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1 Aparecer

HENRY, Michel. Incarnation: une philosophie de la chair. Paris: Seuil, 2000.

1. Objeto da fenomenologia: a questão do “aparecer”.

  • O termo “fenomenologia” se decompõe em seus dois constituintes gregos, phainomenon e Logos, designando ao pé da letra um saber concernente ao fenômeno, indicando o primeiro o objeto e o segundo o método de conhecimento desse objeto
  • Recorre-se ao parágrafo 7 de Sein und Zeit, onde Heidegger deriva fenômeno do verbo phainesthai, mostrar-se, “o que se mostra, o mostrando-se, o manifesto”, operando essa passagem do verbo ao substantivo uma substituição decisiva e oculta: o verdadeiro objeto da fenomenologia não é o que aparece mas o próprio ato de aparecer
  • Esse objeto próprio diferencia a fenomenologia de todas as demais ciências, que se ocupam do conteúdo específico dos fenômenos — químicos, biológicos, históricos, jurídicos —, ao passo que a fenomenologia estuda o que essas ciências nunca consideram explicitamente: a essência que faz de cada fenômeno um fenômeno, o próprio aparecer
  • Conteúdo e aparecimento parecem constituir algo uno no fenômeno, exemplificando-se com a xícara sobre a mesa, mas nem a mesa nem a xícara têm por si mesmas a capacidade de “fenômeno”, diferindo desde o princípio, no seio do fenômeno, seu conteúdo e o fato de aparecer
  • Foi Husserl quem introduziu essa distinção essencial, estudando o fluxo das vivências de consciência não como simples objetos mas como “objetos no Como” (Gegenstände im Wie), objetos considerados não em seu conteúdo mas no modo como se dão e aparecem
  • Ilustra-se essa distinção com a audição de uma sinfonia: uma fase sonora se dá sucessivamente como futura, presente e passada, permanecendo o conteúdo idêntico (o mesmo lá do violino) enquanto se modificam seus modos de aparecer ao transcorrer temporalmente
  • Essa distinção entre conteúdo e modo de aparecer abre um campo novo e infinito de investigação, listando-se termos equivalentes referidos ao objeto da fenomenologia: dar-se, mostrar-se, desvelar-se, aparecer, manifestar-se, revelar-se, e suas formas substantivas, doação, mostra, fenomenalização, desvelamento, manifestação, revelação
  • Observa-se que essas palavras-chave da fenomenologia são também, em grande medida, as da religião ou da teologia, remetendo outra palavra igualmente ao objeto verdadeiro da fenomenologia, a palavra verdade
  • Distinguem-se dois modos de entender a verdade: um pré-filosófico, ingênuo, segundo o qual verdade designa o que é verdadeiro — o céu nublado, a proposição aritmética 2+3=5 —, pressupondo porém esse sentido segundo uma verdade originária, uma manifestação primeira sem a qual nada do desvelado seria possível
  • O mérito de Heidegger foi dar ao conceito tradicional de verdade uma significação fenomenológica explícita, distinguindo da coisa verdadeira o que lhe permite mostrar-se a nós a título de fenômeno, o puro ato de aparecer, chamado por ele “fenômeno mais originário da verdade”
  • Por decisivo que seja esse trajeto até o fenômeno mais originário da verdade, ele apenas coloca um problema: situar o puro aparecer como condição de todo fenômeno possível ainda não diz em que consiste esse puro aparecer
  • No parágrafo 44 a análise heideggeriana reconduz da verdade segunda, o que é desvelado, à verdade originária, o desvelamento, sendo esta designada explicitamente como fenômeno, “o fenômeno mais originário da verdade”, o que implica que o próprio aparecer deve aparecer enquanto aparecer puro, um autoaparecer
  • A mesa e a xícara são incapazes de aparecer por si mesmas, por sua matéria cega, sendo um poder diferente delas que as faz aparecer, permanecendo essa impotência congênita mesmo quando de fato aparecem, sendo o que brilha em todo fenômeno o fato do aparecer, e dele somente
  • Interrogando a fenomenologia histórica acerca da fenomenalidade desse fenômeno mais originário da verdade, acerca de sua substância fenomenológica pura, distinguem-se dois momentos nos textos analisados, encontrando-se num primeiro momento apenas uma não resposta: aparecimento, verdade, manifestação e revelação são afirmados sem que se diga em que consistem, permanecendo as pressuposições da fenomenologia totalmente indeterminadas
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