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6 Mundo
HENRY, Michel. Incarnation: une philosophie de la chair. Paris: Seuil, 2000.
6. O paradoxo do “mundo ” como poder de desrealização.
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Constata-se o grande paradoxo de que o aparecer do mundo desrealiza no princípio tudo que nele se mostra, contrariando a convicção de que o mundo seria evidência imediata de realidade, exame que as maiores filosofias do fenômeno do mundo permitem abalar
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Retoma-se a questão de Jakob Böhme sobre por que Deus criou o mundo, respondendo-se fenomenologicamente que Deus criou o mundo para se manifestar, consistindo tal manifestação numa objetivação, num primeiro Fora, chamada Sabedoria, outro nome do Verbo
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Enquanto Deus se objetiva para se conhecer, o meio fenomenológico dessa oposição primeira permanece, segundo Böhme, apenas virtual, simples claridade difusa, exigindo o aparecimento de formas singulares um elemento opaco à luz, um “ente” material, contra o qual a luz se choca e se esclarece como sobre um espelho
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Böhme afirma essa necessidade de elemento opaco numa concepção de natureza interior ao Absoluto, trazendo o Deus de Böhme um corpo eterno porque a pura objetivação é impotente para produzir por si mesma o conteúdo concreto a se mostrar nela, sendo esse conteúdo posto metafisicamente, sem depender do meio fenomenológico onde se desvela
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Essa indigência ontológica do aparecer do mundo é ao mesmo tempo desmascarada e ocultada em Böhme, confundindo-se dois poderes distintos, a objetivação de um horizonte de visibilização e a criação do conteúdo concreto, servindo a potência de Deus apenas para dissimular a impotência da objetivação como tal
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Essa mesma impotência é exposta em plena luz pela Crítica da Razão Pura, compreendendo Kant a questão do mundo como questão fenomenológica, descrevendo a Estética e a Analítica Transcendentais a estrutura fenomenológica do mundo coconstituída pelas formas a priori de espaço e tempo e pelas categorias do entendimento
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“Formas de intuição pura” designam puras maneiras de fazer ver independentes do conteúdo empírico, sendo a priori o que precede toda experiência efetiva, tendo as categorias do entendimento a mesma significação fenomenológica fundamental de pertencer ao fazer-ver, sendo intuições e categorias, segundo Kant, representações, vor-stellen, “pôr diante de”
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A tese reiterada da Crítica é que essa formação fenomenológica do mundo é para sempre incapaz de pôr por si mesma a realidade que constitui o conteúdo concreto do mundo, realidade que Kant teve de pedir à sensação
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Encontra-se a mesma situação em Husserl: sendo a consciência sempre consciência de algo, a intencionalidade nos lança para as coisas atingidas “em pessoa”, mas o que a intencionalidade produz não é a doação imediata da coisa, é a significação de que ela é dada imediatamente, sendo toda significação uma irrealidade, um “objeto de pensamento”, uma “irrealidade noemática”
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o objeto da percepção mais imediata não é para Husserl uma realidade mas um “polo ideal”, regra de apresentação para a série de aparecimentos sensíveis, exemplificando-se com o objeto “cubo” ou “casa” apreendido ao girar-se em torno dele
Pergunta-se se a realidade teria sede nesses próprios aparecimentos, nos “dados das sensações”, mas estes também se decompõem, distinguindo-se a área colorida exibida na superfície do objeto (cor noemática, noematische Farbe) da pura impressão subjetiva de cor, invisível e vivida (cor impressional, Empfindungsfarbe), residindo a realidade da cor unicamente nesta última, tal como em Kant o conteúdo real do mundo sensível não decorre de sua estrutura fenomenológica mas da impressão exclusiva -
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