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Economia

HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.

O indivíduo vivo e a “economia”

  • Definido pela vida, o indivíduo apresenta-se como uma força, sendo essa força o princípio de todo o universo econômico, chamando-se “trabalho” no âmbito desse universo, subjetivo e vivo, tendo seu assento na vida e só nela podendo produzir-se, sendo trabalho subjetivo, trabalho vivo e trabalho real termos equivalentes
  • O trabalho vivo está no princípio da economia em duplo sentido: primeiro como transformação dos elementos da natureza em “valores de uso” conforme as necessidades humanas, sendo a força que opera essa transformação a própria força da vida, coextensiva à história da transformação da natureza pelo homem
  • O universo econômico implica também a troca das valores de uso, sendo essa possibilidade de troca o primeiro grande problema teórico enfrentado pela humanidade, determinando-se a proporção de troca entre objetos qualitativamente diferentes pela quantidade de trabalho que contêm, tornando-se um objeto útil mercadoria quando entra nessa avaliação
  • Colocada essa possibilidade da troca, ela se inverte em impossibilidade, pois o trabalho subjetivo e vivo que produz uma mercadoria não tem, na noite de sua subjetividade, nem objeto nem medida, sendo seu pathos tão imensurável quanto o gosto na boca de cada um ou a intensidade de um amor
  • Essa impossibilidade de trocar trabalhos, isto é, subjetividades, não é dificuldade interna ao universo econômico mas o fato decisivo que deu origem a esse universo, tornando necessária sua invenção: substituir à atividade subjetiva irrepresentável um equivalente objetivo, mensurável, ainda que irreal, mera representação dessa força
  • Elabora-se a lista desses equivalentes objetivos ideais: primeiro o trabalho “abstrato” ou “social”, representação dos caracteres irreais do trabalho subjetivo real, como “trabalho manual”, “qualificado” ou “não qualificado”, permitindo avaliação qualitativa e depois quantitativa através da medida da duração objetiva em horas
    • a valor de troca é assim a representação, num objeto tornado mercadoria, do trabalho social ou abstrato que contém, sendo o dinheiro a valor de troca em estado puro, representação de uma quantidade de trabalho social em si mesma
  • Dessa exposição resulta que, contrariamente ao dogma marxista e à crença do senso comum, a realidade econômica não é a realidade, nem a do indivíduo vivo nem a do universo material, sendo constituída unicamente de entidades ideais, representações irreais, não havendo, como diz Marx, um átomo de matéria na “realidade” do valor de troca
  • Reciprocamente, a realidade, seja da natureza seja da subjetividade dos indivíduos vivos, é inteiramente estranha à realidade econômica, não sendo econômico em si nem o exercício dos poderes subjetivos do corpo vivo — andar, correr, sofrer, amar, pensar — nem uma pedra, uma árvore ou o mar
  • Importa mostrar, porém, que embora estranha à economia, a realidade dos indivíduos vivos constitui seu único fundamento, sendo a força desses indivíduos que produz sem cessar as determinações econômicas, de modo que, se essa força enfraquece ou se interrompe, todo o universo econômico vacila, atingindo-se a própria vida cotidiana em seu cerne
  • Todo processo de produção se desenrola em dois planos distintos, o processo real e o processo econômico, contendo o processo real a força subjetiva dos indivíduos, o trabalho vivo, único que produz, e os instrumentos e matérias-primas, elementos objetivos arrancados da natureza e transformados por essa força, não sendo esse processo real em si mesmo econômico
  • O processo econômico compreende o conjunto das realidades econômicas substituídas aos elementos do processo real, o trabalho social ou abstrato de um lado, os valores de troca de outro, sendo o processo econômico o duplo do processo real, o que exige mostrar, primeiro, que a produção do processo real é a própria ação do indivíduo, e, segundo, que as determinações econômicas são produzidas exclusivamente pelo trabalho vivo desse mesmo indivíduo
  • Retoma-se a demonstração genial de Marx sobre o capital: sendo este um valor de troca que se autoacresce, pergunta-se se esse acréscimo provém de poder próprio do dinheiro ou apenas da ação do indivíduo vivo mobilizando sua força subjetiva de trabalho
  • Na circulação das mercadorias nenhum acréscimo de valor pode ocorrer, pois a troca pressupõe igualdade de valor, exigindo-se então uma mercadoria extraordinária capaz de produzir valor por si mesma: o próprio indivíduo vivo, que se vende por não ter mais nada a oferecer além de sua força, comprando o capitalista o uso dessa força com a qual produzirá valor, surgindo assim a mais-valia como o excedente de valor criado ao longo do dia de trabalho além do valor do salário
  • Explica-se esse fenômeno remontando ao “laboratório secreto da produção”, à subjetividade da vida onde se desdobra sua força, sendo o aumento de valor inexplicável no plano econômico e exigindo o retorno à dimensão original onde a força produz o objeto útil e, com ele, seu valor
