estudos:henry:em:0.3
§3 Superação do intuicionismo
HENRY, Michel. L’essence de la manifestation. Paris: PUF, 1963.
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A ontologia fenomenológica universal supõe, como primeira condição de tomada de consciência de sua tarefa própria, um ultrapassamento radical do intuicionismo, sendo somente nesse ultrapassamento que ela pode elevar-se ao problema do sentido do ser em geral
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o em geral não designa aqui um simples recenseamento nem a elucidação sistemática das diferentes regiões e sentidos que o ser reveste em cada uma delas, situando-se a pesquisa em outro plano que o da pluralidade das ontologias regionais
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a generalidade visada pela ontologia universal não concerne à explicitação do sentido de todo tipo de ser que o ego pode imaginar, e mesmo referindo-se ao sentido autêntico e universal do ser em geral, afasta-se das generalidades mais altas ligadas a um gênero para consagrar-se à generalidade absolutamente original que constitui seu tema próprio
A orientação para uma estrutura determinada do ser e para um ser determinado a tornar presente com seus caracteres próprios é característica do intuicionismo e da fenomenologia da razão que o prolonga, pois a intuição visa sempre um ente particular-
mesmo ao dirigir-se a uma estrutura eidética de um gênero de ser, tal estrutura permanece determinada, de modo que a orientação ontológica da intuição é fundamentalmente limitada em seu próprio princípio, limitação inerente à intuição como tal, pensamento por princípio finito
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essa determinação é uma necessidade que se impõe de modo insuperável à liberdade da intuição, razão pela qual o pensamento do ser não pode se realizar no modo de uma realização intuitiva, mas somente no do mistério
O projeto de elucidar as diferentes esferas do ser em sua estrutura própria permanece submetido ao telos da realização intuitiva, sendo a determinação das condições que tornam possível tal realização o que move a razão a desvelar os diferentes tipos de ser-
a elucidação sistemática das regiões não passa de um meio subordinado ao ideal de obtenção do ser determinado e de verdades particulares, de modo que a fenomenologia da razão não pode ser qualificada sem restrição de ontológica, já que sua visada última é a posse do ser singular e finito
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o cogito representa apenas um ser particular e determinado, tomado na evidência apodítica, e a consciência que se vota à finitude e à determinação do ser-aí é ela mesma apenas uma consciência finita
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por mais particular e intensa que seja a experiência subjetiva alcançada, ela permanece um modo de uma vida essencialmente finita, e a consciência cartesiana que visa racionalmente o ser determinado não é privilegiada, tendo faltado à essência e à verdadeira Stimmung, que é antes o acordo com uma essência que só se realiza destruindo-se ao ser dada no modo da presença intuitiva
A compreensão da finitude inerente à intuição exige que sua essência seja esclarecida, podendo-se entender por intuição a visão em geral, a consciência intuitiva propriamente dita cujas intenções significantes são preenchidas por um dado correspondente, e o preenchimento mesmo da intuição enquanto surgimento de um dado-
a evidência produz-se quando esse preenchimento se realiza de maneira satisfatória, de modo que a consciência intuitiva se encontra em presença da própria coisa, sendo esses termos distintos mas ligados por uma unidade profunda pertencente à teleologia da consciência
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conforme essa teleologia imanente, a consciência tende a fazer-se consciência intuitiva porque a intenção significante visa ativamente o conteúdo determinado que deve vir preenchê-la, sendo o conteúdo, e não a própria transformação da consciência, o verdadeiro objetivo da vida intencional
Apesar da legitimidade do movimento da consciência rumo ao ser transcendente em cuja presença ela quer viver numa proximidade cada vez maior, não se podem esquecer as condições que tornam possível a obtenção do dado intuicionado-
a compreensão dessas condições obriga a percorrer um trajeto inverso, elevando-se do dado intuicionado à consciência intuitiva que o dá e desta à consciência em geral, sendo o dado intuicionado apenas um elemento da consciência intuitiva cercado pelo horizonte das intenções significantes ainda não preenchidas
