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Samarcanda
HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.
O encontro em Samarcanda
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Narra-se a parábola do servo que, tendo encontrado a Morte no mercado e sido por ela olhado, foge para Samarcanda a fim de se perder na multidão, indo o senhor perguntar à Morte a razão do susto e ouvindo-a responder que apenas tinha encontro marcado com o servo em Samarcanda
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A tentativa de compreender as transformações políticas do Leste conduziu a reconhecer sua causa verdadeira, o fracasso econômico do socialismo, sendo estranho que, embora esse fracasso pareça manifestamente econômico, não seja o regime econômico em si, em sua definição objetiva, que provoca a falência, podendo-se conceber um sistema socializado próspero, sonho que Marx tinha por meio da superabundância, que tornaria sem objeto a questão da partilha
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Implica-se nessa perspectiva, estranha à ideologia socialista, a verdade essencial de que apenas os indivíduos vivos criam a riqueza das sociedades, cabendo então a eles, e somente a eles, o desaparecimento dessa riqueza, obrigando-se a buscar a causa da falência fora da esfera econômica, nos próprios indivíduos
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Retoma-se a pergunta: por que, em regime comunista, os indivíduos não querem mais fazer nada? Responde-se: por causa da justiça social, sendo esta a própria injustiça, pois é absolutamente injusto dar ao incapaz o mesmo salário que a quem trabalha com esforço, decidindo então também este baixar os braços
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A penúria resultante da justiça social reforça suas próprias condições, sendo melhor apropriar-se diretamente dos bens, por tráfico ou pilhagem, do que trabalhar por nada, suscitando a negação teórica da vida os comportamentos mais selvagens
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Encontra-se aqui o erro mais grave do marxismo, do qual decorrem todos os seus fracassos e violências: o rebaixamento do indivíduo, substituído por abstrações — a Sociedade, a História, as classes, o Partido — incapazes por si mesmas de fazer seja o que for
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A negação da realidade só pode ser abstrata, sendo impossível negar a vida, que subsiste com seu querer obstinado, colocando-se assim o marxismo, como todo fascismo, diante da contradição de negar a vida sem poder fazê-lo
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Resta realizar esse voto piedoso parcialmente: proceder a liquidações em série de indivíduos determinados segundo critério seletivo — a classe social no marxismo, a raça em outros fascismos —, repousando a possibilidade teórica do assassinato sistemático sobre a substituição de um dado objetivo à realidade metafísica inobjetivável do indivíduo
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Deve-se perceber em toda sua extensão o abismo dessa substituição, apresentando pensamentos honráveis, como a decisão galileana de excluir do conhecimento do mundo as qualidades sensíveis e a subjetividade, inquietante afinidade com esses pressupostos criminosos
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Reduzido a essa conhecimento que nada sabe de sua subjetividade, o indivíduo torna-se apenas partícula insignificante do universo, homem neuronal, indivíduo étnico, indivíduo social definido por sua classe, ou trabalhador de trabalho abstrato intercambiável, sabendo tão pouco de si mesmo essas disciplinas
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Um sistema político fundado nos direitos imprescritíveis de cada indivíduo, um regime econômico fundado na atividade desse indivíduo como fonte de toda riqueza: eis modelos que brilham hoje aos olhos de milhões encerrados no paraíso socialista da penúria e do medo, não sendo a falência econômica fenômeno objetivo mas vivida como força irresistível da própria vida
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Pergunta-se se essa vida reprimida pode encontrar no Ocidente o que busca, em regimes politicamente democráticos e economicamente capitalistas, não existindo a democracia porque o povo a quem pretende dar o poder tampouco existe, tal como sociedade, História ou proletariado
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Se o grande demos existisse, a democracia seria literalmente uma democracia popular, isto é, uma ditadura fascista, voltando-se a mesma entidade abstrata contra os indivíduos para fuzilá-los em nome do povo, não seria o encontro fabuloso com a democracia aquele de Samarcanda?