  • Pergunta-se por que o valor do salário é inferior ao valor produzido pela força de trabalho, respondendo-se que representa apenas as subsistências necessárias à manutenção dessa vida por um dia, enquanto a força de trabalho é capaz, num mesmo tempo, de criar mais valores de uso do que necessita para sua própria manutenção, sendo essa capacidade de dar mais do que recebeu, de produzir mais do que consome, propriedade absoluta da vida e sua condição metafísica de poder de acréscimo
  • Sobre essa propriedade fundamental repousa toda sociedade, todo desenvolvimento humano e todo sistema econômico possível, tanto o capitalista quanto o socialista, importando pensar até o fim o papel determinante do indivíduo na economia
  • O mistério da mais-valia não se esclarece plenamente apenas com o sobretrabalho, exigindo-se ainda explicar a conservação do valor dos elementos objetivos do processo, matérias-primas e instrumentos, ilustrando-se com o exemplo de Marx de um capitalista que investe 100 talers — 50 de algodão, 40 de salário, 10 de instrumentos —, produzindo a força de trabalho um valor total de 80 talers, questionando-se como se chega aos 140 talers finais somando-se a conservação de 50+10
  • Distingue-se essa conservação real do valor de troca, que pressupõe a conservação do valor de uso antes da troca, da identidade tautológica meramente ideal entre mercadorias trocadas, sendo essa conservação real, que repousa sobre a manutenção da vida útil dos objetos, o que se requer no processo real de produção
  • Retoma-se a intuição decisiva de Marx: tal como sua produção, a simples conservação do valor se passa fora da esfera econômica, na esfera da vida e do trabalho vivo, revelando-se aqui a grande lei metafísica do ser segundo a qual as coisas não subsistem por si mesmas mas apenas em contato misterioso com a vida, que as retém no ser e as livra do nada
    • tudo o que é visto, ouvido ou tocado é apenas o correlato de um ato de ver, ouvir ou tocar, e nada seria sem esses poderes do corpo vivo, não havendo nada no mundo senão na vida e por ela, sendo ela o alfa e o ômega
  • É no domínio econômico que essa verdade metafísica se reconhece mais imediatamente, não vendo os olhos no mundo senão a marca do trabalho vivo, sendo o mundo apenas o efeito da práxis, citando-se Marx sobre Feuerbach que via em Manchester apenas fábricas e máquinas onde um século antes só havia rocas e teares, e na campanha romana pastagens e pântanos onde no tempo de Augusto havia vinhedos e vilas
  • Se a força da vida se desdobra no coração do ser como operação ontológica que o faz ser, o processo real de produção é apenas caso exemplar dessa operação, sendo o processo econômico, sua representação figurada, só inteligível a partir dela
  • Explica-se como as valores de troca dos instrumentos e matérias-primas se conservam no processo, desaparecendo estas enquanto valores de troca para só intervirem como valores de uso, sendo através da conservação, pela força de trabalho vivo, dessas valores de uso que se conserva também a quantidade de trabalho nelas incluída, isto é, seu valor de troca
  • Explica-se, com conceituação emprestada de Aristóteles, como a força da vida conserva ao modificar o uso das matérias trabalhadas: cada ato do trabalho vivo imprime à matéria uma forma sem a qual ela não existiria, sendo essa forma o “trabalho objetivado”, que confere à substância material sua condição de valor de uso
  • O importante é que a forma impressa pelo trabalho vivo não subsiste por si mesma nem pela matéria que informa, sendo o trabalho objetivado, em si mesmo, trabalho morto, votado ao perecimento assim que a força que o sustenta se interrompe, revelando-se aqui a metafísica da vida em toda sua potência redutora
    • cessando o trabalho vivo, o ser se fissura em toda parte de nada: a ferramenta se deforma, o ferro enferruja, o porto assoreia, a barcaça apodrece, os aquedutos rebentam, a água transforma campos outrora férteis em pântanos pestilentos, e mercadorias de todo tipo se corrompem e desaparecem, formando-se filas diante de vitrines vazias
  • Colocam-se dois casos de figura conforme a força da vida investida no trabalho se desdobre em sua máxima potência ou, descontente de si e do mundo, renuncie a seu pleno exercício, recusando o esforço até não fazer mais nada, engano gravemente quem vê nisso mera peripécia histórica local, pois quando a força metafísica que sustenta tudo enfraquece, o déficit ontológico não se circunscreve, arrastando consigo todos os valores de uso e de troca
    • faltando dinheiro que valha algo e faltando o que comprar, produtos raros adquirem valor fabuloso, mítico, onírico, mera miragem situada no limite do possível
  • Separado do trabalho vivo, o universo dos instrumentos perde todo sentido: máquinas quebradas, oficinas paradas, canteiros fechados por anos, sendo a morte que se apoderou desse mundo do qual a vida deixou de querer, assemelhando o universo exangue do socialismo, por seu caráter fúnebre, como um irmão ao do fascismo
  • Anuncia-se o segundo caso de figura, o capitalismo, no qual, sem hesitar, é à vida, à força de trabalho vivo, que se recorre
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