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uma consciência nunca pode se realizar plenamente como consciência intuitiva, pois além dos elementos efetivamente preenchidos há sempre outras intencionalidades correlatas apenas a um dado visado mas não intuicionado, embora se possa conceber o caso de um preenchimento perfeito como ideal da razão
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questiona-se se a racionalidade imanente à vida intencional não é senão um ideal, e se, apesar de sua fecundidade prática, não constitui um ideal perigoso no qual se engendra o esquecimento original da origem e do fundamento, cabendo saber se o horizonte pertence por princípio a toda consciência intuitiva
A consideração temática do horizonte onde banha toda presença intuitiva não é excluída da fenomenologia da razão, mas esta se mostra incapaz de captar sua verdadeira significação, movendo-se antes no esquecimento ou na falsificação dela, por três razões-
o interesse pelo horizonte que cerca toda presença efetiva permanece subordinado, numa perspectiva intuicionista, à consideração do conteúdo determinado da efetividade transcendente, substituindo-se o conteúdo do horizonte pela forma mesma desse horizonte como tema da reflexão, e estabelecendo-se uma prioridade do dado originário sobre o simplesmente visado
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a análise do modo pelo qual o dado originário deve substituir o simples correlato da intenção significante implica reflexão sobre a estrutura do horizonte próprio de cada região do ser, dotada de estrutura eidética determinada que prefigura o trajeto da intencionalidade, mas o que é considerado é sempre apenas uma estrutura eidética particular, faltando a essência do horizonte enquanto tal
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o intuicionismo é incapaz de pensar a essência do horizonte porque busca alcançá-la pelo modo da realização intuitiva, encontrando-se diante de uma singularidade eidética no momento mesmo em que o horizonte se torna tema, sendo o horizonte precisamente o que escapa ao pensamento quando este quer intuicionar sua essência, faltando-a no princípio de maneira tanto mais completa quanto mais explicitamente a toma por tema
A ontologia fenomenológica universal, que compreende como tarefa fundamental a elucidação do horizonte pensado como essência absoluta, não escapa a essa dificuldade, bastando-lhe porém ser consciente da obscuridade fundamental que pertence por princípio à essência para vivê-la como tal no mistério, ao passo que a fenomenologia da razão não escapa a uma contradição que não percebeA análise da consciência confusa constitui, para o pensamento que não quer faltar à essência, um fio condutor mais seguro que o exame sistemático dos tipos de consciência que alcançam na evidência um conteúdo estritamente determinado-
na consciência não intuitiva, para a qual nenhum dado rigorosamente circunscrito emergiu ainda da indeterminação do horizonte, a apercepção desse horizonte não está mascarada, não podendo a riqueza intuitiva de uma presença singular desviar a atenção da reflexão sobre o horizonte que torna possível toda presença como tal
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a tarefa permanece a de captar esse horizonte não como simples horizonte psicológico confundido com os conteúdos que o preenchem, mas como a condição transcendental de um objeto em geral, forma pura da objetividade que prefigura e precede todo objeto como tal
O que permite a todo ser manifestar-se, tornar-se fenômeno, é o meio de visibilidade onde ele pode surgir a título de presença efetiva, sendo o desdobramento desse meio, horizonte transcendental de todo ser em geral, obra do próprio ser-
a consideração desse horizonte transcendental, ou horizonte fenomenológico universal, não difere do pensamento do ser, sendo essa tarefa a da ontologia fenomenológica universal que domina, a título de condição, toda ontologia particular e toda ciência ôntica
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toda verdade relativa a um ente determinado é relativa ao seu estado manifesto, à sua presença, e toda verdade predicativa supõe a manifestação do ente visado, isto é, uma verdade de ordem ôntica, que por sua vez remete à verdade ontológica
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tal manifestação nunca é o simples correlato de uma representação ou intuição, produzindo-se sempre no interior de um meio já aberto que a torna possível, sendo essa abertura a aperture do ser, pois só porque o ser é desvelado o ente pode se manifestar, instituindo-se assim uma problemática fundamental à qual toda pesquisa determinada deve reconhecer sua subordinação
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