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Importa devolver ao conceito de democracia seu único sentido aceitável, referido não ao povo mas aos indivíduos vivos, não podendo “todos” governar num país de dimensões ordinárias, fazendo-o por delegados eleitos, reinstalando-se assim o império das substituições numa nova nomenclatura semelhante à derrubada, com os mesmos apetites de poder, hipocrisia e incompetência
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Nesse lugar público, sob os holofotes, só falam os membros da casta político-midiática, reduzidos ao silêncio todos os demais, submetidos ao condicionamento ideológico e ao martelamento publicitário que impõe a cada um seu conteúdo mental, sem que nenhuma contestação possa sequer manifestar sua existência
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É essa mesma substituição, a transcrição da vida numa objetividade sem vida, que está na origem de todo o universo econômico, não devendo opor-se a livre iniciativa ao Plano, pois o capitalismo apostou na força do indivíduo vivo mas essa mesma força se encontra presa no universo econômico que criou e por ele constantemente paralisada, sendo este o universo das primeiras substituições que inflectiram a história mais antiga do homem, o da primeira morte
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As contradições do capitalismo enraízam-se no duplicado do processo real pelo processo econômico: a valor, em vez de favorecer a troca, freia-a, faltando sempre dinheiro, tornando-se vender, e não produzir, o problema, gerando o próprio Marx a intuição desse motivo nu que conduz para além do sistema capitalista, ao mundo ameaçador em que se entra de costas
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O tempo que vem já começou, tendo por traço decisivo, ainda que oculto, ceder o capitalismo lugar à essência moderna da técnica, atravessando uma mesma lei ambos os reinos, encontrando na técnica apenas ocasião de multiplicar vertiginosamente seu poder de destruição
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Foi a técnica, a automatização sistemática do processo real, que permitiu ao capitalismo manter sua produção de mais-valia quando não pôde mais alongar a jornada, sendo esse o Arqui-fato da modernidade: o trabalho vivo tendencialmente excluído do processo, princípio que provém não do capitalismo mas da ciência galileana
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A história unificada do capitalismo e da técnica, o universo tecno-econômico, resulta da projeção dos pressupostos galileanos sobre a ação humana, que muda de natureza, deixando de ocorrer na subjetividade para ocorrer nas coisas, cedendo o trabalho vivo lugar a processos materiais que se regulam a si mesmos
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Quando esse dispositivo invadir totalmente o processo real, não haverá mais trabalhadores nem meio de obterem seus produtos, estando já metade da população do Brasil fora do circuito econômico, restando produzir objetos já não destinados aos homens e produzi-los sem eles
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Retoma-se a parábola: “Mestre, tenho medo, encontrei a morte: ela me olhou…”
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O mais belo nome é o da vida, que remete a essa potência misteriosa que nos carrega como águas profundas, sempre presente, sustentando-nos sem jamais nos enganar, sendo sua maneira própria a emoção, o sentimento, o sofrimento e a alegria, o inefável bem-estar de se sentir viver, citando-se Mestre Eckhart sobre ser tão desejável a vida que se quer viver mesmo sem saber por quê
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É estranho o silêncio do pensamento moderno a respeito dessa vida, não a vida biológica com seus laboratórios e créditos, mas a vida de que todo mundo fala, instalando-se a suspeita geral assim que se evoca essa essência de nosso ser, atribuída ao “vitalismo”, doutrina na origem tanto das grandes criações artísticas quanto, dir-se-ia, do nazismo
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A causa desses excessos e dessa confusão é a obscuridade intrínseca da força vital, explicando essa obscuridade o “cegueira” dos comportamentos movidos por desejos e pulsões enquanto a luz da razão, idêntica à do mundo e à “luz do Estado”, não vem corrigi-los
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Pergunta-se se essa “obscuridade” da vida não seria antes efeito do próprio cegamento do racionalismo, sua incapacidade de reconhecer outro modo de revelação que o da pensée que só conhece objetos, resultando o rebaixamento da vida de um preconceito antigo segundo o qual só há conhecimento objetivo
