tudo, propostas difíceis de atribuir ao saber da percepção comum
  • Pergunta-se se a química molecular diria mais sobre esses paradoxos, questionando-se se Cristo teria modificado sua concepção da vida ao conhecer um instituto de biologia, citando-se: “aquele que quiser salvar sua vida a perderá, mas o que perder sua vida por causa de mim, a salvará” (Lucas 9:24)
  • Propõe-se a hipótese inversa de que é hoje, no auge dos progressos da biologia, que se desenvolve ignorância crescente sobre o que realmente é a vida, estendendo-se essa ignorância a todo o campo científico e ao espírito público
  • Recorda-se a decisão galileana do início do século XVII que atribuiu à ciência conhecer o universo real constituído de objetos materiais extensos, excluindo-se as qualidades sensíveis por variáveis e inadaptadas, culminando na abordagem físico-matemática de Descartes
  • Compreender essa exclusão inicial das qualidades sensíveis em seu alcance metafísico é compreender que ela implica o afastamento da própria sensibilidade e, com ela, da Vida fenomenológica de que a sensibilidade é apenas modalidade, sendo sentir só possível onde reina o “experimentar-se a si mesmo”
  • O alijamento da vida pela ciência galileana concerne primeiramente à biologia, que ao final de sua investigação só encontra processos físico-químicos e nada que se assemelhe à experiência interior do “viver”, consequência necessária de seu postulado metodológico inicial, citando-se um biólogo: “Hoje já não se interroga a vida nos laboratórios”, concluindo-se: na biologia não há vida, há apenas algoritmos
  • Afirma-se, ao contrário do que se supunha, que é hoje, apesar dos progressos científicos ou por causa deles, que se sabe cada vez menos da vida, não dizendo a biologia sequer que nada de semelhante ao “viver” se mostra em seu campo, pois para dizê-lo seria preciso ao menos ter ideia do que é “viver”
  • Os próprios biólogos sabem o que é a vida, mas não como biólogos, sabendo-o como todos, por viverem, amarem, sofrerem angústia da morte, sendo essas experiências, a seus olhos de cientistas, apenas “pura aparência” que remete a outra coisa, correntes elétricas ou cadeias de neurônios
  • Redução absurda afirmar que o que se experimenta no estreitamento patético do sofrer e do fruir seja na realidade algo incapaz de experimentar qualquer coisa, partículas materiais, não sendo a ciência a responsável por essa redução, mas os cientistas que a fazem dizer o que ela não diz, tornando-se assim assassinos da vida
  • Considerando o mundo sensível antes da redução galileana, o mundo-da-vida (Lebenswelt) da fenomenologia contemporânea, reconhece-se que apesar de suas determinações remeterem todas à vida, esta nunca se mostra nele, sendo essa a razão de também não se mostrar em nenhum campo de investigação teórica, remetendo-se à tese decisiva do cristianismo: a Verdade da Vida é irredutível à do mundo
  • No mundo vemos seres vivos mas nunca sua vida, sendo a captação da significação “ser vivo” mera visada “no vazio”, significação noemática irreal, citando-se Husserl sobre olhos percebidos como “olhos que veem”, mãos como “mãos que tocam”, significações vazias incapazes de dar a vida a alguém
  • Distinguem-se essas significações vazias das que se referem às coisas sensíveis, capazes de preencherem-se em intuição plena — como perceber de repente a árvore verde antes apenas significada —, sendo a significação “vivo” incapaz dessa transformação em percepção real, não porque a vida não existisse mas porque é incapaz de se tornar visível na verdade do mundo
  • Essa incapacidade da biologia não lhe é própria, sendo a de todo conhecimento aberto sobre um mundo, escapando a Vida fenomenológica, cuja essência é experimentar-se a si mesma no “viver”, ao conjunto do pensamento ocidental, sendo essa a grande ausente da tradição filosófica e cultural
  • Interroga-se como uma cultura pôde não colocar essa realidade essencial em primeiro lugar, respondendo-se: substituindo a essência dissimulada da vida pela consideração dos vivos, substituindo-se em cada vivente seu aparecimento exterior no mundo por sua autodoação no viver
  • Isso se produziu desde a Antiguidade clássica: o vivente é um ente que se mostra no mundo entre outros entes, resta saber o que o distingue, sendo suas propriedades — mobilidade, nutrição, excreção, reprodução — objetivas e mundanas, permanecendo enigma por que tais funções são tidas como características da vida quando não revelam em si o “viver”
  • A impossibilidade de a vida se revelar na verdade do mundo é evidenciada pela própria ciência galileana, que tematiza o ente vivente e não a vida, sendo a designação “bios” na biologia mera designação exterior e convencional dos fenômenos da classe “A”
  • Encontra-se exemplo significativo dessa carência no termo da história do pensamento ocidental, na filosofia de Heidegger, que leva ao absoluto os pressupostos fenomenológicos gregos, pondo a questão em Sein und Zeit: “A vida é um gênero de ser particular, mas por essência ela só é acessível no Dasein”
  • Sendo o Dasein essencialmente ser-no-mundo, segue-se que a vida só é acessível na verdade do mundo, não sendo ela mesma poder de revelação nem o que dá acesso a si mesma, não sendo autorrevelação, decorrendo dessa aporia do pressuposto fenomenológico segundo o qual mostrar-se é sempre mostrar-se num mundo