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Às pretensões do pensamento objetivo a vida opõe três contraproposições: primeiro, ela mesma cumpre sua Revelação ao se experimentar na certeza invencível de sua necessidade, esforço, sofrimento ou alegria, escapando ao dessa a dúvida, conforme a intuição cartesiana de que mesmo se o mundo não existisse ela subsistiria tal como se experimenta
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Segundo, a vida nunca se expõe na luz do mundo, estando presente a si mesma apenas em si, na interioridade sem partilha de seu próprio pathos, sendo por isso toda substituição apenas representação da vida, um signo, não a vida mesma, citando-se a intuição de Marx sobre o trabalho abstrato como o trabalho real posto diante de si, objetivado, já não sendo mais o trabalho real
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Terceiro, a vida não precisa perguntar à razão o que deve fazer, sabendo-o ela mesma, não pelo saber da razão mas à sua maneira, na prova irrecusável de seu desejo e de sua paixão, sendo ela a verdadeira Razão que atribui aos homens seus fins certos
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A vida é o único fundamento da ética, que se desenvolve sob seus passos, advindo seus progressos sob forma de experiências fulgurantes em que a vida toca seu próprio Fundo, como quando um homem reconhece a Vida no rosto do Outro, afirmando-se então a lei ética com força irresistível que nada sabe de “condições objetivas”
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Tome-se a medida de um universo do qual a vida foi excluída, substituída pela sociedade, o povo, a história, as classes, ou por entidades econômicas e pela realidade material da técnica moderna: é por definição um universo de morte, sendo tempo de loucura quando o que nada sente é posto no princípio da organização do mundo, pois a loucura perdeu tudo exceto a razão
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Nota-se a afinidade entre os regimes de planificação racional exaustiva da sociedade e a técnica moderna, sendo o comunismo um racionalismo radical, primeira tentativa sistemática de reger a atividade humana como sistema de relações objetivas estranho à vida, não se opondo ao mundo ocidental da técnica mas sendo seu precursor abortado, tendo Lênin, ao dizer que o comunismo é a eletricidade e os sovietes, precedido Brejnev esperando a salvação dos computadores, sendo a revista do partido comunista francês chamada La Pensée o título mais honroso do materialismo
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Não se livra da vida tão facilmente, aderindo ela a si mesma com força invencível, subsistindo arqueada sobre si mesma mesmo despojada de todos os bens conquistados ao longo dos séculos, vida sem cultura, sem arte, sem memória, sem religião, reduzida artificialmente a abstrações e a processos materiais explicáveis pela ciência
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Vida ainda assim, que apesar de escarnecida continua a viver, mantendo-a o capitalismo como única força criadora de valor e como subjetividade da consumo de que ainda não aprendeu a prescindir, sendo a essa vida despojada que ele vende objetos baratos, tralha de todo tipo, música para débeis mentais, produtos reduzidos à sua imagem publicitária
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A subjetividade vazia do Ocidente é uma subjetividade ávida, lançando-se sobre tudo que se move, sobre as miragens que lhe são atiradas, tendo aprendido a desejar apenas miragens, que só a saciam se sempre houver outras, como as imagens televisivas cujo fluxo os ministros europeus da Cultura asseguram que só crescerá
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Sob o reinado da técnica o capitalismo deve vender também o que nada tem a ver com a vida — satélites de comunicação em que ninguém comunica com ninguém, naves espaciais, hipermáquinas cujo funcionamento se assemelha, dizem, ao do próprio pensamento —, miragens cuja semelhança com o inerte lhes confere fascinação, termo da entropia e do universo, sendo essa autonegação da vida hoje conhecida em seu verdadeiro nome, seu rosto sinistro, seu odor nauseabundo, e os regimes de que é princípio
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Aqueles que para fugir da morte se precipitam ao Ocidente ainda não sabem que ela os espera no encontro marcado, mas a força que sobe dos indivíduos rebaixados e oprimidos é sempre a da vida, não os enganando por muito tempo as miragens de papelão nem a fritura do McDonald's, sendo a verdade que brilha em seu olhar nem a da democracia nem a do capitalismo, nem a da técnica, mas aquela há muito escondida que gritaram na noite de Praga: a verdade é um grito, o grito da vida, que diz ser a vida e querer viver
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