  • Essa confusão da Vida com um ente vivente resulta da carência fenomenológica do pensamento ocidental, sendo atribuído à própria vida sem mais o que é verdadeiro apenas dos organismos vivos enquanto objetividades empíricas
  • Distingue-se essa redução heideggeriana da redução galileana, meramente metodológica, sendo a negação radical do modo de revelação diferente do mundo o que caracteriza o pensamento de Heidegger, significando essa negação, se a autorrevelação é constitutiva da essência da vida, o assassinato principial de toda forma de vida
  • Observa-se a dificuldade de Heidegger obrigado a seguir vias diferentes: sendo nosso acesso à vida feito pelo Dasein no mundo, sua problemática se assemelha à démarche científica, tomando ele emprestados da biologia de seu tempo os organismos mais simples, protoplasmas unicelulares, para esboçar sua teoria, questionando-se o paradoxo de ir perguntar aos infusórios o que é a vida quando nós mesmos somos viventes
  • Aponta-se a razão dessas aporias: não reconhecer como portadora de verdade senão a relação exterior a organismos objetivos, escamoteando-se totalmente a relação interior da vida consigo mesma como sua autorrevelação essencial
  • Examina-se como Heidegger considera o animal como portando poder de revelação diferenciador — o comportamento, a referência a um ambiente —, mas compreendido apenas como modo decaído do ser-no-mundo, permanecendo enigmática a capacidade da pulsão de estar em posse de si, mistério a ser penetrado apenas pelo conceito cristão do homem
  • Perguntando se a vida foi sempre a parente pobre da reflexão ocidental, recorda-se sua irrupção com Schopenhauer em O Mundo Como Vontade e Como Representação (1818), subordinando radicalmente a representação kantiana à vontade, outro nome da vida, conduzindo por Nietzsche e Freud a uma recomposição da cultura europeia inteira — literatura, teatro, pintura, cinema — sobre a base do querer-viver
  • O traço mais extraordinário dessa vinda da vida ao primeiro plano é, contudo, sua desnaturação e falsificação, tão grave que desemboca em sua destruição: sendo para Schopenhauer e Freud a consciência residente na representação, a vida, estranha a esse “lá fora”, encontra-se privada do poder de revelação, tornando-se cega e inconsciente
  • Uma vida cega e inconsciente, potência absurda, pode ser carregada de todos os crimes, associando-se seu conceito escandalosamente às atrocidades e genocídios do século
  • Observa-se o laço inquietante entre três maneiras de caluniar a vida: reduzi-la a processos materiais (biologismo), confundi-la com ente manifesto no mundo ou forma decaída deste (Heidegger), ou fazê-la princípio metafísico cego (Schopenhauer, Freud), reconhecendo-se sua raiz comum na incapacidade de construir uma fenomenologia da vida
  • Como antítese formidável, o cristianismo opõe sua intuição decisiva da Vida como Verdade, citando-se: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (João 14:6), afirmando Cristo mais fundamentalmente que a Verdade é Vida, revelando-se a Revelação primordial a si mesma nesta autofruição absoluta anterior às coisas e ao mundo
  • Soma-se a essa fenomenologia radical uma concepção nova do homem a partir da Vida: contrariamente à concepção grega do homem como vivente dotado de Logos, e à tese heideggeriana de que “a ontologia da vida se cumpre por via de interpretação privativa”, o cristianismo afirma que a Vida é mais que o homem, mais que Logos, razão e linguagem
  • Segunda tese decisiva: a Vida é igualmente mais que o vivente, mesmo o homem compreendido adequadamente enquanto vivente, aplicando-se essa tese também a Deus
  • Sendo a Vida mais que o homem, é da Vida, isto é, de Deus, que se deve partir, e sendo em Deus mesmo a Vida anterior ao vivente, é pela Vida, pelo processo eterno em que ela se faz Vida, que convém começar
  • A relação da Vida com o vivente, tema central do cristianismo, chama-se geração do ponto de vista da vida e nascimento do ponto de vista do vivente, só podendo a Vida gerar todo vivente por ser capaz de se engendrar a si mesma, chamando-se essa Vida capaz de autogeração Vida absoluta ou Vida fenomenológica absoluta
  • Essa relação opera dentro de Deus como geração do Primeiro Vivente no seio da autogeração da Vida, e, na relação de Deus com o homem, como geração do homem transcendental no seio dessa mesma autogeração
  • O que é gerado na Vida como Primeiro Vivente o cristianismo chama Filho primogênito, único, ou Cristo, Messias; o que é gerado como homem, ele chama “Filho de Deus”; a Vida absoluta que se engendra a si mesma e engendra o Primeiro Vivente, ele chama Pai
  • Anuncia-se a marcha da análise: primeiro, a autogeração da Vida absoluta como geração do Primeiro Vivente, o Arqui-Filho transcendental; segundo, a autogeração da Vida absoluta como geração do homem transcendental, o “Filho de Deus”
  • Introduz-se o conceito filosófico de “transcendental” para designar não as coisas vistas — um nascimento, um pai, um filho — mas sua possibilidade mais interior, residente na Vida que também não se vê, sendo por isso chamada vida transcendental, a única vida que existe, não existindo a suposta vida “natural” ou “biológica”
  • Não havendo pai nem filho naturais no sentido de pertencentes à “natureza”, citando-se Cristo: “A ninguém na terra chameis 'Pai', pois só tendes o Pai Celeste” (Mateus 23:9), anunciando-se essas como as teses radicais e desconcertantes do cristianismo a compreender
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